23
Fev 16

Tradução: «shale oil»

Um erro consagrado?

 

      «“O verdadeiro valor das coisas é o esforço e o problema de as adquirir.” A frase com mais de 200 anos, do economista Adam Smith, autor de a A Riqueza das Nações, serve na perfeição para explicar
o porquê de tão abrupta queda
do preço do petróleo. Com a forte aposta dos EUA e do Canadá em desenvolver a exploração das rochas de xisto betuminoso, o mercado foi inundado de petróleo e os tradicionais produtores, como a Arábia Saudita, Nigéria ou Argélia, tiveram de se virar para outros mercados, como o asiático, e o preço da matéria-prima veio por aí abaixo» («A riqueza das nações», Público, 31.01.2016, p. 68).

      Lembram-se muito bem: já vimos aqui as duas primeiras frases deste editorial do Público, por causa do erro de tradução. Retomo o editorial, mas não este erro. Agora, o que me interessa é a designação — também errada — xisto betuminoso. Dizia-me ontem, na Universidade Fernando Pessoa, onde fui falar do meu livro e da língua, o Prof. Lemos de Sousa, o nosso grande (único?) especialista em Petrologia, que esta designação é errónea, pois nem é xisto nem betuminoso. Muito atreitos a copiar os outros, achámos que os Franceses tinham razão ao chamar-lhe schiste bitumineux, que eles supuseram traduzir bem a designação inglesa shale oil. Não traduz. Neste erro não incorre apenas o Público, ou a imprensa em geral, mas os próprios especialistas. Já os Brasileiros só erram metade, pois optaram pela designação (embora não aceite por todos os especialistas) folhelho betuminoso. Mas, se quisermos evitar um erro grosseiro, encontraremos outras designações adequadas.

 

[Texto 6642]

Helder Guégués às 21:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,

«Missa ecuménica»?

E não há sinónimos?

 

      «Marcelo Rebelo de Sousa vai participar numa missa ecuménica na Mesquita de Lisboa na tarde de 9 de Março, dia em que toma posse como Presidente da República, sabe o PÚBLICO. A iniciativa, inédita em Portugal, está a ser organizada para assinalar a sua posse e tem como objectivo chamar a atenção para a necessidade de entendimento entre religiões e culturas» («Marcelo participa em missa ecuménica na Mesquita de Lisboa no dia da posse», São José Almeida, Público, 23.02.2016, p. 6).

      Se é ecuménica, talvez não seja missa, não é? É, pelo menos, uma visão cristianocêntrica, o que acaba por contradizer o ecumenismo. Vejamos o que, sobre esta questão, se lê no livro de estilo do Público: «Também é imprópria a expressão “dizer missa”. A missa (ou eucaristia) é rezada ou celebrada. “Missa” designa a principal liturgia católica; nas outras igrejas ou religiões, deve falar-se de liturgia, culto, oração ou outra expressão mais específica.» «Imprópria», a expressão «dizer missa»? Estão enganados.

 

[Texto 6641]

Helder Guégués às 20:54 | comentar | favorito
23
Fev 16

Léxico: «stop over»

O mundo em inglês

 

      «A ideia é usar a paragem em Lisboa (o chamado “stop over”, que corresponde ao tempo de ligação entre dois voos com mais de 24 horas de diferença) para que os passageiros visitem a cidade» («TAP reforça aposta nos EUA e Marrocos», Raquel Almeida Correia e Patrícia Carvalho, Público, 23.02.2016, p. 17).

     Graças a estas lições, estamos agora preparados para ir para o negócio da aviação. Alguns passageiros nem sequer saem* do aeroporto. Ainda ontem, às 11 da noite, vi uma stopoverista lá acampada, com uma criança ao colo.

 

[Texto 6640]

 

 

* E não, como vejo demasiadas vezes para manter a sanidade, *saiem. Como também está incorrecto *caiem e *constroiem. E porque é que estão erradas? Ora, porque sim, dir-se-á — ainda que, pela pronúncia e por analogia com o infinitivo, parecesse que deviam ser grafadas com i. Ou não? E, no entanto, as únicas formas correctas são as que não têm a vogal eufónica.

Helder Guégués às 19:51 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
22
Fev 16
22
Fev 16

Veneza é a Sereníssima

Serenamente

 

      «Encontrei-me pela primeira vez com Umberto Eco em Veneza
 num claustro próximo da Igreja
 de Santa Maria della Salute, do outro lado do canal, em frente à Praça de São Marcos. O cenário 
do encontro recriava na minha mente a célebre vinheta da Fábula de Veneza onde Corto Maltese, o personagem criado pelo seu amigo Hugo Pratt, deambulava pela noite da sereníssima» («Eco, um cientista social do Renascimento», Gustavo Cardoso, Público, 22.02.2016, p. 41).

     Pois, mas como está em vez de Veneza, é um prosónimo, por isso escreve-se com maiúscula: «A bofetada final na Sereníssima seria dada por Manuel I, no próprio ano em que morreria. Chegara a Lisboa, no final de 1521, uma frota de cinco navios venezianos cujo comandante trazia a proposta de um contrato para as especiarias» (Portugal, o Pioneiro da Globalização. A Herança das Descobertas, Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas. Vila Nova de Famalicão: Centro Atlântico, 2009, p. 149).

