09
Nov 15
09
Nov 15

Sobre «libélula»

Em jeito de folhas de livro

 

      «A designação de tira-olhos deu-lhe má fama, que não tem qualquer razão de existir, bem pelo contrário» («O mundo das libélulas e das libelinhas», Luís Henrique Pereira, Bom Dia[,] Portugal, 8.11.2015). Habitualmente, o que se diz é que isto ou aquilo «não tem razão de ser», não de «existir». Os verbos ser e existir não são tão intermutáveis como se julga. Quanto a libélula, é interessante ver que outro nome, libelinha, é a forma haplológica do diminutivo libelulinha. A etimologia do vocábulo é que, como sucede com tantos outros, não é clara. Escreve Botelho de Amaral: «Há um insecto chamado libelinha, e a razão deste chamadoiro adveio-lhe da disposição das asas em jeito de folhas de livro» (Meditações Críticas sôbre a Língua Portuguesa. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 70). Agora consultem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Pois é.

 

[Texto 6383]

Helder Guégués às 22:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
08
Nov 15

«Alto e bom som»

Versão piorada

 

      Bem se diz que nas farmácias há de tudo: também erros. Embora o mais frequente seja usar-se com preposição — em alto e bom som —, como se lê, por exemplo, em Camilo, esta expressão adverbial não precisa de preposição: alto e bom som.

 

[Texto 6382]

Alto e bom som.jpg

 

Helder Guégués às 12:53 | comentar | favorito
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08
Nov 15

«Antecessor/predecessor»

Jornalistas e fantasmas

 

      «Um escritor-fantasma é contratado para concluir a autobiografia de Adam Lang, ex-primeiro-ministro britânico, iniciada por um outro escritor que morreu acidentalmente. Mas, o que à primeira vista parece a oportunidade de uma vida revela-se muito mais complexo e, à medida que o seu trabalho na escrita vai avançando, compreende que algo de sinistro existe em toda aquela história
 e uma suspeição paira sobre a morte do seu predecessor. Filme de Roman Polanski, baseado 
no livro The Ghost escrito por Robert Harris, que desenvolveu o argumento em conjunto com o realizador» («O Escritor-Fantasma [The Ghost Writer]», Público, 8.11.2015, p. 38).

    Se houve apenas um antes do actual escritor-fantasma, não é o predecessor, mas sim o antecessor. Se houvesse vários, o primeiro antes do actual seria o antecessor, e todos os outros seriam predecessores, ou seja, predecessor é o que precedeu o antecessor imediato. Já Morais o explicou há mais de duzentos anos, pelo que já é tempo de os falantes — e sobretudo os jornalistas — o saberem. Quanto a «escritor-fantasma» — que ainda não aparece, nem sequer no verbete «escritor» dos nossos dicionários, quando é uma realidade cada vez mais presente —, põem-se duas questões: uso do hífen e o plural. O Manual de Português da Abril (2012, p. 83), e de um manual esperamos sempre que seja prescritivo, diz isto de «fantasma»: «Quando empregado como adjetivo, liga-se ou não com hífen ao termo anterior: navio(-)fantasma (plural: navios(-)fantasmas ou navios(-)fantasma); hospital(-)fantasma (hospitais(-)fantasmas ou hospitais(-)fantasma).» Esperemos pela opção dos lexicógrafos.

 

[Texto 6381]

Helder Guégués às 12:28 | comentar | ver comentários (2) | favorito
07
Nov 15
07
Nov 15

«Palete/paleta»

Convicções de uma vida

 

      «Uma palete de cores ricas de vida: amarelos, azuis, encarnados, brancos...» Alto! Quem escreve assim julga que está perante mais uma das duplas grafias, como avioneta/avionete; bobina/bobine; cabina/cabine; equipa/equipe; gabardina/gabardine, entre outras. Acontece, porém, que palete vem do inglês pallet, ao passo que paleta vem do italiano paletta. Ora, a versão em linha do Dicionário de Português-Italiano da Porto Editora dá para a nossa «paleta» os correspondentes vocábulos italianos «tavolozza; paletta, pallet». Está, evidentemente, errado quanto a este último. É, porém, certo que em italiano se usa tavolozza para a pequena tábua em que os pintores dispõem e combinam as tintas, e não (nunca?) paletta. E, no entanto, a nossa «paleta» é, na língua francesa... palette. Em castelhano é menos dúbio: a nossa «palete» é palé e a «paleta» é paleta.

