04
Dez 15
04
Dez 15

Sobre os diacríticos

Ciência, isto?

 

      «O que complica o caso de bem do ponto de vista ortográfico é que, embora constituindo com o segundo elemento unidade sintagmática e semântica, ela não o é rigorosamente da mesma natureza quando há necessidade do emprego do hífen e quando, justapostos, os elementos se ligam sem o concurso do diacrítico, isto é, juntos» («O comportamento de “bem” prefixado», Evanildo Bechara, O Estadão de S. Paulo, 7.02.2009).

      O que este imortal (não que ficasse com essa ideia quando o vi agora em Lisboa) afirma é o que quase todos os autores afirmam no Brasil: o hífen é um sinal diacrítico. Pelo que pude ver, os nossos dicionários — incluindo o Dicionário Houaiss de 2003 — não consideram o hífen sinal diacrítico, ao contrário dos brasileiros. Transcrevo o que se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o que valerá por todos: «diz-se de ou sinal gráfico (acento gráfico, cedilha, til, trema) destinado a distinguir a modulação das vogais e a pronúncia de certas palavras». Exactamente como aprendi: os diacríticos são sinais que fornecem informação puramente fonética. Mas aquela lição de além-mar não é para nós assombração de além-túmulo: também Cristóvão de Aguiar, nas Charlas Sobre a Língua Portuguesa, considera o hífen um diacrítico. Edite Estrela, nas Dúvidas do Falar Português, escreve que são sinais diacríticos os «acentos, til, hífen, cedilha, apóstrofo». O mesmo para o Dicionário Terminológico, agora tão pouco citado. Não é preciso aprofundar para concluir que o conceito está, estranhamente, dependente da opinião de cada autor.

 

[Texto 6447]

Helder Guégués às 01:04 | comentar | ver comentários (4) | favorito
03
Dez 15

«Como assim?»

Atrevam-se

 

      Há muito que não falo aqui das minhas irritações, na quase certeza de que pouco ou nada interessam aos outros. Hoje, porém, vou ceder. Trata-se de uma tradução do inglês. Uma personagem faz uma afirmação, e a resposta do interlocutor é: «How?» Simplesmente. Não interessa o contexto. Na tradução: «Como assim?» Se querem ver-me indisposto, falem comigo desta maneira.

 

[Texto 6446]

Helder Guégués às 20:15 | comentar | favorito
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«A minha pátria é...»

Do rigor paranóico

 

      Podia ser o nome de uma rubrica do Linguagista, pois já vimos aqui outros casos. Carlos Reis, coordenador do congresso internacional «Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro», que decorre por estes dias em Coimbra, disse — inesperadamente — grandes verdades, tal como faltar vontade política para promover a língua portuguesa. Disse mais: «“Estamos cansados de ouvir e voltar a ouvir gente com responsabilidade citar: a minha pátria é a língua portuguesa’. Como se isso aliviasse as consciências”, criticou. Para além de muitas vezes mal atribuída a Fernando Pessoa, “não basta proclamar” tal expressão, frisou, terminando o seu discurso com uma interrogação sobre se ainda se vai falar em língua portuguesa nos 800 anos da Universidade de Coimbra» (Observador, 2.12.2015, aqui). Será mesmo mal atribuída? Até parecem entidades diversas. Vá lá explicar a uma criança de 8 anos, ou a um analfabeto de qualquer idade, que a frase é e não é de Fernando Pessoa. Inês Pedrosa, no sítio da Internet da Casa Fernando Pessoa: «“A minha pátria é a língua portuguesa”, escreveu, profeticamente, Fernando Pessoa.» 

 

[Texto 6445]

Helder Guégués às 09:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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03
Dez 15

«Salafita» ou «salafista»?

Um pouco de futurismo

 

  «Caro Amigo, que lhe parece a passagem de “salafismo” para “salafita”? Não lhe parece mais correcto dizer “salafista”?! Serão estrangeirismos de origem diversa? Obrigado.»

 

  Parece-me uma passagem perfeita, como de islamismo para islamita ou de vaabismo para vaabita. Em relação a islamismo, houve, entretanto, quem visse a «necessidade» de distinguir o crente, que sempre fora conhecido por «islamita», do combatente, que quiseram baptizar «islamista». Poderia pensar-se que o s pretenderá aludir ao carregador a atravessar o peito do combatente, mas não: distraídos, começaram a escrever assim porque não viram que vem de «islame», e o segundo s de «islamismo» impôs-se-lhes aos olhos. Muito depois de Rebelo Gonçalves registar apenas «islamita» no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, Celso Cunha escreveu esta notinha numa página da sua Gramática Moderna: «Nem todos os designativos de sectários ou partidários de doutrinas ou sistemas em -ismo se formam com sufixo -ista. Por exemplo: a protestantismo corresponde protestante; a maometismo, maometano; a islamismo, islamita» (Belo Horizonte: Editora B. Álvares, 1970, p. 49).

    O que me parece que já está a suceder é que os dois termos, «islamita» e «islamista», são usados indiferentemente, como meras variantes, para nomear os dois conceitos. No futuro, quando já cá não estivermos, prevejo que essa convergência se solidifique, concluindo-se então que, afinal, não era preciso distinguir nada.

  «Vejamos como Abd-el-Jalil — que é um dos paladinos do movimento salafita — entende a unidade religiosa dos islamitas» (O Mundo Árabo-Islâmico e o Ultramar Português, José Júlio Gonçalves. Lisboa: Ministério do Ultramar/Junta de Investigações do Ultramar/Centro de Estudos Políticos e Sociais, 1958, p. 14).