 

[Texto 6639]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
21
Fev 16

«Elefante numa loja de porcelanas»

Qual faria mais estragos?

 

      Mário Cláudio sobre Umberto Eco: «Ele foi não apenas um grande académico, um homem que teorizou sobretudo na área da literatura, especialmente com o seu conceito de obra aberta, mas foi também um antiacadémico, porque se interessou por matérias que não fazem parte do conhecimento bolorento das academias. Nessa medida, terá sido uma espécie de touro na loja de louça e terá derrubado algumas mistificações» (Bom Dia[,] Portugal, 20.02.2016).

    Nunca tinha lido ou ouvido esta expressão — apenas em inglês, like a bull in a china shop. Será mera e desnecessária tradução? As palavras são portuguesas, pois... Também Júlio Machado Vaz, volta não volta, diz «pôr-se nos sapatos do outro».

    «Daí que, com fleumática (e ironicamente fleumática) subtileza borgesiana, [Rhys] Hughes se apresente por vezes como o proverbial elefante numa loja de porcelanas» (da introdução à introdução de Luís Rodrigues a Uma Nova História Universal da Infâmia, Rhys Hughes. Tradução: Nuno Cotter. Viana do Castelo: Livros de Areia Editores, 2006, p. 16).

 

[Texto 6638]

Helder Guégués às 09:51 | comentar | ver comentários (6) | favorito
Etiquetas: ,
21
Fev 16

Léxico: «azuqui»

Só no Brasil

 

      Pelos vistos, é assim: «1 xícara de feijão-azuqui cozido em panela de pressão e escorrido» (Saladas, Caroline Bergerot. São Paulo: Editora Cultrix, 2011, p. 49). Cá, preferem azuki. Se tem k, w ou y, a preferência nacional é inevitavelmente essa. Também vejo que só no Brasil se escreve estrogonofe; cá, tinha de ser strogonoff, pois claro. Assim arrussalhado, com uma camada de verniz francês, até parece que sabe melhor. Era o prato preferido de Marcel Proust, esse grande escritor de cama.

 

[Texto 6637]

Helder Guégués às 00:21 | comentar | favorito
20
Fev 16

«Os piores possíveis»

Evidentemente

 

      «Até há pouco tempo, mais de duas mil famílias moravam ainda sob tendas — recentemente, o U. N. R. W. A. [United Nations Relief and Works Agency] construiu casas de zinco. As condições do campo, evidentemente, são as piores possível» (Palestinianos, os Novos Judeus, Helena Salem. Lisboa: Livros Horizonte, 1978, p. 67).

      O pior possível, pois claro, mas os piores possíveis. É erro que vejo com alguma frequência, e percebo porquê. Pois, mas não é expressão tão fixa que se prescinda da concordância. Uma pessoa menos alfabetizada nunca erra nestas coisas. «Sob tendas» matava de novo João de Araújo Correia. É curioso que no sítio dos Livros Cotovia, que publicou uma obra desta autora, já falecida, se lê que é autora da obra Palestinos, os Novos Judeus. Era bom, era.

 

[Texto 6636]

Helder Guégués às 20:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «um-dois-três»

Ainda estamos na cozinha

 

    Temos outro problema na cozinha. «Corte o pão aos bocadinhos, regue-os com o leite quente e deixe amolecer. Escorra e pique na 1,2,3. Num recipiente, misture o pão com os ovos, o açúcar, o brandy, o cacau e a Nutella» (Cozinhar com Nutella, Paola Balducchi. Tradução de Ana Lourenço. Alfragide: Quinta Essência, 2014, p. 58).

     Já vi escrito das mais desvairadas formas. Escrever 123 não convém, porque se é levado a ler, apesar de se saber que se trata de uma picadora (≈ trituradora), «cento e vinte e três»; a versão 1 2 3 não é muito melhor; 1,2,3 é melhor, mas não perfeita, porque falta o espaço depois de cada vírgula; escrever 1-2-3 já é melhor, mas como ia ser dicionarizada? Proponho então um-dois-três.

 

[Texto 6635]

Helder Guégués às 18:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
20
Fev 16

«Cogumelos portobelo»

Aceitamos

 

      Ora aqui está uma boa receita de empada de carnes de caça, ervas e cogumelos. E que cogumelos? Ei-los: «100 g de cogumelos portobelo» (Papa-Quilómetros, Ljubomir Stanisic. Alfragide: Casa das Letras, 2011, p. 311). E, de facto, porque havemos de escrever «portobello»? Ao que parece (mas há outras hipóteses, como podem ver aqui), a designação provém de Portobello Road, em Londres. Para os tornar mais apetecíveis, alguém se lembrou, na década de 1980, de dar ao Agaricus bisporus esta designação comercial. Depressa a maiúscula inicial foi trocada por minúscula, o que está muito bem. Pouco depois, passou também a ser portobella, portabello, etc. O nome comum recomendado em inglês é cultivated mushroom, completamente desenxabido, não é? Portanto, ainda que não fosse intencional, Ljubomir Stanisic está de parabéns. Sim, mesmo que seja gralha e saibamos que quase todos preferem ser chefs e não chefes. Será doravante portobelo, e, como não fico nunca pelas teorias, acabei agora mesmo de o usar com esta grafia numa revisão.

 

[Texto 6634]

Helder Guégués às 17:26 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas: ,