29
Dez 15
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Dez 15

«Antes» e «dantes»

Antes de mais

 

      «A pouco e pouco tornou a viver bem, mesmo sem a fortuna de dantes, pilhada no Brasil por antigos empregados do meu bisavô» («A Monarquia», António Lobo Antunes, Visão, 23.12.2015). O leitor R. A. mandou-me esta frase com uma pergunta: «Quer comentar?» Perguntei então se o que estava em causa era a repetição do som. «Não ficava melhor “a fortuna de antes”?» Antes e dantes são sinónimos, é verdade, mas o primeiro é advérbio não apenas de tempo. Se quero dar a ideia de outrora, antigamente, é «dantes» que tendo a usar, embora também pudesse usar «antes». Como quase de certeza não quereria aquele encontro de sons (de... dan), evitava — no caso específico desta frase — ambos e optava por outrora: «A pouco e pouco tornou a viver bem, mesmo sem a fortuna de outrora, pilhada no Brasil por antigos empregados do meu bisavô.» Este «de dantes» é, curiosamente, muito encontradiço nas obras de António Lobo Antunes.

      Há, contudo, matizes que julgo não estarem nos dicionários. Certa vez, o Bom Português foi para a rua perguntar se se devia dizer «antes usava bigode» ou «dantes usava bigode», e concluiu que eram sinónimos. Imaginemos que hoje me encontro pela segunda vez — e a primeira foi na semana passada — com um homem que não conhecia. Desta vez, aparece sem bigode. Para me assegurar da identidade dele, pergunto «antes não usava bigode?», e não «dantes não usava bigode?».

 

[Texto 6509]

Helder Guégués às 08:27 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Dez 15

Que maquinarias estas

Cientificamente

 

   Ana Gerschenfeld entrevista hoje, no Público, o cientista norte-americano, de ascendência portuguesa, Craig Mello, Prémio Nobel da Medicina em 2006. «Recebeu», pergunta-lhe a jornalista, «o Nobel pela descoberta do mecanismo de “ARN de interferência”. Pode explicar do que se trata?» A resposta é extensa, mas só nos interessa a primeira parte: «As células vivem na idade da informação há milhares de milhões de anos. Portanto, precisam de ter maneira de pesquisar informação e para isso desenvolveram uma série de maquinarias muito parecidas com o Google, que nós utilizamos para fazer pesquisas na Web» («Craig Mello. “Há muito boa ciência por fazer que não apresenta qualquer problema ético”», Público, 28.12.2015, p. 30). 

      Não sabemos que língua usou o entrevistado, mas é muito provável que fosse inglês. Ora, aquelas «maquinarias» só têm explicação, a meu ver, se foi tradução — e má tradução — do inglês machineries. Não será antes «mecanismos», e talvez até «processos»?

 

[Texto 6508]

Helder Guégués às 21:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
28
Dez 15

Ortografia: «predefinido»

Estava predefinido

 

      «A sétima temporada da websérie Jerry Seinfeld Comedians in Cars Getting Coffee — na qual o anfitrião entrevista outros humoristas passeando de carro e tomando café, sem um guião pré-definido — terá um convidado muito especial» («Seinfeld convida Obama», Vera Valadas Ferreira, Destak, 23.12.2015, p. 10). 

     É palavra que raramente vejo bem escrita. Alguns até afirmam que nunca antes a viram sem hífen... Impressionante. Tenho aqui à minha frente o tomo IX do insuperável Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, publicado em 1981, e lá está: «Predefinir, v. tr. Definir ou determinar antecipadamente.|| Predestinar. || Prognosticar.» Já «websérie» é a primeira vez que se me depara.

 

[Texto 6507]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
27
Dez 15

Léxico: «ovos-moles pretos»

Em demanda de mais precisão

 

      Com certeza que o ressurgimento dos ovos-moles pretos não obriga a nova redacção do verbete nos dicionários, mas, ainda assim, vejamos. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é um «doce feito com ovos e açúcar em ponto, uma especialidade da região de Aveiro». A começar por «doce», fico com muitas dúvidas. E não seria melhor dizer que é com gemas? Afinal, também não se indica meramente que é com açúcar, mas açúcar em ponto. E o invólucro de massa, omite-se? Omite-se que é conventual? Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, lê-se que é uma «espécie de iguaria doce». Numa edição deste mês do Jornal de Notícias, lia-se que é o «doce típico de Aveiro, feito com gema de ovo e açúcar e coberto por uma fina hóstia branca».