 

[Texto 6380]

Helder Guégués às 21:27 | comentar | favorito
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06
Nov 15
06
Nov 15

«Tido e mantido/teúdo e manteúdo»

Sem discriminação

 

      Maria Filomena Mónica, em entrevista à Sábado desta semana: «Do ponto de vista moral, um amigo que me sustentasse faria de mim uma mulher tida e mantida. O que até era corrente na sociedade portuguesa, haver amantes financeiramente sustentadas por homens» («“Sou pessimista. Mas isto é menos dantesco do que estava à espera”», Dulce Garcia, Sábado, 5.11.2015, p. 44).

      Fazemos assim: quando virem esta expressão num qualquer livro, vêm aqui dar conta disso. Comum é o uso dos arcaicos teúdo e manteúdo. Como explico na obra Em Português, Se Faz Favor (Lisboa: Guerra & Paz, 2015, p. 149), dos particípios em -udo, outrora abundantes, só temos, actualmente, vestígios, entre os quais estes. Tem de ir para os dicionários, mas como expressão que se tornou, porque os dicionários que consultei registam, em verbetes independentes, «teúdo» e «manteúdo». Mas atenção: não ficam no feminino. Há por aí um lexicógrafo — de preferência lexicógrafa — que as registe?

 

[Texto 6379]

Helder Guégués às 01:18 | comentar | ver comentários (3) | favorito (1)
05
Nov 15

Léxico: «atestado de quite»

Adivinhar perigos, e evitallos...

 

      «Jorge Silva Carvalho, que há muito vinha sendo contestado dentro da maçonaria por alegadamente dar “má fama” à instituição, solicitou o “atestado de quite” em Abril de 2014, dias antes de o Tribunal de Instrução Criminal confirmar que teria de responder em juízo por alegadamente ter favorecido, através da partilha de informações classificadas, uma empresa privada — a Ongoing, onde viria a trabalhar a troco de uma remuneração mensal de 10 mil euros — enquanto ainda exercia funções na liderança do SIED» («Ex-espião deixou a loja Mozart em segredo», F. E., Sábado, 5.11.2015, p. 17).

      Saiu em segredo — mas sabe-se; entrara em segredo — e soube-se. É assim. Bom é ficarmos a saber, para quando chegar a nossa vez, que ao documento em que se concede a demissão formal da maçonaria se dá o nome de atestado de quite. (Não precisava era de aspas, F. E.; em «má fama» ainda compreendo, digamos que está a passar informação que lhe deram e com a qual não se quer comprometer.)

 

[Texto 6378]

Helder Guégués às 22:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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05
Nov 15

Ainda «customizar»

«Personalizar» — sempre

 

      Gostava que fosse evidente para todos que de customize nunca se podia chegar a «costumizar». Há, no étimo inglês, alguma sequência estranha ao nosso sistema fonológico ou ortográfico que imponha aquela alteração? Não há. Logo, o aportuguesamento é simples e directo: customizar. Isto porque o vocábulo estrangeiro, tratando-se de um verbo, e verbo inglês, não foi — nem podia ser — simplesmente adoptado, como se fez com leasing, stop, sexy, etc. Também não estamos perante um decalque, como em «arranha-céus», de skyscraper, ou «luta de classes», de Klassenkampf, por exemplo.

      Entretanto, no meio de toda esta trapalhada indigna, algo de bom aconteceu: a versão em linha do Vocabulário Ortográfico da Porto Editora deixou de registar «costumizar». Estamos sempre a tempo, e com efeitos imediatos neste mundo virtual, de recuar nas nossas opções e ideias. Depois dos tropeções do Ciberdúvidas, digno, humilde e inteligente seria reconhecer que «customizar» é o único aportuguesamento possível, pois adoptá-lo de um cognato é ideia supinamente infeliz. Façam-no, e o nosso respeito será retomado.

 

[Texto 6377]

Helder Guégués às 08:36 | comentar | ver comentários (5) | favorito