28
Out 15
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Out 15

Léxico: «horeca»

Heureca

 

      «No segmento horeca (hotelaria, restauração e cafés), a quota é de 40%, “dando sinais de estar a crescer”» («Delta lança cevada em cápsulas
para captar novos consumidores», Camilo Soldado, Público, 28.10.2015, p. 24).

      Há anos já que falei desta amálgama — hotelaria, restauração, cafés —, que é uma forma de neologia, no Assim Mesmo. Continua, apesar de ser usada com frequência, ausente dos dicionários.

 

[Texto 6361]

Helder Guégués às 13:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
27
Out 15

«Tivemos/‘tivemos/estivemos»

Vão longe

 

      «O Papa e Davis tiveram juntos cerca de 15 minutos e conversaram sempre em inglês. “Ele agarrou a minha mão, eu abracei-o e ele também me abraçou. Eu tinha lágrimas a sair dos olhos”, disse a funcionária em entrevista à cadeia televisiva “ABC News”» (Jornal de Notícias, edição em linha, 1.10.2015).

      Há gramáticas de português para estrangeiros que chamam a atenção para o verbo «estar» sofrer contracções (e não é por estar no termo), apresentando-se na oralidade, sobretudo na linguagem popular, com tempos que se podem confundir com os do verbo «ter». Mas — só faltava que não — indicam essas formas contraídas com um apóstrofo: ‘tivemos por estivemos, diferente de tivemos, do verbo «estar». Um erro assim, ainda que na versão digital, num jornal é que ultrapassa tudo o que é tolerável. E, no entanto, ainda na semana passada o encontrei num texto que revi.

 

[Texto 6360]

Helder Guégués às 15:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Fazer/desfazer a barba»

Não percam tempo

 

      Aqui perto de casa, vai abrir no dia 2 de Novembro uma nova barbearia, outro negócio da moda — a Barbearia Fonseca Vintage. Sem o acrescento da palavra inglesa, não teria êxito, como se sabe. Vejam agora o que se propõem fazer, ou desfazer: «Não perca a oportunidade de encontrar um espaço diferente, onde cortar o cabelo e desfazer a barba, num local vintage a recordar os velhos tempos.» Sim, ouço, de quando em quando, mas sempre com um traço de gozo na voz. É verdade que se diz fazer a barba, quando logicamente se deveria dizer desfazer a barba, mas a linguagem é o que é, demasiado livre para a domarmos com a lógica. Fazer a barba é idiomático, e querer corrigi-la é o mesmo que pretender endireitar a sombra de uma vara torta.

 

[Texto 6359]

Helder Guégués às 00:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito
27
Out 15

Como se escreve nos jornais

Um tão imperfeito conhecimento

 

      «“É como se estivéssemos a deitar abaixo o resto do muro de Berlim”. […] A queda do Muro de Berlim foi um dos mais formidáveis acontecimentos da história do século XX, ao reunificar um país, devolvendo a liberdade a milhões de cidadãos separados por quilómetros de arame farpado. [...] Num virtuoso passe de mágica, Costa quis passar um certificado de bom comportamento a Jerónimo e a Catarina, como se ambos tivessem renunciado aos dogmas que trazem colados à pele, onde a democracia não passa de fachada útil para alcançar o poder, fieis à ditadura do proletariado. [...] O colapso do comunismo no leste europeu, embora tenha varrido de cena os principais partidos que dele se reclamavam — em Espanha, Itália ou França — não beliscou o PCP, nem os seus satélites. […] E o Bloco, descontados os sorrisos postiços, é tão trotskista e maoísta como no tempo de Louçã, que continua de batina a orientar a missa a partir da sacristia. [...] Carlos César — um carreirista açoriano sem emprego fora da politica que se lhe conheça — veio dizer na TVI que os termos do acordo com o PCP e o Bloco só serão mostrados após a indigitação de Costa» («Da batota à chantagem política», Dinis de Abreu, Sol, 23.10.2015, p. 33).

 

[Texto 6358]

Helder Guégués às 00:00 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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26
Out 15

«Fortalhaço»

Está nos livros, usa-se

 

      Aconteceu hoje mesmo: um leitor contactou-me porque tinha dúvidas sobre a palavra «fortalhaço». Não a via em nenhum dicionário, e queria usá-la. À vontade. Seria muito difícil os dicionários acolherem todas as palavras que se podem formar. Temos de ver que é uma palavra derivada, com recurso ao sufixo -aço/-aça, com sentido aumentativo (grande dimensão, tamanho exagerado). Animalaço, buzinaço, mulheraça (e, curiosamente, «mulheraço», que os dicionários não registam), tijolaço, balaço (mas usamos quase exclusivamente «balázio»), poetaço, raparigaça, ricaço, valentaço, etc. Sufixo aumentativo, disse eu. Bem, nem sempre: em joelhaço, por exemplo, não há esse sentido.

      «Estava-se na Guerra Russo-Japonesa, e Lu Xun mudara subitamente de ideias quanto ao seu trabalho no futuro, ao contemplar, num filme de guerra, esta cena: um emigrante chinês, um fortalhaço de um homem, de mãos atadas, e vários outros ao redor» (A Filha do Juramento, Maria Ondina Braga. Braga: Edições Autores de Braga, 1995, p. 94).

 

[Texto 6357]

Helder Guégués às 22:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Matar e des-matar

Como assa e desassa

 

      Dois ditadores. Um mandou-o matar; outro mandou-o des-matar, o que só foi possível porque a primeira ordem se revelou de difícil cumprimento. Fica — a língua também serve para brincar — assim. «Desmatar» é antes de mais nada «desarborizar» — matar árvores, como se lembra aqui: «Matar uma pessoa é assassinar, mas matar um animal é sacrificar. Entre os atos de matar animais de que menos temos consciência estão caçar (= matar animais por prazer) e pescar (= matar peixes por prazer). Matar plantas é desmatar, cortar árvores, roçar e até limpar, dependendo das circunstâncias» (Ecolingüística: Estudo das Relações entre Língua e Meio Ambiente, Hildo Honório do Couto. Brasília: Editora Thesaurus, 2007, p. 349).

 

[Texto 6356]

Helder Guégués às 13:15 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Out 15

Numeração romana

Infelizmente em desuso

 

      «O marcador continua parado na página LXXXVIII (nalguns livros franceses, as páginas das introduções, etc. aparecem em numeração romana)» («Os melhores e os piores prefácios», José Cabrita Saraiva, «Tabu»/Sol, 23.10.2015, p. 19).

     Em alguns livros franceses? E então nos portugueses, nunca viu? Prefácios, introduções, explicações e preliminares de uma obra deviam ser sempre assim numerados. Já foi prática habitual e devia ser retomada, para distinguir a obra de todos os seus elementos paratextuais, que por vezes são muitos.

 

[Texto 6355]

Helder Guégués às 08:39 | comentar | favorito
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25
Out 15
25
Out 15

«Efeito surpresa»

Tudo por 2,20 euros

 

    «Os investigadores consideraram que esse telefonema [para Sócrates] estragou o efeito-surpresa da investigação» («Casa de Paris resolve investigação», Carlos Diogo Santos, Sol, 23.10.2015, p. 14).

      Acha que sim? E o efeito estufa, o efeito Joule, o efeito placebo, o efeito Doppler..., também têm hífen para se aguentarem de pé? Pobres leitores, sempre a desaprenderem.

 

[Texto 6354]

Helder Guégués às 17:28 | comentar | favorito
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