28
Jun 16

«Sob/sobre»

O triste espectáculo continua

 

      «Do que a UE precisa é ganhar algum tempo e não decidir sobre precipitação retaliatória, como quer Juncker, que se prepara para vergar à humilhação um David Cameron que já não participará no segundo dia do Conselho Europeu que hoje começa» («Os meninos à volta da fogueira», Bernardo Pires de Lima, Diário de Notícias, 28.06.2016, p. 32).

      Diabos me levem se não é a clássica confusão entre sob e sobre, de que já dissemos tudo o que há para dizer. Isto num investigador universitário...

 

[Texto 6913]

Helder Guégués às 22:11 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «entas»

Por eles, então

 

      «Ainda não tinha entrado nos “entas” quando, em 2005, ascendeu à liderança dos Tories, derrotando na corrida o mais experiente David Davis e sucedendo a Michael Howard» («Cameron: o conservador “pragmático” que pode ter destruído duas uniões», José Fialho Gouveia, Diário de Notícias, 28.06.2016, p. 32).

      Por vezes, vê-se grafado em itálico; outras, como no artigo acima, entre aspas; já vi também antecedido de hífen: entas, «entas», -entas. Nada disso é necessário: o simples contexto torna claro do que se trata. E, se não está nos dicionários, devia estar, nem que seja para os estrangeiros que aprendem a nossa língua. «Eu até jurava que ele que já entrou nos entas, que é que julga?» (Armandina e Luciano, o traficante de canários, Olga Gonçalves. Lisboa: Editorial Caminho, 1988, p. 119).

 

[Texto 6912]

Helder Guégués às 22:01 | comentar | favorito
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Léxico: «beatlesco»

Não é grotesco

 

      «E ainda antes dos Wings, McCartney já fazia questão de dar cavalitas a Linda nas suas andanças musicais, tal como acontece com Another Day (de 1971), uma das suas melhores canções, ainda mal saída da grandiosidade beatlesca — e ainda bem» («Pure MacCartney. O músico de exceção disfarçado de normal», Gonçalo Palma, Diário de Notícias, 28.06.2016, p. 36).

      Nunca antes tinha lido ou ouvido. E está correcto, claro, pois o sufixo -esco acrescenta-se a substantivos como meio de derivação de adjectivos que exprimem relação ou semelhança.

 

[Texto 6911]

Helder Guégués às 21:19 | comentar | favorito
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28
Jun 16

«Quase» prefixo?

Assim não, senhores

 

      «Por outras palavras, um conjunto de superestrelas, avaliado em 477 milhões de euros, perdeu com uma equipa de quase-anónimos, avaliada em 45 milhões (dados do sítio Transfermarkt)» («Adeus[,] Inglaterra: a epopeia da Islândia tem um novo capítulo», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 28.06.2016, p. 46).

      Reconheço: no Acordo Ortográfico de 1990 nada encontramos sobre os elementos de composição não- e quase-, como também nada encontramos sobre a questão no Acordo Ortográfico de 1945. Nem tudo se podia prever, bem sabemos, mas não deixa de ser mais um erro na elaboração das novas regras ortográficas. Assim, a tentação para dizer que, se não está proibido, então é permitido é muito grande, mas, na verdade, a minha interpretação é a de que o espírito do acordo vai nesse sentido. Foi também o que fez, para estabelecer uma linha de coerência do texto como um todo, a Comissão de Lexicologia e Lexicografia da Associação Brasileira de Letras (ABL) na 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. O pior é que, ao mesmo tempo que se interpreta o texto do AO90 desta maneira, acolherem-se — por lapso? — formas em que aparece o hífen. Não pode ser. Se com o elemento quase- não há muitas ocorrências, com o elemento não- são infindáveis, e as trapalhadas são muitas.

 

[Texto 6910]

Helder Guégués às 20:56 | comentar | favorito
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27
Jun 16

Regência do verbo «suceder»

O romancista ou o jornalista?

 

      José Rodrigues dos Santos, ontem, em directo de Londres: «Quando Margaret Thatcher, por exemplo, foi afastada do Partido Conservador, quem a sucedeu foi John Major, que não... sem eleições gerais» («Grã-Bretanha sob fortes réplicas após sismo do Brexit», RTP1, 26.06.2016).

      No português antigo era, de facto, assim: prevalecia a regência directa (a sucedeu), ao passo que hoje em dia domina a regência indirecta (lhe sucedeu). Se o jornalista o ignora, o romancista não devia desconhecer.

 

[Texto 6909]

Helder Guégués às 23:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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27
Jun 16

Como deviam ser os dicionários

Não tão depressa

 

      «É mais ou menos isso que acontece nestas formas de leucemia detectadas debaixo de água. Em 2015, Michael Metzger, do departamento de Bioquímica e Biofísica Molecular da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, nos Estados Unidos e a sua equipa anunciou na revista Cell a descoberta de cancro transmissível em bivalves, especificamente numa espécie chamada Mya arenaria (com o nome comum de clame-de-areia), no Canadá» («Descoberto cancro transmissível em amêijoas, berbigão e mexilhão», Andrea Cunha Freitas, Público, 27.06.2016, p. 22).

      Já não digo em todos os dicionários, mas certamente no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, devia figurar, ao lado do nome comum, a designação científica das espécies. Há alguém capaz de encarregar-se dessa tarefa?

  

[Texto 6908]

Helder Guégués às 23:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
26
Jun 16
26
Jun 16

Léxico: «marisador» e «marisa»

Brevemente num dicionário

 

   «Na fábrica [Atlantis – Cristais de Alcobaça, S. A.] há desde moldadores aos chamados “leva acima” (quem pega numa peça depois de moldada e a coloca na arca de recozimento), passando pelos colhedores do vidro, pelos transportadores de obra, os “oficiais” e “marisadores” (os trabalhadores que têm a responsabilidade de acrescentar uma “marisa”, isto é, mais um pedaço de cristal incandescente a uma peça moldada — uma asa de uma jarra, a base de um centro de mesa, por exemplo)» («O fim da marca é o início de uma nova fase da Atlantis», Pedro Crisóstomo, Público, 26.06.2016, p. 28).

      E os nossos dicionários, nada. E, no entanto, o marisador e o oficial marisador são os vidreiros que ocupam os lugares de maior exigência técnica.

 

[Texto 6907]

Helder Guégués às 18:57 | comentar | favorito
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25
Jun 16
25
Jun 16

Léxico: «amadia»

Da subericultura II

 

      «Depois de plantado o sobreiro, são precisos entre 25 a [sic] 30 anos para a primeira tiragem, à qual se chama cortiça virgem. A segunda tiragem, nove anos depois, dá origem à cortiça secundeira e já tem “alguma qualidade” mas é, tal como a virgem, bastante irregular. Estas não servem para rolhas mas dão origem a matéria-prima para isolamento, pavimentos e produtos para áreas diversas, desde a construção ao design. Só à terceira tiragem, outros nove anos volvidos, é que a cortiça é de qualidade. Esta chama-se amadia, tem as costas e a barriga lisas, e é a única, das três espécies, com qualidade suficiente para a produção de rolhas» («Aprender a extrair a cortiça numa herdade alentejana», Inês Garcia, «Fugas»/Público, 25.06.2016, p. 10).

   Ora, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, amadia é a cortiça que se desenvolve após a extracção da primeira (cortiça virgem) que se criou nos mesmos sobreiros». E não é que não registe secundeira, mas a definição é equívoca: «cortiça que o sobreiro dá em segunda camada».

 

[Texto 6906]

Helder Guégués às 08:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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