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Linguagista

Tribunais e intérpretes

Um direito processual, pois...

 

      «Ao contrário do que prevê a lei, não beneficiaram de tradução durante parte significativa do julgamento sumário a que foram sujeitos, apesar de haver um intérprete presente na sala de audiências. […] “A sua intrusão na pista do aeroporto podia ter tido consequências verdadeiramente trágicas. Puseram em perigo os passageiros dos outros voos e respectivas tripulações”, observou a juíza que os condenou a quatro anos de prisão, mas suspendendo a pena. Abdallah, Laid, Seddik e Imed não entenderam. A tradução abreviada da sentença que lhes foi dispensada não deu para tanto. Também não perceberam o que disseram em tribunal as testemunhas que os viram tentar escapulir-se do aeroporto, porque nenhum destes depoimentos foi traduzido para o francês, língua que melhor dominam. Como não o foram as alegações finais» («Argelinos condenados num processo que mal entenderam», Ana Henriques, Público, 12.08.2016, p. 15).

  Não há intérpretes disponíveis: ou estão a banhos ou, mais provavelmente, não aceitam ser mal pagos. Mas esperem: «“Só traduzo o que me pedem para traduzir”, justificou o intérprete de serviço ao PÚBLICO.» Mas, vamos lá ver, a falta de nomeação de intérprete não é sancionada com nulidade dependente de arguição? Então?

 

[Texto 7022]

Tradução: «franglais»

Morno, morno

 

      «Não só usava o colossal vocabulário inglês como era responsável também por algum do melhor franciú de sempre. Atribui-se-lhe a autoria desta soberba ameaça contra De Gaulle: Et marquez mes mots, mon ami, si vous me double-crosserez, je vous liquiderai (E fixe as minhas palavras, meu amigo, se me atraiçoar, liquidá-lo-ei)» (O Fator Churchill, Boris Johnson. Tradução de José Mendonça da Cruz. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2015, p. 157).

      No original, «franglais». Está obviamente mal traduzido. Não temos nós o termo «portinglês», por exemplo? Então, neste caso, podemos traduzir por «franglês», uma amálgama de «francês» com «inglês». Parece que o termo foi inventado por Maurice Rat. No Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, encontramos no verbete «franglais»: «língua francesa com palavras inglesas». Como sucede tantas vezes, não é o termo correspondente em português, mas a definição, o que os lexicógrafos acham, mas estão enganados, que basta. Embora devesse bastar para um tradutor saber se estava no bom caminho, amálgama traduz-se com amálgama.

 

[Texto 7021]