14
Dez 15

Gerúndio antecedido de preposição

Portuguesíssima

 

   Perguntaram-me, na semana passada, se em português existe a construção em + gerúndio. Já existia no português arcaico, questão tratada em tempos no Assim Mesmo. O gerúndio é, juntamente com o infinitivo na construção para + infinitivo, a única forma verbal que pode vir regida de preposição, e usa-se para expressar tempo, hipótese ou condição. Tempo: «Em aparecendo o Sol, as névoas começam a sua missão agitada» (As Ilhas Desconhecidas, Raul Brandão). Hipótese: «Em se tratando de maroteira mestra, não só metias os teus dois oiros de eloquência choca em teus discursos, mas sempre aparecias com um projecto de decreto, com um projecto de lei» (Tripa por Uma Vez, José Agostinho de Macedo)*. Condição: «Em fazendo isto, poderás vir, e ver-me» (A Santa Bíblia, P.e António Pereira de Figueiredo).

 

[Texto 6479]

 

 

* Errou, pois, o consultor do Ciberdúvidas A. Tavares Louro ao afirmar («“Em se tratando” = “tratando-se de”», 6.10.2004, aqui) isto sobre a estrutura em apreço: «Parece-nos que a forma apresentada corresponde a um galicismo, dado que na língua francesa existe o “gérondif”, em que o particípio presente é precedido de en. Exemplo: “Il lit en se promenant”, que se pode traduzir por “Ele lê passeando”, “Ele lê a passear” ou “Ele lê enquanto passeia”. Talvez seja melhor substituir “Em se tratando...” por “Tratando-se de...”, “Quando se trata de...”. Parece-nos que o conjunto “Em se tratando” é uma má tradução da forma francesa “En s’agissant”.»

Helder Guégués às 22:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Troca de conceitos

O dicionário e o Pai Natal

 

      «Rabito fez uma transliteração fonética do seu dialecto siciliano, cada palavra separada por um ponto e vírgula — mais de mil páginas sem qualquer outra pontuação, nenhuma pausa. Em 2007, a conhecida editora Einaudi publicou essa obra — revista e editada — sob o título Terra Matta. Cinco anos depois, o livro deu um filme documental, o multipremiado Terramatta: o século XX italiano do analfabeto siciliano Vincenzo Rabito» («Todas as memórias podem dar livros», Vanessa Rato, Público, 14.12.2015, p. 27).

      Será mesmo de transliteração que se trata? Ora eu duvido. O que vejo em todo o lado é que se trata de uma língua inventada, nem italiano, nem dialecto. Se a fonte é a oralidade, é de transcrição que se trata. Por precaução, peça um dicionário ao Pai Natal.

 

[Texto 6478]

Helder Guégués às 15:17 | comentar | favorito
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«Tratar-se de», pela 20.ª vez

A gramática e o Pai Natal

 

    «Um dos intervenientes nessa reunião foi Henrique Saias, que fez saber que lhe tinha sido transmitido pelos técnicos municipais que, por uma questão de “orçamento”, não era possível mudar a forma de escoamento de águas prevista. Aos vereadores, este morador no Bairro do Arco do Cego levou outras preocupações, por exemplo uma relacionada com a existência de várias “garagens falsas”, em frente das quais os respectivos donos deixam os seus carros, como se de “estacionamentos privativos” se tratassem» («Obras no Arco do Cego não convencem sequer Fernando Medina», Inês Boaventura, Público, 14.12.2015, p. 15).

    Inês Boaventura — ai que desgosto! —, então na acepção de «estar em causa», tratar-se não é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa do singular? «Como se de “estacionamentos privativos” se tratasse». Peça uma gramática ao Pai Natal.

 

[Texto 6477]

Helder Guégués às 12:57 | comentar | favorito
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Léxico: «espelho do lancil»

Em obras

 

      «De acordo com aquilo que explicou Helena Bicho, o facto de a diferença de quota entre a estrada e o passeio (o chamado espelho do lancil) ser inferior ao “tradicional” inviabiliza a possibilidade de serem colocados tubos para a circulação das águas pluviais no interior dos passeios. Além disso, acrescentou, seria “extremamente oneroso ligar morador a morador ao colector”» («Obras no Arco do Cego não convencem sequer Fernando Medina», Inês Boaventura, Público, 14.12.2015, p. 15).

 

[Texto 6476]

Helder Guégués às 12:50 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Sobre «gongórico»

Como disse?

 

     «Marine Le Pen tinha feito, no final
 da primeira volta, declarações gongóricas: com seis regiões “ganhas” pela Frente Nacional (seis em treze, quase metade), invocou o estatuto de “maior partido da França” e anunciou o que parecia ser uma marcha imparável» («O 6 a 0 não é ainda a derrota de Le Pen», editorial, Público, 14.12.2015, p. 43).

      Declarações gongóricas? Ouvi aqui as declarações de Marine Le Pen e não me pareceram gongóricas. As palavras não significam o que nós queremos: significam o que significam.

 

[Texto 6475]

Helder Guégués às 12:24 | comentar | favorito
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14
Dez 15

Sobre «convidante»

Nem convidador

 

      «No seu blogue Abrupto, Pacheco Pereira fez questão de deixar uma pequena justificação sobre a sua nomeação: “Só aceitei por ser um lugar não remunerado e sem qualquer prebenda, condição que coloquei ao convidante”» («Pacheco Pereira em Serralves: “Só aceitei por ser um lugar não remunerado”», Cláudia Lima Carvalho, Público, 14.12.2015, p. 48).

    Vê-se de quando em quando, mas não seria a minha opção. Usaria, por exemplo, uma perífrase: «condição que apresentei à pessoa que me convidou». (E a pontuação? «No seu blogue Abrupto...».)

 

[Texto 6474]

Helder Guégués às 10:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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