04
Nov 15
04
Nov 15

Sobre «salvado»

Pois, mas não está certo

 

      Estava em causa a tradução de salvaged goods, no contexto referido a naufrágios. «Salvados», sugeri. Que não, porque o dicionário («o» dicionário?) diz que esta é palavra relativa a partes de veículos sinistrados ou ao próprio veículo que ficam na posse da seguradora. Já sei, é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que o define dessa forma: «conjunto de peças, partes substituídas de um veículo sinistrado ou o próprio veículo, que passam para a propriedade da seguradora». Não está certo. O Dicionário Houaiss viu melhor a questão: «(1881) qualquer coisa que escapou de uma catástrofe, esp. de incêndio ou naufrágio (mais us. no pl.)». Antes, já José Pedro Machado o definira nos mesmos termos: «Pl. Tudo aquilo que escapou de uma catástrofe, especialmente de um incêndio ou de um naufrágio» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa: Amigos do Livro Editores, 1981, tomo X, p. 573). E registou o vocábulo no plural, como habitualmente se usa nesta acepção, em verbete independente, com remissão para «salvado». A opção do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa foi a de registar apenas no plural (p. 3321); falta saber se o faz de forma coerente com outros vocábulos também apenas ou sobretudo usados no plural.

 

[Texto 6376]

Helder Guégués às 13:15 | comentar | ver comentários (3) | favorito
03
Nov 15

Sobre o aposto

Maria, onde puseste o aposto?

 

      Já sei que há por aí professores que têm dúvidas sobre esta questão. Diga-se já: não faz parte do conceito de aposto a sua posição, pré-nominal ou pós-nominal. «Segundo a gramática tradicional», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «função sintáctica equivalente à de modificador apositivo do nome.» Os gramáticos menos precipitados, como F. Silveira Bueno, o que dizem é que o «aposto ou continuado1, em geral, aparece entre o sujeito e o predicado» (Gramática Normativa da Língua Portuguêsa. S. Paulo: Saraiva, 1944, p. 468). Interessa a função, não o lugar na frase2. Aliás, o aposto pode às vezes referir-se, como ensinou Mário Barreto (Novíssimos Estudos da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1923, p. 143), não a um substantivo, mas ao sentido de uma oração, e também neste caso se antepõe ou pospõe.

 

[Texto 6375]

 

 

1 Vejo que, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se diz que «continuado» é nome masculino, e remete para «aposto». Ora, o que dantes se dizia era que o aposto era o mesmo que adjectivo apositivo ou nome continuado.

 

Curiosamente, em concanim, este complemento antepõe-se ao nome a que se apõe (não estou a brincar com as palavras) e, reparem, fica sempre no nominativo, ainda que o nome receba alguma flexão. (Gramática Concani, Graciano Morais: Lisboa: Agência-Geral do Ultramar, 1961, p. 64) E ainda dizem que em latim é difícil...

 

Helder Guégués às 22:12 | comentar | favorito
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03
Nov 15

«Redigir/caligrafar»

Não é tudo igual

 

  Não estou a ver José Saramago imbuído de esperanças metempsicóticas. De qualquer maneira, ainda que as tivesse, faltava que essa realidade existisse. Na sua página no Facebook, e referindo-se ao primeiro romance, Terra do Pecado, de José Saramago, o escritor José Luís Peixoto escreveu ontem: «Redigi o título na capa da nova edição do primeiro romance de José Saramago. Acabou de chegar às livrarias.» Maneira imprópria de dizer, porque JLP só nasceu vinte e sete anos depois de Saramago ter — ele sim — redigido o título, publicado em 1947. José Luís Peixoto caligrafou, manuscreveu, escreveu, vá, o título. Tão-só.

 

[Texto 6374]

Helder Guégués às 10:59 | comentar | favorito
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02
Nov 15
02
Nov 15

De novo sobre «customizar»

«Obrigado, Helder Guégués»

 

   A consultora Sara Mourato, do Ciberdúvidas, alterou — sem mencionar que o estava a fazer nem referir a minha crítica amplamente divulgada — a sua resposta sobre o vocábulo «customizar» (aqui). É feio — mas eu já estou acostumado. O pior é que a argumentação ficou mal-alinhavada, pela persistência no erro sobre o sufixo verbal: «Vejamos agora a formação do verbo "costumizar": este verbo é formado por costum- + izar. O elemento de composição latino costum- significa “costume, hábito, uso”, e o sufixo derivacional -izar tem carácter causativo, tal como em arborizar (Dicionário Houaiss 2001). Assim, em língua portuguesa, podíamos assumir que costumizar seria “fazer com que passe a costume”, e não “adaptar às necessidades do cliente”. Para evitar tal equívoco, o melhor será, portanto, recorrer a personalizar.» Pobres leitores.

