04
Fev 16
04
Fev 16

O verbo «haver», de novo e sempre

Talvez haja

 

    Eram 8h43 quando foi publicado no Expresso um artigo de Sandro Mendonça, professor auxiliar no ISCTE, de que extraio apenas uma frase: «Parecem haver vozes políticas e públicas que se regozijam com as necessariamente difíceis relações que Portugal mantém com os poderes financeiros de Bruxelas» («Canários e abutres»).

    Se tem amigos — embora, para estes casos, os inimigos sejam mais prestáveis —, estes que lhe digam que o verbo haver é impessoal quando exprime existência, regra que vale também para as locuções verbais em que entra, porque a impessoalidade é transferida para o auxiliar.

   «Mas não nos parece haver razões para pânicos, pelo menos por agora» (Próxima Paragem e Outros Textos Dramáticos, Rui Miguel Saramago. Lisboa: Carbono-14/Lulu, 2.ª ed., p. 58).

 

[Texto 6595]

Helder Guégués às 23:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Fev 16

«Lusofonia», estranhíssima palavra

Já o dissemos também

 

      «Outro participante nesta mesa inaugural foi o romancista e ensaísta português Miguel Real, que lembrou a atribulada história da “estranhíssima palavra ‘lusofonia’”, explicando que foi usada no pós-25 de Abril por uma direita nostálgica do império, que lhe “imprimiu um valor conservador”. Conotação hoje dissipada, acrescentou, “pelo “senso comum histórico de ex-colonizados e ex-colonizadores”, que se “apropriaram da palavra” e a “libertaram rapidamente dessa semântica de direita”» («Diáspora e conflito de gerações, um retrato da literatura cabo-verdiana», Luís Miguel Queirós, Público, 3.02.2016, p. 29).

 

[Texto 6594]

Helder Guégués às 18:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Todas, em nenhum

Aula de biologia

 

   «Uma caravela-portuguesa (Physalia physalis), um organismo venenoso, foi avistada na manhã de segunda-feira na praia do Guincho, perto de Cascais. […] Não é recorrente aparecer na costa continental, pelo que esta ocorrência em Fevereiro foi uma das raras registadas ao nível da Península Ibérica. “Esta espécie é frequentemente confundida com medusas (ou alforrecas) devido ao seu aspecto gelatinoso, mas é, na verdade, um sifonóforo. É constituído por um conjunto de vários indivíduos simbióticos (zoóides), cada um com a sua função específica, funcionando todos juntos como um único organismo”, explica o IPMA. Esta espécie possui também pequenos tentáculos com estruturas venenosas chamados cnidócitos que largam um potente veneno quando entram em contacto com outros organismos, mesmo que estes já estejam mortos. […] A caravela-portuguesa consegue viajar à boleia do vento porque tem uma vesícula cheia de gás que se assemelha a um balão flutuante, chamada pneumatóforo, adianta o IPMA. É este “saco” que faz lembrar uma caravela e daí o seu nome» («Caravela-portuguesa na praia do Guincho», Julien Vergé, Público, 3.02.2016, p. 17).

  Não deve haver dicionário que registe todas as palavras assinaladas. (E em vez de «não é recorrente aparecer na costa», não seria melhor «não é frequente na costa»? Já «ao nível de» é para eliminar, e o «devido» pode ser substituído.)

 

[Texto 6593]

Helder Guégués às 18:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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As «leges artis»

Se é plural...

 

      «No âmbito do processo-crime vão sentar-se no banco dos réus dois dos dez médicos que observaram Nádia no período compreendido entre 27 de Março e 22 de Abril de 2008 e que foram pronunciados pelo crime de violação da leges artis» («Tratamento evoluiu muito nos últimos anos», Alexandra Campos, Público, 2.02.2016, p. 9).

      Deve dizer-se as leges artis — como escrevi aqui —, porque são as regras da arte (médica).

 

[Texto 6592]

Helder Guégués às 00:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Guidelines»!

Também se derretem com esta

 

      «Hoje, a mortalidade neste tipo de casos, “em números redondos”, já é menor, mas continua muito elevada: cerca de um terço dos doentes morre, um terço fica com sequelas e um terço sobrevive sem mazelas, sintetiza [Rui Vaz, presidente do colégio da especialidade de neurocirurgia da Ordem dos Médicos]. Actualmente, frisa, as guidelines internacionais aconselham “que o tratamento seja tão precoce quanto possível e nunca após as 72 horas”» («Tratamento evoluiu muito nos últimos anos», Alexandra Campos, Público, 2.02.2016, p. 9).

      Os médicos até podem usar o termo inglês, mas os jornalistas devem ter o bom senso de não o fazer, tão simplesmente porque é desnecessário e os leitores são portugueses.

 

[Texto 6591]

Helder Guégués às 00:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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03
Fev 16

Ortografia: «subaracnóideo»

Corrigir e registar

 

      «Mas “só” em 18 de Abril é que um médico suspeitou de que o diagnóstico mais provável era uma hemorragia subaracnoideia (derramamento de sangue que acontece de repente no espaço compreendido entre o cérebro e a camada que o rodeia) após ruptura de um aneurisma cerebral» («Morte por ruptura de aneurisma: oito anos para julgar dois médicos», Alexandra Campos, Público, 2.02.2016, p. 8).

      Não vejo o termo «subaracnoideu» nos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora encontramos «subaracnoídeo», que remete para subaracnóide. Mas não será antes subaracnóideo? O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa não regista nenhuma das variantes. Na 2.ª edição, certamente registará pelo menos uma.

 

[Texto 6590]

Helder Guégués às 00:24 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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02
Fev 16
02
Fev 16

«Rotura de aneurisma»

Sempre a tempo

 

      «Na altura, na Madeira, os doentes com ruptura de aneurisma cerebral eram estabilizados e ficavam a aguardar durante dias ou mesmo semanas até serem transferidos num “avião de carreira” para o continente, onde eram então tratados, segundo confirmaram os médicos ouvidos no âmbito do processo-crime interposto pela família. […] Na Madeira, a situação mudou, entretanto, e desde há anos que há equipas de neurocirurgiões vasculares e de neurorradiologistas de intervenção preparados para tratar aneurismas cerebrais rotos (quando um aneurisma, uma zona dilatada na parede de uma artéria cerebral, rompe, causa uma hemorragia que liberta sangue para o interior do compartimento que circunda o cérebro)» («Morte por ruptura de aneurisma: oito anos para julgar dois médicos», Alexandra Campos, Público, 2.02.2016, p. 8).

    Aqui, a propósito do texto sobre «roto/rompido», o leitor Gonçalo Esteves pergunta se não será antes rotura de aneurisma. Respondi que talvez, mas agora, perante este artigo cheio de «rotos» e ponderando de novo, é flagrante que o substantivo mais adequado é «rotura». Afinal, trata-se de algo físico, bem diferente, por exemplo, da ruptura de relações entre duas pessoas.

 

[Texto 6589]

Helder Guégués às 23:58 | comentar | favorito
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