08
Jan 16

«O facto de» e outras coisas

Quase ornamento e símbolo

 

      «O uso generalizado de ecocardiogramas e o desenvolvimento de aparelhos de ecografia que cabem no bolso estão a pôr em causa o facto de os médicos continuarem a andar com auriculares e um tubo de borracha à volta do pescoço» («Dois séculos depois, é tempo de tomar o pulso a um ícone da medicina: estetoscópio», Lenny Bernstein, Público, 7.01.2016, p. 26).

      Só pode ser espúrio, aquele «o facto de», cada vez mais usado, e não pelos analfabetos. Vejamos o que diz o original: «The widespread use of echocardiograms and the development of pocket-size ultrasound devices are raising questions about why doctors and others continue to sling earphones and rubber tubing around their necks.» O artigo, contudo, é muito interessante. Ficamos a saber — os dados são todos relativos aos EUA, mas extrapoláveis — que os médicos não sabem usar o estetoscópio, ou poucos, e cada vez menos, o sabem fazer. Nisto, não diferem dos falsos médicos, imagino. Ficamos também a saber que um professor associado de Pediatria, William Reid Thompson, coligiu milhares de sons cardíacos — «tum-tuns, cliques, galopes e sopros produzidos pelo coração humano» («lub-dubs, clicks, gallops and whooshes produced by the human heart») — e criou um sítio, MurmurLab-org, em que os podemos ouvir e aprender a distinguir. Infelizmente, mais uma vez, o Público não indica quem fez a tradução, um péssimo hábito que ninguém agradece.

 

[Texto 6530]

Helder Guégués às 01:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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08
Jan 16

A triste mania das aspas

Cordões sanitários

 

   Horas depois de o líder trabalhista britânico ter anunciado uma remodelação no “governo-sombra” para afirmar a sua autoridade, as divisões no partido voltaram a falar mais alto. Três membros da equipa demitiram-se em protesto contra o afastamento das vozes mais críticas a Jeremy Corbyn. […] A mesma justificação foi avançada para a saída do “ministro-sombra” da Cultura, Michael Dugher, que será substituído na pasta pela até aqui porta-voz para a Defesa, Maria Eagle. […] A demissão de Benn arriscava provocar o êxodo dos centristas do “governo-sombra”, mas só terá ficado depois de aceitar que, quando estiver em desacordo com Corbyn, terá de assumir a sua posição a partir das bancadas no Parlamento reservadas aos deputados sem funções de liderança» («Corbyn tenta travar divisões no Labour», Ana Fonseca Pereira, Público, 7.01.2016, p. 25).

    Ainda um dia nos tem de explicar, Ana Fonseca Pereira, porque escreve entre aspas as palavras assinaladas. Tenho a certeza de que será muito instrutivo e pedagógico.

 

[Texto 6529]

Helder Guégués às 00:29 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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07
Jan 16

«Pseudo-Apolodoro»

Chegaram hoje

 

      «Nestas páginas reuni estudinhos sobre Camões dispersos por diversas publicações, mas apenas aqueles que julguei mais capazes de interessarem alguns leitores» (Notas Camonianas, José Pedro Machado. Lisboa: Livros Horizonte, 1981, p. 7). Isto é que é modéstia, já viram bem?

      Chegaram-me hoje às mãos, estes estudinhos. Lembrei-me logo (mas imperfeitamente, pois não me lembro qual o nome em causa nem o elemento) de alguém há pouco me ter perguntado como se escrevia certo nome próprio com o elemento pseudo- ou anti-, tendo eu respondido, naturalmente, que não se aglutinava ao nome próprio e lembrado uma excepção, Anticristo. Creio que a pessoa não gostou da resposta, talvez porque nunca procuramos outras respostas que não as que julgamos já ter. Mas é assim. Agora, na página 26 destes estudinhos: «Já são três [as Greias] na Biblioteca do pseudo-Apolodoro de Atenas e no Prometeu de Ésquilo.» Mas também aparece grafado, noutras obras, com maiúscula, Pseudo-Apolodoro, o que me parece mais correcto.

 

[Texto 6528]

Helder Guégués às 22:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
07
Jan 16

«Tempos “horribilis”»?

Os que vivemos

 

      «Também o Sindicato dos Funcionários do SEF aplaudiu a escolha. Num comunicado assinado pela presidente, Manuela Niza Ribeiro, esta sublinha a “reconhecida dedicação e integridade” da nova directora nacional, que diz ter uma “visão global e actual do papel do serviço”, o que constitui “uma lufada de ar fresco após tempos horribilis”» («Inspectora de carreira é a nova directora do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras», Mariana Oliveira, Público, 6.01.2016, p. 15).

      Quando integramos palavras e expressões latinas e de outras línguas declináveis em frases na nossa língua, surge-nos quase sempre esta dúvida: a que gramática, mesmo que mínima, atendemos? No caso: «tempos» é plural; horribilis, singular. Gramática mínima é atender, pelo menos, à concordância. Se, para não complicar, abstrairmos do caso e classe, deixamos no nominativo e seria então horribiles. Tempos horribiles.