 

[Texto 6373]

 

 

Actualização às 13h05

 

Já depois deste meu texto, a consultora Sara Mourato acrescentou: «N. E. — Resposta corrigida em 2/11/2015, na sequência de reparos e observações de outros consultores.» Obrigado, mas eu não sou consultor do Ciberdúvidas. Só espero que estas atitudes não se aprendam agora na universidade.

 

Actualização às 15h05

 

Já depois do meu protesto de hoje, voltou a alterar assim: «Vejamos agora a estrutura da forma "costumizar", verbo analisável em dois constiutintes: costum-, radical de costume, “hábito, uso”; e o sufixo derivacional -izar, de valor causativo (cf. arborizar; ver também Dicionário Houaiss, 2001). Assim, em língua portuguesa, poderíamos ser levados a interpretar "costumizar" como o mesmo que “fazer com que passe a costume”, e não “adaptar às necessidades do cliente”, que é o significado associado ao inglês customize. Para evitar tal equívoco, o melhor será, portanto, recorrer a personalizar.»

 

Actualização às 15h55

 

Se pensam que me intimidam com mensagens anónimas — com rabo de fora —, estão bem enganados. A crítica a que se referem já era em retaliação por eu os criticar, de quando em quando. Fui sempre brando, sobretudo em 2007, quando me copiaram integralmente uma resposta! São esses os valores que, como professores, passam aos seus alunos? A próxima vez que me fizerem algo semelhante, terão de se haver comigo cara a cara.

 

Actualização às 20h10

 

Antes fosse apenas um mau sonho, mas não. Eliminaram a nódoa, mas não ficam ilibados, ainda me devem um pedido de desculpas.

 

Helder Guégués às 11:17 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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01
Nov 15

Preposição «por»

Mais uma falha

 

      «Volviendo al tema de la multiplicación es pertinente preguntarse si se aprende bien o está costando demasiado trabajo a nuestros pequeños entender y memorizar las tablas. La mayor parte de los idiomas tienen esta estructura de “veces”: times en inglés, fois en francés, mal en alemán... Aunque tienen también la otra opción: los ingleses dicen multiplied by que es equivalente a nuestro tradicional “multiplicado por”» («Por qué no es lo mismo 5x3 que 3x5», Joseángel Murcia, El País, 31.10.2015).

   Iam lá lembrar-se de como se diz em português, em galego, em catalão... Uma coisa eu sei: a maioria dos nossos dicionários têm de melhorar o verbete da preposição «por».

 

[Texto 6372]

Helder Guégués às 23:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Porquê/por quê»

Porquê complicar?

 

      «Por quê um Divertimento, em tais circunstâncias? Talvez por se sentir 
“um músico do antigo regime, que o seu mecenas convidou”. Mas talvez também para radicalizar na obra o paradoxo.
 É um Divertimento em que a alegria de fazer música, o exercício lúdico das destrezas, a seiva das danças populares são brutalmente interrompidos pela inexorável aproximação da catástrofe: um molto adagio inquietante, culminando em “trilos do diabo” aterradores, e esvaído num gesto de luto. Testemunho tão carregado de atualidade que continua a fazer do seu autor [Bartók] um exilado» («O Divertimento inquietante de um refugiado húngaro», Mário Vieira de Carvalho, Público, 1.11.2015, p. 52).

      Levei a vida a pensar que Mário Vieira de Carvalho era português. Até hoje. De facto, os Brasileiros escrevem «por quê»; para nós, o advérbio interrogativo escreve-se numa só palavra, «porquê».

 

[Texto 6371]

Helder Guégués às 19:00 | comentar | ver comentários (8) | favorito
01
Nov 15

Sobre «comentariado»

O bando

 

      «A televisão, o Komentariado, a internet e os jornais não fazem outra coisa senão discutir o sentido do voto de 4 de Outubro; um governo que aparentemente existe mas não governa; um governo que não existe mas vai governar; o que o Presidente parece ter querido dizer; o que o presidente de certeza não disse; o estado de espírito de António Costa; o que verdadeiramente pensa, ou não pensa, Jerónimo de Sousa; um “pacto” que haverá ou não haverá entre o PS, o Bloco e o PC; a exacta natureza e a “estabilidade” desse pacto; o que por aqui e por ali declaram os “notáveis” partidários; as tradições da democracia indígena; e a aflição da “classe média”» («Palavras para passar o tempo», Vasco Pulido Valente, Público, 1.11.2015, p. 56).

    Arrussalhado, com k maiúsculo, parece uma temível instituição soviética. Já em 2009 eu tinha anunciado, com a grafia «comentariado», obviamente, a sua chegada. Não percebo é o menospreço de Vasco Pulido Valente. Não faz ele parte do comentariado?

 

[Texto 6370]

Helder Guégués às 18:00 | comentar | favorito