26
Dez 15
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Dez 15

Os melhores do ano

Observador independente

 

      «José Manuel Fernandes, Rui Ramos, David Dinis — Criaram o primeiro grande jornal online, o Observador. Numa altura em que toda a gente fala numa língua que não chega a ser português, é bom saber que ainda aparece quem escreva português e, às vezes mesmo, bom português» («Os melhores do ano», Vasco Pulido Valente, Público, 26.12.2015, p. 48).

 

[Texto 6501]

Helder Guégués às 10:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dez 15
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Dez 15

Os animais do presépio

Voltemos a Belém

 

      Tal como os circos estão a deixar de ter animais, também já nem todos os presépios têm os simpáticos burrinho e vaquinha. Esperem, burrinho e vaquinha? Não, não: na estrebaria de Belém, só estavam fêmeas, uma vaca e uma mula. E, de qualquer maneira, é versão apenas dos Evangelhos Apócrifos. Sim, uma mula, esse animal híbrido e estéril (e, sobre esta característica mais definidora, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem uma palavra), desde sempre associado às piores manhas. Em Belém, a mula — que, na interpretação de alguns biblistas, representa o povo de Israel, ao passo que o burro representa os cristãos — ia comendo a palha e mordendo o Menino. O bafo que aconchegava o Menino era só o do burro. Claro, porque carinho de mula é coice. Mas a Virgem estava lá e viu tudo, e por isso amaldiçoou a mula e abençoou a vaca.

 

[Texto 6500]

Helder Guégués às 10:08 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Dez 15
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Dez 15

Léxico: «coscorel»

Porque é Natal

 

      «Doces que as mãos mais experientes vão amassando, desta vez numa iniciativa pública do ciclo “Pinhel, museu à noite”, onde ficou a saber-se, por exemplo, que na aldeia do Manigoto, em vez de filhoses, há coscoréis» («As mesas de Natal em Pinhel têm tudo o que é hábito mais coscoréis e migas de chocolate», Jorge Esteves, Jornal da Tarde, RTP1, 23.12.2015). Pois é, mas, entretanto. de alguns dicionários — como do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — já a palavra desapareceu.

      «Nas ceias da consoada é uso e costume comerem-se diversos pratos e doces tradicionais: a galinha ou peru assados, o bacalhau ou o polvo cozidos, a carne de vinha-d’alhos ou as alheiras, os coscoréis ou os belhóses [sic], as rabanadas ou o bolo-rei» (Contos de Natal, Mário Braga. Lisboa: Escritor, 1995, p. 33). 

 

[Texto 6499]

Helder Guégués às 15:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dez 15
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Léxico: «plano picado»

Ponto final

 

     «Na tradição francesa esse tipo de plano chama-se plongée — vem da ideia de mergulho. Faz com que os sujeitos das imagens pareçam pequenos e desprotegidos. Na teoria cinematográfica tradicional, é um mecanismo de criação de empatia. Quem observa cria um laço de afecto com aquilo que observa. No entanto, não olhamos nos olhos — não é uma relação entre iguais. Nesta estrutura, quem observa ganha dimensão, ou seja, fica em posição de domínio. Em português, diz-se “plano picado”. Só em inglês tem a designação com as implicações que interessam a Tatiana Macedo. Na tradição anglófona, a versão mais poética é “god’s eye view”. Em tradução livre, quer dizer “a perspectiva do olho de Deus”. E essa expressão enche-se de conotações críticas sobre a forma como cada um de nós se posiciona para observar o mundo» («Tatiana Macedo: o mundo olhos nos olhos», Vanessa Rato, Público, 23.12.2015, p. 28).

      Sempre a invejar e a achar mais adequadas palavras e expressões de outras línguas. Vejo agora que, com esta acepção, picado não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, onde se registou, por sugestão minha, contrapicado. Mas esse tempo, em que fiz centenas de sugestões para este dicionário, já acabou, ninguém agradece nada. Estou farto de tudo, e do tudo de tudo, como escreveu o ajudante de guarda-livros.

 

[Texto 6498]

Helder Guégués às 08:36 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Dez 15
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Dez 15

Tradução: «backstay»

Tiros na água

 

      Às voltas com termos náuticos por causa de uma tradução, que vejo eu? No Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, de stay dão como tradução «estai; patarrás do gurupés»; de backstays (aliás, devia ser no singular), «estais». Perderam um verbete. Ora, se stay é estai, backstay é contra-estai, o cabo que serve para reforçar os estais. O Grande Dicionário Sacconi não regista — que vergonha, o mais completo dicionário da língua portuguesa — «contra-estai» (ou «contraestai»...). O Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora também não regista crosstree, o que leva alguns tradutores a opções menos boas.

 

[Texto 6497]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito
21
Dez 15

«Ter matado»

O Hezbollah não sabe português

 

      «Hezbollah acusa Israel de ter morto comandante do grupo na Síria» (Público, 21.12.2015, p. 12).

      Não o dissemos menos de dez vezes, mas cá vai de novo: com verbos abundantes, isto é, os que têm dois particípios passados (como este, matar), o particípio passado regular, que é o terminado em -ado, usa-se com os verbos auxiliares «ter» e «haver». Logo, ter matado, haver matado. O particípio irregular, neste caso, morto, usa-se com os auxiliares «ser» e «estar». Logo, foi morto, está morto.

 

[Texto 6496]

Helder Guégués às 19:23 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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Sobre «carranca»

Faz mal

 

      A meu ver, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora faz mal em não indicar explicitamente no verbete «carranca» que também é a designação de um ornamento de algumas embarcações, o mesmo que figura de proa (figurehead, para a legião de anglófonos que nos segue). O Grande Dicionário Sacconi não caiu nesse erro.

 

[Texto 6495]

Helder Guégués às 17:24 | comentar | favorito
21
Dez 15

Regência de «consentir»

Dupla regência

 

      «[A Europa] Consentiu em ser apenas o eco precioso de expressões alheias, esquecido de que não é possível manter uma identidade singular por procuração» (Diário, Vols. XII a XVI, Miguel Torga. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, 5.ª ed., p. 74).

      Como pode ver, J. M., o verbo «consentir» admite duas construções: «consentir algo» e «consentir em».

 

[Texto 6494]

Helder Guégués às 17:15 | comentar | favorito