06
Mar 16
06
Mar 16

«Encarniçamento terapêutico» e etc.

Tanatos sem Eros

 

   «Este não será um caso de eutanásia, mas sim de rejeição de encarniçamento terapêutico (distanásia), frisou o presidente do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, confrontado pela RTP» («Médico reputado diz que assistiu a casos de eutanásia em hospitais», Alexandra Campos, Público, 6.03.2016, p. 60).

   Grande choque, revelar o que toda a gente já sabia... E nos dicionários? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista distanásia, mas não a expressão encarniçamento terapêutico. Acolhe também os termos eutanásia e ortotanásia. De todos estes termos, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa só acolhe «eutanásia».

 

[Texto 6665]

Helder Guégués às 10:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Mar 16
05
Mar 16

Ortografia: «minipalmiê»

Até ao fim

 

      «Os líderes são os mini-palmiers recheados com doce de ovos. Fazem 21 quilos deles por dia» («Com elas é mais pão e bolos», Carla Amaro, Sábado, 3.03.2016, p. 72).

      Então não era melhor, Carla Amaro, escrever minipalmiê? Claro que era. Eu ia jurar que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registava palmiê, mas não. Incongruentemente, a meu ver, pois regista dossier/dossiê, por exemplo. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa não faz melhor, nem diferente. Se já não nos livramos delas, ao menos aportuguesemo-las: ateliê, brevê, dossiê, palmiê, tabliê... É, decerto, uma terminação invulgar na nossa língua, mas antes esta do que terminadas em t.

 

[Texto 6664]

Helder Guégués às 21:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
04
Mar 16

Léxico: «gancho»

Inacreditável

 

    «Um potente gancho de esquerda chegou para o irlandês [Conor McGregor] deixar o brasileiro José Aldo KO e sagrar-se campeão de pesos pluma [sic] em Las Vegas, nos EUA» («Um KO para a história [sic]», Sol, 19.12.2015, p. 53).

   No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nada, este gancho não está lá. Em 2001, porém, já o podíamos encontrar no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa: «Golpe curto desferido com o braço dobrado, no boxe.» Claro que, depois, os tradutores vêm dizer que a palavra nem sequer está nos dicionários...

 

[Texto 6663]

Helder Guégués às 21:02 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Tradução: «registrar»

Políticos e falsos amigos

 

      Lula, a esta hora, ulula. Partido dos Trabalhadores... Trabalhemos nós: cuidado com os falsos amigos. Titula o jornal El País: «La policía interroga a Lula y registra su casa por un caso de corrupción». Acepção que o nosso registar (e o registrar brasileiro) não tem. «Registrar» é, aqui, «examinar algo o a alguien, minuciosamente, para encontrar algo que puede estar oculto». Já no sítio da TSF o título é, como seria de esperar, este: «Buscas em casa de Lula da Silva. Ex-presidente levado para depor». O jornal espanhol diz mais: «En la operación, bautizada Aletheia en referencia a la expresión griega que significa “búsqueda de la verdad”,  participan unos 200 policías y 30 auditores de Hacienda, que cumplen órdenes judiciales en los Estados de São Paulo, Río de Janeiro y Bahia.» Na verdade, aletheia é o que não está oculto ou dissimulado, sem véu. Costuma ser assim com a verdade. Originalmente, porém, aletheia opunha-se a Lethes, o esquecimento (lembrem-se do rio), que, mais do que facto psicológico, era uma força numinosa de ocultação.

 

[Texto 6662]

Helder Guégués às 14:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Período de nojo»

Já para os dicionários

 

      «O deputado comunista lembrou que “há sérias dúvidas relativamente ao estatuto dos deputados”, nomeadamente ao cumprimento “do chamado período de nojo, segundo o qual titulares de cargos públicos, quando cessam funções, não podem exercer actividade nos ramos que tutelaram”, afirmou Machado. Ao final do dia, Catarina Martins voltou a referir-se ao tema, considerando que a contratação da ex-ministra “deve ser investigada”» («Maria Luís Albuquerque contratada por empresa que negociou com o Banif», Cristina Ferreira e Paulo Pena, Público, 4.03.2016, p. 17).

