27
Abr 16

Sobre «assassino»

Temos recurso

 

      «O “caso Simba”, o cão morto há um ano na aldeia de Monsanto que deu azo a um mediático processo judicial, acabar [sic] de terminar, com a condenação do homem que o matou a 1920 euros de multa. O dono do cão chamou-lhe “assassino” e, por isso, terá de pagar 3.500 euros. A Carla Tomás entrevistou-o» («Chacina em Cabo Verde, verdades e mentiras. Mataram-lhe o cão e tem de pagar €3.500. Exportações em 2:59. E música de violino», José Cardoso, Expresso Diário, n.º 556, 27.04.2016).

    Caso curioso. Para a maioria dos dicionários, assassinar é matar alguém; para o Dicionário Aulete, porém, a segunda acepção é «destruir a vida de (animal) com crueldade». O Dicionário Houaiss diz o mesmo. Vamos agora ver se o advogado do dono do leão-da-rodésia, Dr. Rogério da Costa Pereira, vai usar este argumento no recurso, pois balear um animal parece-me crueldade suficiente.

 

[Texto 6772]

Helder Guégués às 22:00 | comentar | favorito
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27
Abr 16

Léxico: «difusor»

E logo de competição

 

      «Com o motor 1.6 Tce de 205 cv há potência que chegue. Não faltam elementos tecnológicos (destaque para o tablet tátil e multimédia de 8,7”) e desportivos, como as grelhas em favo de abelha, jantes de 18”, duas saídas de escape cromadas e difusor de competição. Mas o que brilha mais é a tecnologia de 4Control (torna as quatro rodas direcionais)» («Megane GT, controlo total», João Tomé, Destak, 27.04.2016, p. 17).

      É claro que, embora diga respeito a uma peça de alguns automóveis, não se trata da acepção 3 que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 6771]

Helder Guégués às 20:48 | comentar | favorito
26
Abr 16

Léxico: «graxo»

Crasso, e não é erro

 

      «Além daquele doce de ovos, estão no mercado natas, pastéis de feijão, queijadas de laranja e queques de chocolate sem açúcar, sem glúten, lactose, conservantes e gorduras trans (que contêm ácidos graxos insaturados e são associadas a vários problemas de saúde» («“Ovos-moles” só para quem é intolerante», Zulay Costa, Jornal de Notícias, 26.04.2016, p. 28).

     Não se diz com mais frequência ácidos gordos? A palavra, sinónimo de «gordo», é pouco usada. E talvez mal dicionarizada. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se que é o mesmo que «gordurento», «oleoso». Pior só o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que não o regista. Crasso e graxo são palavras divergentes, provêm ambas do mesmo vocábulo latino.

 

[Texto 6770]

Helder Guégués às 20:45 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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26
Abr 16

«Salvamento de grande ângulo»

Temos novidade

 

      «A operação, que esteve a cargo da equipa de salvamento de grande ângulo dos Sapadores de Gaia, apoiada pelos Bombeiros Voluntários de Avintes, não durou mais de dez minutos» («Retirado do fundo do poço do anexo onde dormia», M. N., Jornal de Notícias, 26.04.2016, p. 24).

      Salvamento de grande ângulo. É escusado jurar que nunca tinha lido ou ouvido tal designação. Logo, há-de ser coisa nova e provavelmente copiada do inglês high-angle rescue.

 

[Texto 6769]  

 

 

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Helder Guégués às 20:05 | comentar | favorito
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25
Abr 16
25
Abr 16

Ainda o cartão de cidadão

E a gramática

 

      «Alterar designações por recomendação legislativa em função da valorização moral de convenções gramaticais muda alguma coisa? A propósito do cartão de cidadão, em artigo no Diário de Notícias, Fernanda Câncio acha que sim, porque “o simbólico é muito importante”. A ideia da gramática não ser isenta de semântica não é nova. Contudo, a ideia de regular simbolicamente o significado da gramática legislando afigura-se questionável» («Simbólica é a semântica e não a gramática», Nuno David, Público, 25.04.2016, p. 47).

      É disso que se trata, «regular simbolicamente o significado da gramática», quando se pede que a designação do cartão de cidadão seja alterada? Não é demasiado rebuscado? Não lhe atribuo nenhum efeito prático nem tão-pouco simbólico, o que não quer dizer que desvalorize outras consequências, nomeadamente a veleidade de ser a lei a regular tais questões. (E, já que se trata de questões linguísticas, não seria melhor descontrair? «A ideia da gramática não ser isenta de semântica não é nova.» ↦ «A ideia de a gramática não ser isenta de semântica não é nova.» O que é diferente disto: «A ideia da gramática emergente foi formulada inicialmente por Sankoff/Brown (1976)» [Nova Gramática do Português Brasileiro, Ataliba Teixeira de Castilho. São Paulo: Fapesp, 2010, p. 139].)

 

[Texto 6768]

Helder Guégués às 10:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Abr 16
24
Abr 16

Léxico: «infra-estruturar»

Poucas vezes

 

   «Aquilo que se julgava inclusivo, criar infra-estruturas que aproximassem o litoral do interior, funcionou ao contrário: “Promoveu a drenagem.” Aquilo a que Helena Freitas chama “políticas de primeira geração” — infra-estruturar o país —, foram cumpridas. “Mas faltou a segunda geração, que é tornar esta infra-estruturação numa vantagem para esses territórios”» («Há um novo departamento da função pública? Que abra no interior», Ana Fernandes, Público, 24.04.2016, p. 16).

    Infra-estruturar. Não é verbo que veja ser muito usado. E não está em todos os dicionários.

 

[Texto 6767]

Helder Guégués às 11:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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23
Abr 16
23
Abr 16

Um simples almofariz

E uma lição

 

   Fui comprar um almofariz (gral, moedor ou morteiro) e trouxe também uma lição. É um almofariz antigo, disse-me o antiquário, com quatro aletas salientes em forma de cabeça de leão e o respectivo pilão (pistilo ou mão), de bronze. Ou latão?, pergunto. Cobre, porque tem mais de 75 % de cobre. E o resto? Será estanho, chumbo ou zinco. Ah! Sabe do que fala, até porque tem uma ampla colecção de almofarizes, e de vários materiais, como pedra, madeira, cerâmica, marfim, ferro e bronze.

 

[Texto 6766]

Helder Guégués às 21:30 | comentar | favorito
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