 

[Texto 6527]

Helder Guégués às 00:27 | comentar | favorito
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06
Jan 16

Léxico: «assacar»

Jornalistas e juízas

 

      «Aparentemente, a Eduardo Santos Silva — ao qual são assacados 22 crimes, incluindo o de associação criminosa e exercício ilícito de segurança privada —, nem sequer interessava muito este desporto» («FC Porto contratou serviços de segurança a empresa que estava impedida de os prestar», Ana Henriques e Mariana Oliveira, Público, 6.01.2016, p. 13).

      Acho que a última vez que li o verbo assacar na imprensa foi em 1932, na leitura pós-prandial do meu matutino então preferido. Estou a brincar. Só há um problema, Ana Henriques e Mariana Oliveira: no vosso artigo, foi muito mal usado. Assacar é atribuir (crime, erro, mau comportamento, falha) injustamente; imputar aleivosamente; caluniar. Não dou, porque ninguém mos pede, conselhos, mas o que digo é que os artigos a quatro mãos têm sempre mais, e mais graves, erros.

 

[Texto 6526]

Helder Guégués às 23:31 | comentar | favorito
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06
Jan 16

Etimologia: «cadete»

Onde estudam os cadetes?

 

    «Dois alunos do curso 
fuzileiros da Marinha que estam [sic]* desaparecidos desde domingo à noite, [sic] foram encontrados ontem à tarde “bem”, disse à agência Lusa
 o porta-voz da Marinha, o comandante Paulo Vicente.
 O oficial adiantou que os
 dois cadetes “perderam-se e desorientaram-se” no decorrer de um exercício, tendo sido encontrados pelas equipas de busca que estavam no terreno desde segunda-feira à tarde» («Cadetes dos fuzileiros perdidos durante quase dois dias», Público, 6.01.2016, p. 13).

      De quando em quando, é bom voltar à etimologia. Cadete, que aqui designa o aluno que frequenta uma escola militar, vem do francês cadet, que os dicionários, em geral, dizem significar «irmão menor». Começou por ser o filho não primogénito de famílias nobres, e, depois, por extensão de sentido, o filho segundo em geral. O étimo do termo francês é, por sua vez, o latino capitellum (mas há autores que afirmam que provém do baixo latim capitetum, de que o vocábulo «capitão» se mostra próximo), que teve no dialecto gascão duas formas, capdet e cabdet.

   Não é, porém, tudo. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, cadete é o «aluno que cursa uma escola superior militar»; para o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, é o «aluno da Academia Militar e da Escola Naval; aluno que frequenta os cursos de oficiais milicianos, durante o tempo de instrução»**. No meio disto, onde fica a Escola de Fuzileiros? Não precisará a definição de ser afinada?

 

[Texto 6525]

 

* Estam por estão mostra bem como os jornalistas do Público compulsam com mão diuturna a obra maior do nosso grande épico.

* A definição do Grande Dicionário Sacconi é quase a fusão daquelas duas, pois diz que é o aluno de escola militar superior, acrescentando que é a do Exército e a da Aeronáutica. Estará correcto?

Helder Guégués às 22:44 | comentar | ver comentários (2) | favorito
05
Jan 16
05
Jan 16

Sem aprofundar mais

Se bem me lembro

 

    «A 26 de Março, enquanto o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Mohammad Zarif, estava na Suíça a discutir o acordo sobre o programa nuclear iraniano — assinado a 14 de Junho —, aviões sauditas começavam a largar bombas sobre os rebeldes houthis, tribo iemenita de confissão xiita, que Riad acusa Teerão de financiar e controlar» («Aliados da Arábia Saudita rompem com o Irão», Sofia Lorena, Público, 5.01.2016, p. 2).

      Ia jurar que no Público já escreveram, de outras vezes, «huthis». Ah, bem me parecia: «O principal ponto das negociações na Suíça será o levar à prática de uma resolução da ONU, aprovada em Abril, que impõe sanções e um embargo de venda de armas aos huthis» («Cessar-fogo e negociações no Iémen», Público, 16.12.2015, p. 24). Na verdade, para tudo dizer, sem trambelho (ou trabelho), porque, neste último artigo, também escrevem «combatentes huthi» e «avanço dos huthi». Está tudo dito. E também ia jurar que, quando calha, escrevem Riade. Será? Claro que sim: «Campeão mundial de sub-20, em Riade, em 1989, fez parte da intitulada “geração de ouro” do futebol português e é já o treinador mais bem-sucedido desta “colheita” de grandes futebolistas» («Paulo Sousa deslumbra Florença e reina em Itália», Paulo Curado, Público, 6.10.2015, p. 40).

 

[Texto 6524]

Helder Guégués às 23:57 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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