26
Abr 16
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Abr 16

«Salvamento de grande ângulo»

Temos novidade

 

      «A operação, que esteve a cargo da equipa de salvamento de grande ângulo dos Sapadores de Gaia, apoiada pelos Bombeiros Voluntários de Avintes, não durou mais de dez minutos» («Retirado do fundo do poço do anexo onde dormia», M. N., Jornal de Notícias, 26.04.2016, p. 24).

      Salvamento de grande ângulo. É escusado jurar que nunca tinha lido ou ouvido tal designação. Logo, há-de ser coisa nova e provavelmente copiada do inglês high-angle rescue.

 

[Texto 6769]  

 

 

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Helder Guégués às 20:05 | comentar | favorito
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25
Abr 16
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Abr 16

Ainda o cartão de cidadão

E a gramática

 

      «Alterar designações por recomendação legislativa em função da valorização moral de convenções gramaticais muda alguma coisa? A propósito do cartão de cidadão, em artigo no Diário de Notícias, Fernanda Câncio acha que sim, porque “o simbólico é muito importante”. A ideia da gramática não ser isenta de semântica não é nova. Contudo, a ideia de regular simbolicamente o significado da gramática legislando afigura-se questionável» («Simbólica é a semântica e não a gramática», Nuno David, Público, 25.04.2016, p. 47).

      É disso que se trata, «regular simbolicamente o significado da gramática», quando se pede que a designação do cartão de cidadão seja alterada? Não é demasiado rebuscado? Não lhe atribuo nenhum efeito prático nem tão-pouco simbólico, o que não quer dizer que desvalorize outras consequências, nomeadamente a veleidade de ser a lei a regular tais questões. (E, já que se trata de questões linguísticas, não seria melhor descontrair? «A ideia da gramática não ser isenta de semântica não é nova.» ↦ «A ideia de a gramática não ser isenta de semântica não é nova.» O que é diferente disto: «A ideia da gramática emergente foi formulada inicialmente por Sankoff/Brown (1976)» [Nova Gramática do Português Brasileiro, Ataliba Teixeira de Castilho. São Paulo: Fapesp, 2010, p. 139].)

 

[Texto 6768]

Helder Guégués às 10:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Abr 16
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Abr 16

Léxico: «infra-estruturar»

Poucas vezes

 

   «Aquilo que se julgava inclusivo, criar infra-estruturas que aproximassem o litoral do interior, funcionou ao contrário: “Promoveu a drenagem.” Aquilo a que Helena Freitas chama “políticas de primeira geração” — infra-estruturar o país —, foram cumpridas. “Mas faltou a segunda geração, que é tornar esta infra-estruturação numa vantagem para esses territórios”» («Há um novo departamento da função pública? Que abra no interior», Ana Fernandes, Público, 24.04.2016, p. 16).

    Infra-estruturar. Não é verbo que veja ser muito usado. E não está em todos os dicionários.

 

[Texto 6767]

Helder Guégués às 11:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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23
Abr 16

Um simples almofariz

E uma lição

 

   Fui comprar um almofariz (gral, moedor ou morteiro) e trouxe também uma lição. É um almofariz antigo, disse-me o antiquário, com quatro aletas salientes em forma de cabeça de leão e o respectivo pilão (pistilo ou mão), de bronze. Ou latão?, pergunto. Cobre, porque tem mais de 75 % de cobre. E o resto? Será estanho, chumbo ou zinco. Ah! Sabe do que fala, até porque tem uma ampla colecção de almofarizes, e de vários materiais, como pedra, madeira, cerâmica, marfim, ferro e bronze.

 

[Texto 6766]

Helder Guégués às 21:30 | comentar | favorito
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23
Abr 16

«Save shot»

Mais um passo

 

      «Esses relatos, ainda não confirmados oficialmente mas amplamente citados, indicam que “os médicos lhe administraram uma save shot [injecção de salvação, em tradução livre] tradicionalmente dada para contrariar os efeitos de um opiáceo” — indiciando uma overdose — e que Prince saiu prematuramente do hospital. Nesse mesmo dia, twittou “I am #transformed”» («Choque, luto e perguntas — 24 horas após a morte de Prince», Joana Amaral Cardoso, Público, 23.04.2016, p. 33).

    Save shot. Pronto, lá ficamos a conhecer um pouco mais de medicina e de gíria médica anglo-saxónica. Haverá um termo ou expressão correspondente em português?

 

[Texto 6765]

Helder Guégués às 21:17 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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22
Abr 16

Léxico: «óstraco»

Mais pobreza

 

      «Os cientistas escolheram para análise uma série de 16 inscrições em hebraico, feitas com tinta na superfície de um conjunto inicial de cem cacos de cerâmica (chamados “óstracos”). Esses fragmentos, vindos de objectos diversos, eram usados para escrever por serem mais baratos e duráveis do que o papiro ou o couro» («Bíblia. Terá ela começado a tornar-se um livro há mais de 2600 anos?», Ana Gerschenfeld, Público, 22.04.2016, p. 10).

