09
Fev 16

Tradução: «tabagie»

Sete anos depois, tudo igual

 

      O Dicionário de Francês-Português da Porto Editora garante que o termo francês tabagie se traduz por «sala cheia de fumo». Sendo assim, quase todas as salas do mundo inteiro já o foram alguma vez. Não, não: em certas alturas do dia, as tabagies do país perdido nem têm fumo. «Lieu public où l’on se réunissait autrefois pour fumer; estaminet où l’on fumait.» Quase acertavam: sala de fumo.

 

[Texto 6610]

Helder Guégués às 22:32 | comentar | favorito

«Gallinero/galinheiro»

Os galinheiros ibéricos

 

      Em Espanha, «la Mesa del Congreso saca a los diputados de Podemos del ‘gallinero’», leio no jornal El País. Exactamente como em português galinheiro, em castelhano também o vocábulo gallinero tem o sentido de «en un teatro o en un cine, conjunto de localidades en la parte más alta». Todos querem poleiro, mas perto do logradouro onde decorrem as lutas de galos.

 

[Texto 6609]

Helder Guégués às 21:19 | comentar | favorito
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Sobre o berbere

Vamos corrigir

 

      «O berbere foi ontem aprovado como língua oficial da Argélia e vai passar a contar [sic] dos documentos oficiais, a par do árabe — que continuará como a língua usada pelo governo. A mudança consta da nova Constituição do país que foi ontem aprovada pela esmagadora maioria dos deputados» («Língua da minoria berbere passa a ser oficial na Argélia», i, 8.02.2016, p. 15).

      O berbere, uma das mais antigas línguas semíticas, com influências do árabe, mas uma língua das montanhas, do Rife, do Médio e do Alto Atlas, chegou à Constituição argelina. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que é a «língua, de grande variedade dialectal, falada pêlos [sic] Berberes». O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa regista isto: «Língua camito-semítica de grande diversidade dialectal, falada pelos Berberes, sobretudo no Saara meridional.» Geografia e classificação têm de ser revistas. Mas falem com linguistas. E é correcto dizer-se que o árabe é «a língua usada pelo governo»? 

 

[Texto 6608]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | ver comentários (6) | favorito

«Mais não seja»

Porcos e língua

 

      Em Vilarandelo, concelho de Valpaços, o rei da festa neste Carnaval é um porco, o Toninho. Os habitantes estão satisfeitos, porque agora Vilarandelo é uma terra famosa. Prova disso é a reportagem da TSF. Remata assim o texto o jornalista Afonso de Sousa: «E o porco há de seguir em cima do principal carro do cortejo. Depois do Carnaval a intenção de todos é que o Toninho continue ali e vivo, mais não seja para alimentar a estória de como um porco tornou Vilarandelo numa terra famosa» (aqui). «Estória», um neologismo com... cem anos, não me agrada, mas não é disso que pretendo falar, antes daquele «mais não seja», que nunca antes vi (ou esqueci-me entretanto, o que é o mesmo) escrito. Tem um claro sabor popular, e será forma de dizer elíptica.

 

[Texto 6607]

Helder Guégués às 19:47 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Acordo Ortográfico

Era uma ilusão; agora é uma mentira

 

      «Embora o AOLP possa conter imperfeições, constituiu o primeiro instrumento palpável de harmonização
 da ortografia da língua portuguesa, após décadas de tentativas frustradas. A sua plena vigência em países como Brasil, Portugal e Cabo Verde deve servir de estímulo ao seu aperfeiçoamento, sempre por meio de ação coordenada dos Estados membros da CPLP e com a participação da sociedade civil de nossos países» («O Brasil e o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa», Mário Vilalva, Público, 9.02.2016, p. 40).

      Para o senhor embaixador do Brasil, não é facto assente que o acordo contém imperfeições. No entanto, para o caso de ser como se diz, tem a solução ideal: apliquem-no e depois falamos. É como se um novo medicamento fosse administrado logo à partida em doentes, sem prévia fase de experimentação. Quem quer trocar uma ortografia estável, com problemas e incongruências que se podem resolver com uma pequena reforma, por um esboço mal pensado de uma ortografia que não alcança o principal objectivo (embora utópico) que a podia legitimar, a harmonização? Ainda que o AO90 fosse esse mirífico «primeiro instrumento palpável de harmonização
 da ortografia», o que sempre foi uma ilusão e, agora, repetido, uma descarada mentira, faltava saber se isso era desejável. Se a diversidade é boa para tudo o mais, porque não o será para a ortografia? O caminho é esse, a diversidade, que, de qualquer modo, já existe quanto à sintaxe, ao vocabulário, à própria realidade a que a língua se refere. Deixem cada país seguir o seu caminho.

 

[Texto 6606]

Helder Guégués às 10:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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09
Fev 16

«“Doping” mecânico»?

Essa agora!

 

      «Fabian Cancellara anda nervoso. Em entrevistas pré-Volta ao Dubai, o desconforto do suíço, bombardeado com questões sobre o “doping mecânico”, foi evidente. A postura sempre cool deu lugar a um tom ríspido, impaciente, que se propagou ostensivamente a toda a entourage da Trek-Segafredo — o manager Luca Guercilena interrompeu uma conferência para proibir os jornalistas de voltar a tocar no tema. Não é de estranhar: com a descoberta de um motor na bicicleta da sub-23 belga Femke Van den Driessche, nos Mundiais de Ciclocrosse, o pior pesadelo de Cancellara voltou» («Os motores são a nova moda no pelotão? Os portugueses garantem que não», Ana Marques Gonçalves, Público, 8.02.2016, p. 40).

     Ando tão atarefado, tão absorto no trabalho, que nem sabia que o mundo do desporto estava a ser convulsionado por este caso. Motores nas bicicletas de corrida! Não aconselho que se fechem os olhos para os estrangeirismos, porque também vão ficar cegos para o resto, mas concentrem-se no «doping mecânico». Será mesmo por falta de termos próprios na língua que se diz assim? Não, não me parece que seja uma catacrese. Nesta, há necessidade e não escolha. Claro que não proponho «batota», que é um termo genérico para a trapaça, que o doping também é. Sabem lá o que me passou pela cabeça quando li «doping mecânico»! «Fraude mecânica» não seria adequado? Claro que, quando a imprensa em língua inglesa fala em mechanical doping, nem se pensa duas vezes.

 

[Texto 6605]

Helder Guégués às 00:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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