29
Out 15

«Pé-de-meia», sempre

Locuções de qualquer tipo, sim, mas...

 

      Mas que porra!, podia eu dizer, mas não digo. Alguém escreveu aqui «pé de meia», porque «o autor escreve segundo o novo acordo ortográfico». Então, é com hífenes, nada mudou. Ah, mudou, sim, senhor revisor! Veja aqui no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Ah, então leia aqui no ponto 6.º, Base XV, do Acordo Ortográfico de 1990. Queira desculpar. Isto de as excepções consagradas pelo uso ser um conceito aberto foi outra argolada.

 

[Texto 6366]

Helder Guégués às 22:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Colocações culinárias

É uma maldição

 

      «Açorda madeirense – Açorda feita a partir de pão migado, ou em pequenos pedaços, e milho cozido. Rega-se com azeite e coloca-se alhos esmagados, tomilho e pimenta da terra; de seguida, escalda-se com água a ferver, na qual se escalfaram ovos para acompanhar. À parte, serve-se batata-doce cozida ou assada com casca.» É uma das entradas do novíssimo Dicionário Prático de Cozinha Portuguesa, de Virgílio Nogueiro Gomes 
(Marcador Editora/Presença, 2015, p. 20). Vamos lá ver: a quem é que não ocorre logo, de uma penada, meia dúzia de verbos melhores, mais expressivos, em vez daquele «coloca-se»? Se procurarmos, encontramos casos piores, como é logo este da página 21: «Adobe – Termo transmontano para colocar carnes em temperos antes de se fazerem enchidos. Também se diz adoba.» Que significa isto exactamente? É claro que nunca numa recensão diriam fosse o que fosse sobre estas questões. Noutros casos, a opção é discutível. Por exemplo, porquê registar «Ameixas d’Elvas DOP» desta forma? E esperemos que a grafia «açerola» (p. 18) não seja convicção do revisor nem vingue.

 

[Texto 6365]

Helder Guégués às 15:47 | comentar | favorito
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E a metafonia?

Os destroços da pronúncia

 

      José Manuel Rosendo é o enviado especial da Antena 1 à Síria. Nos noticiários de hoje: «O percurso ao longo do Curdistão Sírio é através de uma estrada muito maltratada preenchida por postos de controlo das várias milícias e também da Polícia curda, postos de controlo improvisados com destroços de guerra colocados na estrada para obrigarem os carros a parar.» Nos três casos, saiu assim: «pôstos», «pôstos», «destrôços». Será convicção.

      Eu é que podia ser mudo, não falo com quase ninguém. Um repórter tem de saber falar. Se escrevermos e falarmos como nos der na telha, não nos vamos entender. «Postos» e «destroços» são plurais metafónicos, José Manuel Rosendo. Algumas palavras, quando são pluralizadas, além de receberem a respectiva desinência, mudam o timbre da vogal tónica, que passa de fechada a aberta. É o caso destes dois: «póstos» e «destróços».

 

[Texto 6364]

Helder Guégués às 15:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Out 15

Como se traduz por cá

Dediquem-se a coisas mais fáceis

 

      Javier Cercas publicou um novo livro, O Impostor (Assírio & Alvim, com tradução de Helena Pitta), sobre o espanhol Enric Marco, um falso sobrevivente dos campos da morte nazis. Teresa Nicolau, da RTP, foi entrevistá-lo. É um romance sem ficção, salienta o autor. Não há ficção. «Y se me preguntas por qué, yo te contesto: “Muy fácil: etc.» Nas legendas: «E se me perguntar porque contesto, é muito fácil.» Já está no título, mas repito-o aqui: dediquem-se a coisas mais fáceis.

 

[Texto 6363]

Helder Guégués às 13:41 | comentar | favorito
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