28
Nov 15
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Nov 15

Ortografia: «neojiadista»

Vasos comunicantes

 

      «Evocam Alá a cada frase, mas para os neo-jihadistas, como aqueles que atacaram Paris no dia 13 de Novembro, o islão é sobretudo um pretexto que lhes permite extravasar uma revolta pessoal e uma sede de violência» («Os neo-jihadistas ou a “islamização da radicalidade”», Michel Moutot, APF/Público, 27.11.2015, p. 21).

   Há também uma certa deriva ortográfica no Público. Anteontem vimos o caso de «bairro de lata», que hoje se repete (p. 24). E que dizer deste «neo-jihadistas»? Será a ortografia um mistério impenetrável? Com compostos formados com este elemento, só se emprega hífen quando o segundo elemento começa por vogal, h, r ou s. Logo, neojiadista. Sim, sem aquele h ali no meio. Já está assim dicionarizada.

      Algo se perde muitas vezes na tradução, mas não tem de ser sempre assim. Reparem no título original: «L’islam, prétexte des “nouveaux” djihadistes». E agora o início do artigo: «Ils invoquent Allah à chaque phrase, etc.» E mais à frente: «Desprovidos de experiência militar, de formação religiosa e geralmente de competências linguísticas, 
eles definiram a ultraviolência como o seu valor acrescentado, que, pelo sadismo, evoca o filme de Stanley Kubrick A Laranja Mecânica. E aplicam-na com os talentos instintivos de comunicantes formados na era do Facebook”, continua Harling.» Será mesmo «comunicante» a palavra certa e não «comunicador»? Em francês é communicants, sim.

 

[Texto 6433]

Helder Guégués às 15:18 | favorito
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27
Nov 15

Indigitar, indicar, nomear...

Afinal, tudo foi por acaso

 

      «No artigo intitulado O segredo
 de Costa e César afirma-se que
 a Constituição refere o verbo “indigitar” para designar o acto de nomeação do primeiro-ministro pelo Presidente da República. Ora o que o artigo 187, n.º 1 diz, é: “O primeiro-ministro é nomeado pelo Presidente da República (...)”. Ou seja, o verbo é “nomear” e não indigitar, como erradamente se afirmou no referido artigo.
 Do lapso, pedimos desculpa aos nossos leitores» («O Público errou», Público, 27.11.2015, p. 44).

      Artigo que era o editorial, no qual se lia: «Muito contrariado, Cavaco Silva acabou por “indicar” António
 Costa e não indigitar, como refere a Constituição. A troca de verbo não 
é um acaso, mas antes a deliberada exposição pública do estado de alma do Presidente na hora de anunciar a decisão sobre o nome do futuro primeiro-ministro.» Não sei como caem nestes erros tão básicos. Não foram os únicos na imprensa portuguesa. Uma alma caridosa disse-lhes, entretanto, que é na Constituição que se comprovam estas coisas, e não por aritmancia, bibliomancia ou qualquer outro método igualmente científico.

 

[Texto 6432]

Helder Guégués às 10:03 | ver comentários (1) | favorito
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Casa do Estado/State House

Karibu Quenia

 

      «“A experiência demonstra que a violência, o conflito e o terrorismo se alimentam do medo, da desconfiança e do desespero, que nascem da pobreza e da frustração”, afirmou o Papa no discurso na Casa do Estado, horas depois de aterrar na capital queniana» («“O terrorismo nasce
 da pobreza”, disse Francisco aos quenianos», Sofia Lorena, Público, 26.11.2015, p. 25). Já o Jornal de Angola optou — mal — pela designação em inglês: «A cerimónia oficial de boas-vindas decorreu na ‘State House’ de Nairobi, para onde Francisco se deslocou em carro fechado» («Papa Francisco chega ao Quénia», Jornal de Angola, 26.11.2015, p. 32).

 

[Texto 6431]

Helder Guégués às 09:42 | favorito
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27
Nov 15

De norte a sul

Nem em 300 anos

 

      «A polícia arromba portas do Norte ao Sul do país em busca de radicais. Aproveita as liberdades que lhes dá o estado de emergência. Mas muitos queixam-se de islamofobia e de deriva securitária» («França: depois do terror, a deriva securitária», Félix Ribeiro, Público, 27.11.2015, p. 22).

      Até demorou mais a fazer mal, mas depois desculpam-se com a falta de tempo. É de norte a sul, de leste a oeste. É assim quando os pontos cardeais designam direcções ou limites geográficos. Nada mudou com o Acordo Ortográfico de 1990.

 

[Texto 6430]

Helder Guégués às 09:01 | ver comentários (1) | favorito
26
Nov 15

Tudo intraduzível?!

Sexta-Feira Negra sem carta verde

 

      «No caso dos irmãos responsáveis pelas bombas na maratona de Boston, há dois anos, Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev viviam no país desde que os pais tinham recebido asilo político. Dzhokhar era já norte-americano, Tamerlan tinha um green card, uma licença de residência e trabalho que antecede a residência permanente» («Nem um só refugiado esteve envolvido 
em actividades terroristas nos EUA», Sofia Lorena, Público, 26.11.2015, p. 25).

      Ah, sim, isto também é intraduzível. Aprendei com um semiletrado: «Eu puxei o cartão verde/Que no bolso ainda tinha/E disse dentro da mala/Tem lá a direcção minha» («Uma vida perdida», Jorge Caires, in Cantares de Além-Mar, com selecção, prefácio e notas de Eduardo Mayone Dias. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1982, p. 156). Vá lá, felizmente por estes dias só ouço e leio Sexta-Feira Negra...

 

[Texto 6429]

Helder Guégués às 21:38 | ver comentários (3) | favorito
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26
Nov 15

Ortografia: «bairro-de-lata»

Já no declive da alienação

 

      «Hoje, Francisco, o Papa que disse querer dedicar o seu pontificado aos mais pobres, aos que vivem “nas periferias do mundo”, deverá visitar um bairro de lata de Nairobi, antes de, já no Uganda, visitar um centro para sem-abrigo» («“O terrorismo nasce
 da pobreza”, disse Francisco aos quenianos», Sofia Lorena, Público, 26.11.2015, p. 25).

    Tem aqui uma infiltrada ou uma renegada, Nuno Pacheco. Mas Montexto tem razão: é bairro-da-lata que dizemos (bem, mas também é «rai-X» que se ouve...). «Assim as cenas da paixão de Cristo serão tratadas com extremo cuidado pictural, sublinhando-se a relação de condescendência e raiva destruidora impotente (por isso bufona) que se estabelece entre a gente endinheirada que protege os meninos pobres de um bairro da lata de Santiago do Chile e as facécias destes, já no declive da alienação, da hipocrisia, da maldade sonsa» (Viagem à União Soviética e Outras Páginas, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Seara Nova, 1973, p. 88).

 

[Texto 6428]

Helder Guégués às 20:25 | ver comentários (3) | favorito
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