   Cá está outra que falta nos principais dicionários. Óstraco. Ana Gerschenfeld lembra, e bem, que ostracismo é deste vocábulo que provém.

 

[Texto 6764]

Helder Guégués às 10:50 | comentar | favorito
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Léxico: «acavalitar»

E depois gabam as alheias

 

      «Pelo meio, ouviu poemas, recebeu presentes, distribuiu simpatia. Confessou que não estava à espera de ter tanta gente na rua à espera. Em Cabeço de Vide, uma aldeia branca acavalitada no cimo de um monte, nem a chuva dispersou a pequena multidão que o esperava. “É a primeira vez que o vejo ao vivo”, emociona-se uma senhora de meia-idade. Um miúdo abana o braço do colega com toda a força, fazendo-o abanar todo, repetindo o “passou-bem” vigoroso que o Presidente lhe tinha dado» («Marcelo, o Presidente próximo, troca beijinhos e selfies por esperança», Leonete Botelho, Público, 22.04.2016, p. 10).

      É variante de encavalitar, mas que os lexicógrafos esqueceram. Ao mesmo tempo, põem nos píncaros a incomensurável riqueza da língua inglesa. (Leonete Botelho, passou-bem, coloquial ou não, não precisa de aspas. Deixe-se disso.)

 

[Texto 6763]

Helder Guégués às 10:17 | comentar | ver comentários (8) | favorito
22
Abr 16

Léxico: «tecolameco»

É alentejano, não entra

 

      «Mas o dia não foi de problemas, antes de festa. Acabou a jantar com os alunos da Escola de Hotelaria e Turismo de Portalegre, que lhe prepararam o manjar: creme de coentros, bochecha de vitela, carne alentejana com migas de espargos, tudo acompanhado de três tipos de pão: alentejano, de castanha e de bolota. Um doce típico do Crato, tecolameco, para sobremesa. E vinho de uma herdade próxima, propriedade de Cândido Ferreira, adversário de Marcelo nas presidenciais» («Marcelo, o Presidente próximo, troca beijinhos e selfies por esperança», Leonete Botelho, Público, 22.04.2016, p. 11).

     É mais um doce tradicional da riquíssima doçaria conventual. Os dicionários desconhecem. Seria mais provável estar dicionarizado se fosse um regionalismo do Norte.

 

[Texto 6762]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | favorito
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21
Abr 16

«Café sem princípio»

Barca de Caronte disfarçada

 

      Como raramente bebo café, só hoje soube que se diz café sem princípio ao café expresso em que o início não é aproveitado. Mas, se nos descuidamos, por cada coisa que aprendemos, desaprendemos duas. A propósito da morte de Prince, Rui Reininho enviou uma mensagem à agência Lusa em que, entre outras coisas, escreve isto: «A Feia Barca de Anacreonte vai cheia, tristes dos que ficamos por aqui, a penar com os nossos IRS.» Esta pede meças ao «bramir o estandarte» de Pedro Lomba. Então na mitologia grega não é Caronte o barqueiro que transportava os mortos, ao longo dos rios Aqueronte e Estige, para o Hades, o mundo subterrâneo? Anacreonte, poeta lírico grego, era mais exímio com a língua do que com o leme, parece.

 

[Texto 6761]

Helder Guégués às 23:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Abr 16

«Ondas insofridas»

Reler Os Lusíadas

 

   «Em 735 adjectivos usados por Luís de Camões n’Os Lusíadas, apenas um é uma criação nova do poeta, uma estreia na história da língua portuguesa. É a palavra “insofrido”, que significa “impaciente”» («O português como língua de Camões é um mito», Isabel Salema, Público, 20.04.2016, p. 28). A tese, diga-se, é de Fernando Venâncio, e mereceu, e bem, uma página do Público.

      Será que significa mesmo «impaciente» naquele verso de Camões? «Fizer por estas ondas insofridas» (Canto V, estrofe 43, v. 6). A estrofe tem sido interpretada como alusão ao tufão que, na segunda viagem (primeira depois da viagem de descobrimento), perto do cabo da Boa Esperança (mas aqui, e de novo, das Tormentas), causou o naufrágio de quatro naus da armada comandada por Pedro Álvares Cabral, e em que morreram todos os seus tripulantes, incluindo Bartolomeu Dias. Foi tudo tão repentino, que nem deram conta do perigo. Nestas circunstâncias, aquelas ondas insofridas são ondas turbulentas, indomáveis, e não impacientes. Insofrido é o que não sofre, e é essa a ameaça: a de que as ondas não iam sofrer, tolerar a passagem dos navios. Sim, sei o que regista Morais no seu dicionário. Estou com Sir Francis Burton: restless waves.

 

[Texto 6760]

Helder Guégués às 01:31 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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