04
Abr 16
04
Abr 16

«Dessossego/desassossego», e um caso estranho

Muitos esses

 

      Quando agora vi a palavra dessossego no Amor de Perdição, lembrei-me, como não podia deixar de ser, da opinião pouco abalizada de Bagão Félix sobre o vocábulo empreendorismo. Mais uma variante, pois: dessossego/desassossego. Espantoso é que tenha sobrevivido a editores, revisores e compositores — e ainda se mantenha em alguns dicionários. Apenas alguns. Não sobreviveram muitos outros aspectos. Por exemplo, no manuscrito e na 1.ª edição, revista pelo autor, está assim: «não tenho a certeza de que houvessem estradas para o Japão». Na 2.ª edição, foi substituída por «houvesse». E, neste caso, fizeram bem editores, revisores e compositores? Andamos para aqui, e não apenas eu, a ensinar que sim e a cobrir-nos de vergonha se temos de citar grandes escritores que escrevem dessa forma (nas obras de Arnaldo Gama, por exemplo, há dezenas, quando não centenas, de casos), mas veio Ivo Castro tirar-nos do nosso sossego: «Desconheço as circunstâncias exactas em que se inseriu na gramática portuguesa a ideia de que haver com o sentido de “existir, ter existência” é um verbo exclusivamente impessoal, quando pelo menos alguns escritores e muitos falantes pensam e agem de outro modo» (in «O linguista e a fixação da norma (2003)», p. 4, aqui). Para um linguista, não é nada de censurável nem especial (mas, deixem-me adivinhar, não escrevem dessa forma); para um gramático, é simplesmente inadmissível.

 

[Texto 6724]

Helder Guégués às 21:19 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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03
Abr 16
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Abr 16

Salvem o gerúndio

Vamos andando

 

      O gerúndio — como o mais-que-perfeito simples e o ponto e vírgula, na opinião de Montexto — também está condenado, isso é certo. Ainda ontem me perguntavam se deixaria passar, numa revisão, esta frase: «O festival que agora estamos organizando, etc.» Agora, a reler o Amor de Perdição, encontrei esta frase de uma personagem: «Sabíamos que ela era dama da Senhora D. Maria I; porém, da soberba com que nos tratou ficámos pensando que seria ela a própria rainha.» Mas as construções com gerúndio, isolado ou em locuções verbais, não são excepção, repetem-se. Qual Alentejo! A personagem é de Vila Real. Quer-nos parecer que o receio é esse, o de que se pense que o autor escreve como os alentejanos ou — supremo labéu — seja alentejano. Ou brasileiro, que, nestas coisas da língua, tem, a certos olhos, o mesmo estatuto menor. Temos de reabilitar o gerúndio.

 

[Texto 6723]

Helder Guégués às 18:04 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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02
Abr 16
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Abr 16

Léxico: «montanheses»

Veio tudo de França

 

      «“O PS não nos queria na primeira fila do hemiciclo à 
sua esquerda, o que deu uma grande briga e a direcção do grupo parlamentar do PCP foi para a última fila, para a montanha, como dizíamos, em memória dos montanheses da Revolução Francesa”» («Carlos Brito. “Com o Marcelo Rebelo de Sousa almocei algumas vezes”», Nuno Ribeiro, Público, 2.04.2016, p. 14).

      A meu ver, é acepção para estar nos dicionários gerais, e não apenas nas enciclopédias. Sim, montanheses, em francês montagnards, e precisamente porque estavam nos bancos mais elevados, dispostos em anfiteatro, da Assembleia Nacional em 1791. Facção mais radical dos jacobinos, defendiam os interesses da pequena-burguesia e dos sans-culottes, por oposição aos girondinos e outros grupos políticos mais moderados, que ocupavam os lugares mais baixos do plenário, e que por isso eram chamados peuple de marais ou peuple de la plaine. Do pântano ou da planície.

      Como se sabe, também os termos direita, centro e esquerda para designar a sensibilidade e posição política nasceram na Revolução Francesa. Assim, os girondinos sentavam-se à direita, os independentes (que ora apoiavam os da direita, ora os da esquerda) ao centro e os jacobinos à esquerda.

 

[Texto 6722]

Helder Guégués às 10:19 | comentar | favorito
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01
Abr 16

«A polme»?

Reduzidos a isto

 

      Na emissão de ontem do programa O Mapa de Receitas de James Martin, no 24 Kitchen, o chefe estava à beira do Loch Fyne, na costa oeste da Escócia e um dos pratos que preparou foi precisamente lagostins ali pescados, passados por um polme (segredo, que eu já conhecia: juntar água tónica) e fritos. Para Rita Amado, a tradutora, porém, não era um polme — mas, repetidas vezes, «uma polme». Parece que há um — um! — dicionário que o regista como feminino. Infelizmente, é seguido por vários chefes, como Henrique Sá Pessoa, Vítor Sobral, entre outros. Mas uma tradutora... Onde foram buscar isto? Ora, como se vê escrito muitas vezes «reduzido a polme», hão-de achar que se trata do artigo... Não? Então expliquem-nos, porque, desde 1585, numa obra do P.e Fernão Cardim, até hoje o termo sempre foi considerado do género masculino.

 

[Texto 6721]

Helder Guégués às 14:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Abr 16

Ortografia: «banda sonora»

Triste tendência

 

      «Isto não é uma banda-sonora», afirma Mário Lopes na Ípsilon de hoje. Estou de acordo: é uma banda sonora. Ficamos de cara à banda. Então agora vamos ligar todos os adjectivos aos substantivos a que se pospõem? Furada, desenhada, magnética...

 

[Texto 6720]

Helder Guégués às 10:56 | comentar | favorito
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