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Linguagista

Cacos de hóstia

Um aperitivo

 

      Desde muito novo, comecei a conhecer bem — e não por ser «católico devoto», como outro Manuel da Aguçadoura bacorejou — as hóstias. Ou melhor, não eram ainda hóstias — mas não há, ou eu não conheço, termo para isso —, pois tratava-se de partículas circulares de massa de trigo sem fermento, sim senhor, mas antes de serem consagradas na missa e usadas no sacramento da eucaristia. Vejam agora nesta reportagem a beleza do processo de fabrico destas partículas que vão ser hóstias. Foi uma excelente ideia a dos responsáveis do Instituto Monsenhor Airosa (IMA), que passaram a vender ao público em geral os cacos de hóstia. Quase tão bom como fruta liofilizada. Agora sim é que vamos ter mais papa-hóstias. (Em castelhano, é semelhante, mas não seria tão aplicável nesta situação: tragasantos.)

 

[Texto 7016]

Falsas cognatas

Vê-se logo — que não

 

     «Era Churchill quem os punha a entoar canções de espectáculos de variedades, algumas demasiado “robustas” para o gosto do capitão Dewar-Gibb» (O Fator Churchill, Boris Johnson. Tradução de José Mendonça da Cruz. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2015, p. 124).

      Com milhares de textos, já não sei se alguma vez confessei que nunca conseguia ouvir sem um sorriso Paulo Portas usar, de uma forma um tanto invulgar, o adjectivo «robusto». Divergindo para o que aqui nos traz: «robustas»? Ah, as falsas cognatas... No original está robust, que, dado o contexto, não me parece que se possa traduzir senão por «rudes», «ásperas», talvez mesmo «grosseiras» ou «malcriadas».

 

[Texto 7015]

Léxico: «manga de vento»

Muito bem

 

      «Agora, quem vê a ponte do solo do lado de Belém repara, no pilar sete, numa manga de vento vermelha e branca» («A 80 metros de altura, eis como vai ser o novo elevador da Ponte 25 de Abril», Joana Amaral Cardoso, Público, 9.08.2016, p. 25).

      Muito bem, manga de vento; talvez seja mais conhecida — eu não devia revelar isto, quando há gente susceptibilíssima a ler-nos — por biruta, palavra que vem do francês biroute.

 

[Texto 7014]

Léxico: «pateira»

Não cair como um pato

 

      Boa sugestão, esta do Observador: uma visita à Vila Sassetti, em Sintra, e, de seguida, uma ida até ao Parque da Pena. Aqui, uma visita aos vários lagos. «Nos lagos surgem duas estruturas de abrigo para aves aquáticas (pateiras), cuja arquitectura invoca as duas mais imponentes construções dos domínios de D. Fernando II: o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena» («Os 20 segredos de Sintra», Simone Carvalho, Observador, 7.08.2016).

      Conhecia a palavra, não conhecia a acepção. Estará certa? Adalberto Alves, no Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa (Lisboa: INCM, 2013, p. 695), de pateira diz, para o que aqui nos interessa, que é a «lagoa ou pântano onde existem patos». Ora, a jornalista afirma que as estruturas de abrigo para aves aquáticas se chamam pateiras. Confusão ou é mesmo outra acepção? Cá está mais um caso em que não tenho certezas, mas apenas dúvidas. Na Aguçadoura, até podem esperar que eu solucione tudo (ao passo que o contributo que eles dão é mandar bocas com pseudónimo patusco), mas o meu mérito também está, não raras vezes, em duvidar.

 

[Texto 7013]

«Bucho/buxo», trapalhada

A mão que sai detrás do arbusto

 

      «E foi assim que, finalmente, às 11h00 da manhã, Churchill foi ter com ela, passearam pelos jardins bem cuidados, por entre os buchos destramente aparados e a estatuária grega, viraram à esquerda e passaram pela casa dos barcos, onde a água balança musicalmente contra o molhe» (O Fator Churchill, Boris Johnson. Tradução de José Mendonça da Cruz. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2015, p. 133).

     É um clássico, nem sei como ainda não a tinha aqui no blogue. Como é possível — bem sei que há erros em quase todos os livros, mas nem todos tão flagrantes — que um erro destes escapasse ao tradutor e à revisora? E mais: não sou especialista em topiária ou botânica, mas não seria mais acertado traduzir, uma vez que no original está bushes, por «arbustos»?

 

[Texto 7012]

Léxico: «ventosaterapia»

Não é nada de novo

 

      «O ar de triunfo de Michael Phelps nas fotografias da madrugada de ontem, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, é flagrante. O famoso nadador norte-americano venceu a prova de estafetas dos 4x100m livres. Mas foi impossível não reparar também nas marcas redondas e roxas que o atleta tinha no ombro direito e nas costas. As manchas são hematomas, mas, como dizem as notícias de vários jornais internacionais, o que se vê é o resultado do cupping, uma técnica usada na medicina tradicional chinesa e que em português se chama “ventosaterapia”» («As marcas redondas nas costas de Phelps têm um nome: ventosaterapia», Nicolau Ferreira, Público, 9.08.2016, p. 38).

      Não é nada de novo, não, mas agora encontrou o palco perfeito para ser conhecido em todo o mundo. Os dicionaristas ainda não a descobriram.

 

[Texto 7011]