 

[Texto 6444]

Helder Guégués às 08:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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02
Dez 15

«Palavra do Ano»

Sem rapapés: é monopé

 

      Nesta altura do ano, podemos contar com uma tradição tão arreigada como a do Dia das Bruxas: é a Palavra do Ano® da Porto Editora. Entre as dez palavras candidatas deste ano, está «bastão de selfie», e não «pau de selfie». Ou seja, uma locução. Paulo Rebelo Gonçalves, da Porto Editora, tentou explicar — e eu tentei perceber: «Foi considerado pela nossa equipa que é a designação correcta.» E porquê? Pois porque se trata de um «instrumento que reflecte a realidade e não nos reduzimos à dimensão ortográfica da palavra». Em que outra dimensão estava a pensar, nem pistas. E eu que pensava que a um instrumento com aquela forma e função se chamava monopé. Claro que não lhes podia ocorrer tal, pois o Dicionário da Língua Portuguesa daquela editora o mais aproximado que regista é monope, «que tem um só olho, monoftalmo». Ora, qualquer criatura monope, até o Ciclope, vê menos, acho eu, do que uma criatura como nós. Aqui entre nós, é bem provável que a preferência nacional descambe em «stick de selfie».

 

[Texto 6443]

Helder Guégués às 18:34 | comentar | favorito

Pronúncia: «lingueirão»

Quando corrigir é errar

 

      Anteontem, o jornalista Paulo Salvador estava no programa Prova Oral, da Antena 3, para falar do seu livro, Mesa Nacional (Oficina do Livro, 2015). Quando Fernando Alvim falou de lingueirão — e pronunciou bem a palavra, /gu-ei/ —, Paulo Salvador «corrigiu» logo, pronunciando /gej/, ou seja, não proferindo o u. Só pode ser confusão com outras variantes, como longueirão e langueirão, em que o u, de facto, se não pronuncia. Neste caso, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a pronúncia correcta, e não teriam desculpa se o não fizessem, pois Rebelo Gonçalves é claro: «lingueirão (ü), s. m.». Nunca eu ouvi pronunciar o vocábulo de outra forma. O Portal da Língua Portuguesa, do ILTEC, não regista a pronúncia correcta, mas, como se lê que é a «Pronúncia indicativa (em teste)», não podemos senão esperar que irão corrigir mal saibam que está errado. A não ser que se pronuncie assim na Avenida Elias Garcia.

 

[Texto 6442] 

Helder Guégués às 08:16 | comentar | ver comentários (2) | favorito
02
Dez 15

«Vocabulário da Língua Portuguesa»

Pela língua, píxeis ou caracteres

 

      Está ao alcance de alguns prestarem um serviço inestimável à cultura, à língua, à pátria. Basta quererem. Um desses serviços era os herdeiros de Francisco Rebelo Gonçalves (1907-1982) permitirem que se reeditasse o insubstituível Vocabulário da Língua Portuguesa daquele autor, farol que ainda hoje alumia lexicógrafos, linguistas e estudiosos da língua. O jornal Público, que quer — iniciativa a todos os títulos louvável — pôr Sequeira no lugar certo, devia fazer o mesmo com esta obra de Rebelo Gonçalves. Neste caso, o lugar certo é nas nossas estantes, na nossa mesa de trabalho. Não sou rico, mas não deixaria certamente de comprar uns 500 caracteres. Embora... Vendo bem, talvez os meus concidadãos se interessem mais por píxeis. Seja, então.

 

[Texto 6441]

Helder Guégués às 00:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
01
Dez 15
01
Dez 15

«Abaixo-assinado/abaixo assinado»

O escol precisa de escola

 

      Quem me segue sabe bem como me agrada ler a secção «cartas ao director» dos jornais. Repetem-se muito os nomes, e, por isso, parecem constituir um escol. Este, ao começar com «aquando», tinha tudo para eu não o ler, mas faria mal. «Aquando da tomada de posse
 dos últimos governos, em 30 de Outubro e em 26 de Novembro, todos os membros disseram:
 “Eu, abaixo-assinado, afirmo solenemente pela minha honra que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas”. Ora a verdade é que só depois da leitura deste compromisso é que o foram assinar e consequentemente não eram, no momento, abaixo-assinados. O rigor mandaria 
que primeiro assinassem e só depois lessem ou dissessem o compromisso. Ou, então, fosse alterada a expressão “eu, abaixo-assinado”, para “eu, que abaixo assinarei.” Isto é uma coisa simples que qualquer criança anotará sem expor ninguém à chacota, mas sim ao rigor das palavras e à sequência dos actos. As cerimónias foram vistas por milhões de portugueses através da televisão e merecem 
o máximo do rigor, não sendo admissível que antes de iniciar as suas funções os empossados sejam menos verdadeiros, dizendo-se abaixo-assinados quando ainda nada assinaram» (João José Edward Clode, «Cartas à directora», Público, 1.12.2015, p. 44).

      Rigor paranóico, isso sim. Rigor necessário: não se escreve, João José Edward Clode, «eu, abaixo-assinado» — equivalente de «eu, cujo nome aparece abaixo assinado» —, mas sim «eu, abaixo assinado», se for homem; «eu, abaixo assinada», se for mulher. O documento em que se exprime a opinião de um grupo ou representa os interesses das pessoas que o assinam é que é um abaixo-assinado. Promete que neste não volta a cair?

 

[Texto 6440]

Helder Guégués às 07:35 | comentar | favorito
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