04
Mar 16

Léxico: «gancho»

Inacreditável

 

    «Um potente gancho de esquerda chegou para o irlandês [Conor McGregor] deixar o brasileiro José Aldo KO e sagrar-se campeão de pesos pluma [sic] em Las Vegas, nos EUA» («Um KO para a história [sic]», Sol, 19.12.2015, p. 53).

   No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nada, este gancho não está lá. Em 2001, porém, já o podíamos encontrar no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa: «Golpe curto desferido com o braço dobrado, no boxe.» Claro que, depois, os tradutores vêm dizer que a palavra nem sequer está nos dicionários...

 

[Texto 6663]

Helder Guégués às 21:02 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Tradução: «registrar»

Políticos e falsos amigos

 

      Lula, a esta hora, ulula. Partido dos Trabalhadores... Trabalhemos nós: cuidado com os falsos amigos. Titula o jornal El País: «La policía interroga a Lula y registra su casa por un caso de corrupción». Acepção que o nosso registar (e o registrar brasileiro) não tem. «Registrar» é, aqui, «examinar algo o a alguien, minuciosamente, para encontrar algo que puede estar oculto». Já no sítio da TSF o título é, como seria de esperar, este: «Buscas em casa de Lula da Silva. Ex-presidente levado para depor». O jornal espanhol diz mais: «En la operación, bautizada Aletheia en referencia a la expresión griega que significa “búsqueda de la verdad”,  participan unos 200 policías y 30 auditores de Hacienda, que cumplen órdenes judiciales en los Estados de São Paulo, Río de Janeiro y Bahia.» Na verdade, aletheia é o que não está oculto ou dissimulado, sem véu. Costuma ser assim com a verdade. Originalmente, porém, aletheia opunha-se a Lethes, o esquecimento (lembrem-se do rio), que, mais do que facto psicológico, era uma força numinosa de ocultação.

 

[Texto 6662]

Helder Guégués às 14:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Período de nojo»

Já para os dicionários

 

      «O deputado comunista lembrou que “há sérias dúvidas relativamente ao estatuto dos deputados”, nomeadamente ao cumprimento “do chamado período de nojo, segundo o qual titulares de cargos públicos, quando cessam funções, não podem exercer actividade nos ramos que tutelaram”, afirmou Machado. Ao final do dia, Catarina Martins voltou a referir-se ao tema, considerando que a contratação da ex-ministra “deve ser investigada”» («Maria Luís Albuquerque contratada por empresa que negociou com o Banif», Cristina Ferreira e Paulo Pena, Público, 4.03.2016, p. 17).

    É um sentido figurado — que devia figurar nos dicionários, para desenrugar a testa dos que levantam as sobrancelhas sempre que ouvem a expressão.

     Não sei se é ainda a Lei n.º 64/93, de 26 de Agosto, no seu artigo 5.º, que estabelece o regime jurídico das incompatibilidades e impedimentos dos titulares de cargos políticos e altos cargos públicos.

 

[Texto 6661]

Helder Guégués às 10:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
04
Mar 16

Sobre a haplologia

Limite-se à economia e à política

 

      O Dr. Bagão Félix insiste em publicar a sua opinião sobre matérias que — como já pudemos comprovar mais de uma vez — não domina. Vejamos o que veio ensinar às massas na edição de hoje do Público: «A poupança silábica está cada vez mais presente na linguagem oral e escrita.
Não me refiro à capacidade de fusão digestiva que, na oralidade, transforma várias palavras seguidas numa quase só palavra dita e, não raro, incompreensível, e também não escrevo aqui sobre os códigos que se instalaram no reino das mensagens e correio electrónico, em que letras como o k, antes estrangeiradas, se tornaram comuns. Falo apenas do fenómeno da economia de sílabas que se tem verificado, com aparente sucesso, sobretudo no campo
 da política e da economia. Três exemplos: competitividade que muitos eruditos teimam em reduzir a “competividade”, empreendedorismo também sincopado de uma sílaba para dar em “empreendorismo” mais rapidamente lucrativo e precariedade a quem se vem tirando um dos “e” em jeito de “precaridade”» («No poupar é que está o erro», Bagão Félix, Público, 4.03.2016, p. 49).

      Nada disso: no poupar é que está o génio da língua. É claro que Bagão Félix nunca ouviu falar num fenómeno linguístico chamado haplologia, um caso particular de dissimilação, que nos leva, por exemplo, a dizer bondoso em vez de bondadoso, estendal em vez de estendedal, idolatria em vez de idololatria, etc. Portanto, não apenas não merece censura que alguém diga empreendorismo, como quase de certeza será a forma que se irá fixar no futuro. E devia estar registada nos dicionários. Quanto a precariedade, a questão é outra e não convém misturá-las.

 

[Texto 6660]

Helder Guégués às 09:41 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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