02
Mar 16

Beijo na boca e vergonhas

O fim do mundo

 

      Em pleno Congresso, Pablo Iglesias, secretário-geral do Podemos, deu um beijo na boca a Xavier Domènech, do En Comú Podem. (Ah, sim, o beijo de Brezhnev e Honecker.) Esta atitude deixou três ministros ojipláticos, lê-se no jornal El País. Ojipláticos, com os olhos como pratos, isto é, surpreendidíssimos, estupefactos. Está a caminho do DRAE. Uma vergonha? Não. Mas: «Chris Jones enseña las vergüenzas en pleno sprint». Em português, poucas vezes usamos a palavra para nos referirmos aos órgãos sexuais humanos. Talvez apenas quando falamos com crianças. Isto mesmo também o diz o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, vergonhas é «antiquado». Não é.

 

[Texto 6658]

Helder Guégués às 22:56 | comentar | ver comentários (4) | favorito

Falar de outiva

Viajou com José

 

      O secretário de Estado adjunto e do Ambiente, João Mendes, não quer generalizar, mas pensa que os taxistas «são pouco sérios na escolha dos percursos». O presidente da Federação Portuguesa do Táxi, Carlos Ramos, disse à TSF que, com estas declarações, o secretário de Estado «revela que não conhece totalmente o sector e que está a falar por ouvido». Ninguém quer generalizar — só arredondar, porque são 99,99 % assim. Se fossem só os percursos... E os insultos, a badalhoquice, os calhambeques desarticulados e chiantes que usam? Se fossem só os percursos... Na semana passada, usei várias vezes os serviços da Uber, e, numa delas, o condutor levou-me por um percurso que era sensivelmente o dobro do normal. Queixei-me e fui reembolsado. Nos últimos tempos, porém, tive boas experiências ao usar a aplicação mytaxi, pelo que há esperança.

      Voltando ao que interessa: «está a falar por ouvido»? Está errado. Formas correctas de o dizer: falar por ouvir dizer; falar de outiva; falar de cor...

 

[Texto 6657]

Helder Guégués às 22:15 | comentar | favorito
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Topónimo: Latáquia

Menos estranho

 

    Os topónimos estrangeiros oferecem, muitas vezes, dúvidas de adaptação. Não me parece que seja o caso de Latakia, cidade síria, antiga Laodiceia, que assim se chamava porque o rei Seleuco I Nicator quis homenagear a sua mãe, Laódice. Tanto assim é que até nos jornais se vê aportuguesado (quando se lembram): «O seu apoio permitiu aos soldados governamentais retomarem, no final da semana passada, a iniciativa nas províncias de Hama, Alepo e Latáquia» («Bashar al-Assad foi de surpresa a Moscovo falar com Putin», João Manuel Rocha, Público, 22.10.2015, p. 25). É o bastião da dinastia Assad, habitado por 75 por cento dos alauitas do país.

 

[Texto 6656]

Helder Guégués às 20:52 | comentar | favorito

Assim falam os ministros

Ou pelo menos alguns

 

      Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Professor catedrático no Instituto Superior Técnico! Ouçamo-lo então: «Ainda continuando com o debate, muitos dos deputados e das deputadas que interviram, em particular o deputado Luís Monteiro, agradeço mais uma vez. […] E aqui tinhemos a humildade de perceber os números e tinhemos a humildade de construir um projecto colectivo com todos os portugueses.» Ora, não é em vão que dirige o Centro de Estudos em Inovação.

 

[Texto 6655]

Helder Guégués às 00:15 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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02
Mar 16

Ortografia: «tropa fandanga»

A culpa é dos Espanhóis

 

      «É o brilho lusitano de uma tropa fandanga gloriosamente impávida, para maior honra dos nossos maiores, maior promoção dos nossos políticos e maior lucro dos nossos empresários» (A Morte de Ninguém, Vasco Graça Moura. Lisboa: Quetzal Editores, 1998, p. 44).

      Confesso que não sei porque aparece grafado com hífen na maioria dos dicionários, vocabulários e prontuários. Vejamos a origem da expressão: «Diz-se de qualquer aspecto de abandono, de qualquer organização que funciona mal.

      De facto, depois da queda de Olivença, em 1801, até à reorganização de 1806, o Exército era um bando completamente desorganizado, mal pago, indisciplinado, sem instrução, sem armamento nem comandos, minado pelas sociedades secretas, com o qual não se podia contar para a guerra. É desta altura que deriva a expressão em título, que significa “tropa ordinária, reles, desordeira”. Apesar de as condições se terem alterado radicalmente desde então até hoje, a expressão “tropa fandanga” continua a utilizar-se» (Presença Militar na Língua Portuguesa, Aleu de Oliveira. Lisboa: Ministério da Defesa Nacional, 1993, p. 145).

 

[Texto 6654]

Helder Guégués às 00:15 | comentar | favorito
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01
Mar 16

Tradução: «cacolet»

Uma alternativa

 

      Bela palavra... Cacolet, que o Dicionário de Francês-Português da Porto Editora diz que é (mas isto é uma definição, apenas) uma «espécie de cesto com recosto utilizado para transportar viajantes ou feridos». No caso, estavam num elefante e serviam para transportar pessoas. Claro que sempre podemos dizer «cesto» e acabou-se, mas ficamos com vontade que exista e conheçamos uma palavra específica. E porque não cangalhas? Num dicionário bilingue que aqui tenho, não define, mas dá como equivalente artolas, que, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é termo usado no Brasil para designar uma «espécie de liteira ou padiola». O étimo de «artolas» é o castelhano artolas, «aparato que, en forma parecida a las aguaderas y compuesto de dos asientos, se coloca sobre la caballería para que puedan ir sentadas dos personas».

 

[Texto 6653]

Helder Guégués às 10:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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01
Mar 16

Os verbos «ver» e «vir» confundidos

Estou a ver...

 

      Pouco passava da meia-noite quando o Observador publicou um texto de Laurinda Alves, «O rapaz que nunca foi ao cinema e nunca viu os Óscares». Há milhões e milhões de rapazes assim no mundo, mas a autora quis referir-se a um concretamente, que até poderia ir ao cinema e ver os Óscares se não fosse cego, ou, porque de vez em quando se mergulha novamente nas trevas do politicamente correcto, invisual. O pior é quando a autora tem de usar certas formas do verbo ver, em que nem toda a experiência de décadas é suficiente para não confundir com formas do verbo vir.

    «Os invisuais são postos de lado à partida e vêm-se ‘às aranhas’ (eles dizem ‘às aranhas’ quando nós dizemos ‘às cegas’) para conseguirem cumprir o que lhes é academicamente exigido.» E a mnemónica aprendida na escola primária, Laurinda Alves? Vêem — dois olhos. E as expressões idiomáticas também andam confundidas. Vamos lá tirar as aranhas: andar/estar/ficar às aranhas, ou seja, à toa; ver-se em palpos-de-aranha, isto é, achar-se numa situação difícil, em apuros; às cegas, quer dizer, às apalpadelas, sem ver. E as aspas... Deve, por isso, voltar para a casa inicial ⏎.

[Texto 6652]

Helder Guégués às 07:44 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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