20
Mar 16

Ortografia: «ideia feita»

Pensar outra vez

 

    Escreveu com hífen, e, por duas vezes, emendei para ideia feita. Veio depois o argumento: «É assim que José Mário Costa escreveu no “Ciberdúvidas”. Veja: “A ideia-feita – veiculada recorrentemente na imprensa portuguesa – de o Brasil já ‘não estar interessado em que a nova ortografia seja lei’ foi pretexto para esta carta do autor, publicada no semanário Expresso de 11 de janeiro de 2014. Segue-se a versão integral.”» Sim, mas que culpa tenho eu que José Mário Costa escreva dessa forma? Sim, que culpa? Olhe, se o conhecer, pergunte-lhe se também escreve «ideia-fixa».

     «Ensinados a evitar a discussão real de ideias e a repetir ideias feitas, os profissionais — dos políticos aos médicos, dos juízes aos engenheiros, dos empresários aos cientistas e filósofos — não conseguem resolver os problemas da sua sociedade» (Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade, Desidério Murcho. Vila Nova de Famalicão: Quási Edições, 2006, p. 133).

 

[Texto 6699]

Helder Guégués às 18:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Antepasto, pasto e sobrepasto...

Se é antes, ante-

 

    O que comia Camões? É o que se procurou dar a conhecer numa iniciativa que decorreu na Casa da Escrita, em Coimbra. «A confeção do jantar foi orientada pelo chefe Luís Lavrador. A ementa foi criada a partir de receituários do século XVI, tendo sido adotada a terminologia da época: antipasto, pasto e sobrepasto, acompanhados com vinhos odoríferos» («O que comia Camões? Ao “Sabor da Escrita”...», Miguel Midões, TSF, 19.03.2016).

      Não, Miguel Midões, é antepasto — como em «antediluviano» —, antes do pasto. E depois vem o sobrepasto ou pospasto. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «pasto», no sentido de «alimento, comida», só existe integrado na locução «casa de pasto», o que não é correcto. Para o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, existe mesmo fora daquela locução, mas pertence ao registo familiar. E, por fim, ainda temos o repasto, que tanto (!) pode ser refeição, opípara, opulenta como refeição vulgar.

      «Antidiluviano» é erro muito comum; por óbvias razões de frequência de uso, «antipasto» é menos comum, mas era erro previsível.

 

[Texto 6698]

Helder Guégués às 15:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
20
Mar 16

Saberá, mas isso não chega

Ah, as edições em linha...

 

      «Boas leituras, um bom resto de dia e um excelente fim de semana, sem aviões militares russos mas com Mitrokhin. É que a revista E (em cuja capa sai o código que lhe permite ler gratuitamente o Diário durante toda a semana) trás novas revelações sobre as relações da espionagem soviética com Portugal nos anos pós-25 de Abril» («Brasil a ferver. Cabecilha dos atentados de Paris capturado. E um avião militar russo em Lisboa», José Cardoso, Expresso Diário, n.º 524, 18.03.2016).

    Tenho a certeza que este editor adjunto do Expresso Diário sabe a diferença entre a forma verbal (sempre com z, que traz do infinito*) e a preposição. Contudo, essa certeza não evita erros, e, logo, não me serve a mim nem aos leitores. Se há erros, e não são poucos, na edição em papel dos jornais, nas edições em linha é muito, mas muito pior. A questão é outra: porque julgam os responsáveis destas publicações que podem dispensar revisão?

 

[Texto 6697]

 

      *Diga-se o mesmo de dizer e fazer: se têm z no tema, escrevem-se sempre com z.

Helder Guégués às 11:37 | comentar | favorito
Etiquetas: ,