07
Jun 16

A ortografia hoje

É uma confusão

 

      «E o que é que piorou no jornalismo em papel?», perguntaram a Vasco Pulido Valente. «É muito mais mal escrito. Chega a ter erros de gramática nos títulos, de pontuação e até de ortografia — embora hoje a ortografia seja uma confusão, há erros incontestáveis que aparecem nos títulos» («“Devíamos tornar mais difícil formar um partido político”», Ângela Silva e Filipe Santos Costa, Expresso Diário, 7.06.2016).

      Sim, é verdade, mas os jornais em linha não vieram melhorar em nada esse triste panorama — bem pelo contrário. Nas edições digitais dos jornais, tudo o que se publica é encarado como provisório, o que, a meu ver, é um mau princípio.

 

[Texto 6870]

Helder Guégués às 23:43 | comentar | favorito
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Léxico: «bólingue»

Assim estamos

 

      «A internet e os aparelhos móveis como o iphone reforçam aquilo que Robert Putnam apelidou de “Bowling Alone” (individualismo extremo que leva à quebra dos laços de comunidade)» («É a identidade, estúpidos!», Henrique Raposo, Expresso Diário, 7.06.2016).

   Só o cito para ter oportunidade de usar a palavra «bólingue», aportuguesamento que, estando embora dicionarizado, não leio nunca. Robert Putnam escreveu muito antes de o telemóvel tomar conta do mundo (sim, mesmo de África). O que ele (com esta cara de gnomo mau que aqui podem apreciar) viu foi cada vez mais americanos a jogarem bólingue, mas poucos a fazerem-no em clubes ou em competição. Mais actual, em todos os sentidos, é o livro Alone Together, de Sherry Turkle, porque é assim que estamos, juntos, mas sozinhos, até porque o telemóvel já vai fazendo tudo, mas cada vez menos chamadas.

 

[Texto 6869]

Helder Guégués às 23:01 | comentar | favorito
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Que tira-teimas é este?

Duelo democrata

 

      «Hillary Clinton e Bernie Sanders travam hoje um duelo que poderá ser decisivo para se saber qual o candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais de 8 de novembro. Vota-se na Califórnia, Montana, Nova Jérsia, Novo México, Dakota do Norte e Dakota do Sul. Uma recontagem de delegados efetuada pela Associated Press diz, porém, que Hillary já garantiu os delegados suficientes» («Tira-teimas democrata nos EUA», Expresso Diário, n.º 590, 7.06.2016).

      Será tira-teimas o termo mais adequado? A acepção mais próxima seria «argumento decisivo», mas não me parece. O que me parece é que prova de fogo exprime melhor a ideia. «Prova de fogo democrata nos EUA». Ou, porque a ideia de combate está subjacente, assim: «Duelo democrata nos EUA».

 

[Texto 6868]

Helder Guégués às 21:55 | comentar | favorito

Tradução: «jouer à la marelle»

Anacronizar e malucar

 

      Pode não ser só distracção: o tradutor pôs uma personagem de um romance de meados do século XIX a jogar ao avião. Também Tim Cook, da Apple, viu um iPhone nas mãos de uma figura de um quadro de Pieter de Hooch, datado de 1670. Outro, e talvez até menos censurável: uma personagem de um romance norte-americano que passava as passas do Algarve...

 

[Texto 6867]

Helder Guégués às 16:33 | comentar | favorito
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Como se escrevinha nos jornais

Era o adjectivo, criatura

 

      Isto devia ficar numa secção de português teratológico, mas aqui também não fica mal. Agarrem-se bem: «[Peter] Shaffer iniciou
 a carreira
 em 1964, na companhia embriã do que viria a ser o National Theatre» («Dramaturgo Peter Shaffer morre aos 90 anos», Público, 7.06.2016, p. 48). O jornalista andou na mesma escola da *presidenta, ilustre *membra de qualquer academia.

 

[Texto 6866]

Helder Guégués às 11:49 | comentar | favorito

Como se escreve nos jornais

Tem de ensaiar mais

 

     «Ricardo Gonçalves, tal como Francisco Assis, disseram 
o que precisava de ser dito numa altura em que era difícil dizê-lo. Faço questão que as suas palavras aqui fiquem registadas, para memória futura» («Ricardo Gonçalves é o meu herói», João Miguel Tavares, Público, 7.06.2016, p. 48).

     «Ricardo Gonçalves disseram»? João Miguel Tavares, veja lá se revê os textos que escreve. Os leitores agradecem. «Faço questão que»? João Miguel Tavares, veja lá se revê os textos que escreve. Os leitores agradecem. Para memória futura: «Ricardo Gonçalves, tal como Francisco Assis, disse
 o que precisava de ser dito numa altura em que era difícil dizê-lo. Faço questão de que as suas palavras aqui fiquem registadas, para memória futura.»

 

[Texto 6865]

Helder Guégués às 11:04 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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07
Jun 16

Léxico: «telemetria»

Não só, não só

 

      «A telemetria da moto de Luis Salom, hoje divulgada, indica que a passagem sobre uma irregularidade no asfalto com o travão acionado, à velocidade de uma volta rápida, provocou o acidente fatal» («Explicado acidente que provocou a morte de motociclista espanhol», TSF, 6.06.2016).

      É claro que a telemetria não é só o que se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «processo indirecto de medição da distância entre o observador e um ponto que lhe é inacessível». E está alguém a corrigir estes verbetes?

 

[Texto 6864]

Helder Guégués às 10:49 | comentar | favorito
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