    É um sentido figurado — que devia figurar nos dicionários, para desenrugar a testa dos que levantam as sobrancelhas sempre que ouvem a expressão.

     Não sei se é ainda a Lei n.º 64/93, de 26 de Agosto, no seu artigo 5.º, que estabelece o regime jurídico das incompatibilidades e impedimentos dos titulares de cargos políticos e altos cargos públicos.

 

[Texto 6661]

Helder Guégués às 10:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
04
Mar 16

Sobre a haplologia

Limite-se à economia e à política

 

      O Dr. Bagão Félix insiste em publicar a sua opinião sobre matérias que — como já pudemos comprovar mais de uma vez — não domina. Vejamos o que veio ensinar às massas na edição de hoje do Público: «A poupança silábica está cada vez mais presente na linguagem oral e escrita.
Não me refiro à capacidade de fusão digestiva que, na oralidade, transforma várias palavras seguidas numa quase só palavra dita e, não raro, incompreensível, e também não escrevo aqui sobre os códigos que se instalaram no reino das mensagens e correio electrónico, em que letras como o k, antes estrangeiradas, se tornaram comuns. Falo apenas do fenómeno da economia de sílabas que se tem verificado, com aparente sucesso, sobretudo no campo
 da política e da economia. Três exemplos: competitividade que muitos eruditos teimam em reduzir a “competividade”, empreendedorismo também sincopado de uma sílaba para dar em “empreendorismo” mais rapidamente lucrativo e precariedade a quem se vem tirando um dos “e” em jeito de “precaridade”» («No poupar é que está o erro», Bagão Félix, Público, 4.03.2016, p. 49).

      Nada disso: no poupar é que está o génio da língua. É claro que Bagão Félix nunca ouviu falar num fenómeno linguístico chamado haplologia, um caso particular de dissimilação, que nos leva, por exemplo, a dizer bondoso em vez de bondadoso, estendal em vez de estendedal, idolatria em vez de idololatria, etc. Portanto, não apenas não merece censura que alguém diga empreendorismo, como quase de certeza será a forma que se irá fixar no futuro. E devia estar registada nos dicionários. Quanto a precariedade, a questão é outra e não convém misturá-las.

 

[Texto 6660]

Helder Guégués às 09:41 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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03
Mar 16
03
Mar 16

Tradução: «retraction»

Retraction Watch

 

      «A 27 de Janeiro, Sónia Melo assumiu a duplicação de imagens, numa “notícia de retracção” publicada na mesma revista científica. Contactada pelo PÚBLICO, a cientista, actualmente a trabalhar no novo instituto I3S, no Porto, não quis pronunciar-se sobre a situação. […] Em todos eles, há imagens que, tal como no artigo de que a investigadora já se retractou, parecem ter sido duplicadas ou manipuladas» («Cientista portuguesa retira artigo por suspeita de manipulação de imagens», Samuel Silva, Público, 3.03.2016, p. 28).

      Já aqui tínhamos visto esta questão e fui muito complacente, ou, pelo menos, quis encontrar uma explicação um pouco rebuscada. Claro que temos a palavra «retracção», ainda que nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa a registem. O que hoje me parece inequívoco — até porque, no mesmo artigo, temos o verbo retractar-se — é que estamos perante um erro de tradução, pois ao inglês retraction corresponde, neste caso, retractação e não retracção.

      E pronto, do meu lado, fica a questão arrumada. Agora só falta que alguém diga a Samuel Silva (da outra vez, foi Ana Gerschenfeld) que está errado. Não precisa de se retractar — mas apenas não voltar a cair no erro.

 

[Texto 6659]

Helder Guégués às 17:26 | comentar | favorito
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