 

[Texto 6506]

Helder Guégués às 20:08 | comentar | favorito

«S-e-l-f-i-e»

Pois é

 

      «Curiosamente, e com o aproximar de 2016, voltou também à ribalta no Brasil o acordo ortográfico (AO), que tanta polémica gerou e ainda gera. O Jornal Nacional da Globo, que fez um trabalho dia 21 ouvindo opiniões contraditórias, terminou com
 uma pergunta ao professor Evanildo Bechara, um dos grandes promotores e entusiastas do AO. Vale a pena reproduzir, na íntegra, o diálogo entre o jornalista e o professor. “J.N: Professor Bechara, como é que se escreve selfie, em português?/ E.B: Por enquanto, é à moda inglesa. Agora, a dúvida é saber se é masculino ou feminino. Porque as duas formas se usam./ J.N.: O senhor poderia soletrar selfie?/ E.B: S-e-l-f-i-e./ J.N.: Exatamente como inglês. Isso é português?/ E.B: É português.” Podemos, portanto, com acordo ou sem ele, dizer na mais vernácula expressão da língua de Camões e Machado de Assis que 2016 vai ser, para o Brasil, a very good year. E que há-de ficar bem no auto-retrato, perdão, na selfie» («Brasil para rir, pensar e desinquietar», editorial, Público, 26.12.2015, p. 2). 

      Surpreendentemente — ou não? —, o único não taralhouco aqui é Evanildo Bechara. (E lá está o gerúndio avariado: «fez um trabalho […] ouvindo opiniões contraditórias».)

 

[Texto 6505]

Helder Guégués às 11:47 | comentar | ver comentários (18) | favorito
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27
Dez 15

«Em detrimento de»

Na dúvida, nunca

 

    «Ontem, dia de Natal, no Twitter, Thom Yorke [dos Radiohead] dissipou todas as dúvidas. O músico confirmou que de facto a banda tinha sido convidada, mas que o tema que tinham composto não tinha funcionado. “Mas tornou-se algo nosso, de que gostamos muito”, escreveu o músico numa declaração que pode ser lida também no Soundcloud. A banda aproveitou ainda para desejar um bom Natal. “Que a Força esteja convosco”, concluiu, numa referência à Guerra das Estrelas e em detrimento de 007» («007 recusou-a, Radiohead fizeram dela uma prenda de Natal», Cláudia Lima Carvalho, Público, 26.12.2015, p. 48). 

      Tenho sérias dúvidas que a locução prepositiva «em detrimento de» seja adequada neste contexto. E, na dúvida, nunca usaria.

 

[Texto 6504]

Helder Guégués às 10:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Dez 15

Léxico: «caça-tesouros»

Ficam no osso

 

      «Este estado das coisas abre espaço para a actuação do fortíssimo lobby dos chamados caça-tesouros, que Filipe Castro, arqueólogo náutico português actualmente a trabalhar no departamento de Antropologia da Universidade do Texas, classifica como “um negócio de criminosos”» («Um galeão afundado, com ou sem tesouro, também é política», Sérgio C. Andrade, Público, 26.12.2015, pp. 26-27). 

      A maioria dos dicionários regista caça-bombardeiro, caça-minas, caça-moscas, caça-níqueis, caça-submarino e caça-torpedos. Alguns registam caça-dotes (porque em número superior aos caça-tesouros?). Nas obras de Nelson Rodrigues aparecem caça-dotes. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, contudo, não regista «caça-dotes», nem «caça-rapazes», por exemplo. Com o tempo, os dicionários vão alijando carga, até só terem o português fundamental e os neologismos do dia.

      «O vestido dela era preto e cingido, coxas à mostra; cabelo curto, liso atrás e uns caracolinhos caça-rapazes caídos para a testa...» (As Contadoras de Histórias, Fernanda Botelho. Lisboa: Editorial Presença, 1998, p. 122).

 

[Texto 6503]

Helder Guégués às 13:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Dez 15

Ortografia: «Bahia»

Por tradição

 

    «Mas o arqueólogo e investigador acha que, “pela similitude que apresenta com o San José, a nau Santa Rosa será o caso mais emblemático”. Explica tratar-se de “uma embarcação de 66 canhões, construída em Lisboa em 1716”, que foi destruída “num incêndio e subsequente explosão nos paióis da pólvora, em 1726, quando regressava da Bahía a Lisboa”, e quando transportava cerca de 10 toneladas de ouro — pereceram então 700 portugueses. Deverá encontrar-se “em águas territoriais brasileiras, ao largo do cabo de Santo Agostinho, Pernambuco”, acrescenta Alexandre Monteiro, notando que, “um dia destes, Portugal terá que se confrontar com um destes casos”: um navio com a sua bandeira de Estado, “com um tesouro a bordo, pronto a ser vendido em leilão”» («Um galeão afundado, com ou sem tesouro, também é política», Sérgio C. Andrade, Público, 26.12.2015, p. 27). 

      O erro espreita sempre. O nome do Estado nordestino é grafado com h medial, sim, mas sem acento agudo no i, porque antigamente o h era utilizado para indicar o hiato (bahia, cahir, sahir, etc.). Quando deixou de se usar o h para este fim, o hiato passou a ser indicado pelo acento. O Estado da Bahia, contudo, manteve a grafia tradicional. Em castelhano é que se escreve bahía. Ora, não afirmou Afrânio do Amaral (1894-1982) que «bahia» é espanholismo?

 

[Texto 6502]

Helder Guégués às 10:46 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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