25
Set 16
25
Set 16

«Prise de guerre»

Tem mesmo de ser em francês?

 

      «Quando recebi a proposta de Sarkozy — eu não sou ingénuo —, tratava-se de abrir o campo da direita face à esquerda, e que não resultou. Eu fiz parte daquilo a que se chama uma “prise de guerre”
 [ir buscar personalidades de 
outro campo político]. Mas para quê? O que é que ele me tinha pedido? Tratava-se de perceber que política cultural para a França. Efectivamente, dizem que há uma política de direita e uma política
 de esquerda. Mas eu não acredito nisso. Não sei o que é que isso significa» (Marin Karmitz, entrevistado por Sérgio C. Andrade para o Público. «“Tirar os cinemas do centro das cidades foi uma forma de matar os dois”», 25.09.2016, p. 40).

 

[Texto 7121]

Helder Guégués às 17:07 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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24
Set 16

Suinização da língua

Isso é que está mal

 

      «Dylan deixa as interpretações para os intérpretes e mantém tudo em aberto, como um bom poeta. Mas pede que não usem essa palavra: “Acho que um poeta é alguém que nunca diria de si mesmo que é um poeta... Uma pessoa capaz de dizer que é um poeta simplesmente não pode ser um poeta... Quando as pessoas me chamam um poeta, eu digo: ‘Oh, fixe, que fixe chamarem-me um poeta!’ Mas não me adianta nada. Podem ter a certeza disso. Não fico mais feliz por causa disso.”» («Quem é Dylan», Pedro Mexia, «E»/Expresso, 24.09.2016, p. 106).

    Gosto de ler o que escreve Pedro Mexia (o que revela, até certo ponto, o meu bom gosto), mas por vezes ele exagera. Nisto ou naquilo. Neste excerto, o abuso do artigo indefinido — a tal suinização da língua de que já falámos — é deselegantíssimo. Concorda comigo, Pedro Mexia? Talvez porque é uma tradução, pois não o estou a ver a falar e escrever assim. Corte, corte, corte.

 

[Texto 7120]

Helder Guégués às 20:54 | comentar | ver comentários (6) | favorito

Preferências nacionais

Antes espanhol

 

    «Las víctimas del ciberacoso tardan casi un curso en contar lo que pasa» («Chica de 14 años insultada por WhatsApp», Pilar Álvarez, El País, 21.09.2016, p. 20).

     Cá — não o vimos já tantas vezes? — preferem ciberbullying, que até nos dicionários de língua portuguesa (!) encontramos registada.

 

[Texto 7119]

Helder Guégués às 20:40 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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24
Set 16

Léxico: «praxódromo»

É só esperar

 

      «Com a Cidade Universitária de um lado, a Universidade Lusófona do outro e ainda a proximidade de outras universidades, como o ISCTE, o Jardim do Campo Grande, em Lisboa, é por estes dias de arranque do ano escolar um gigantesco praxódromo» («O praxódromo de Lisboa é o Jardim do Campo Grande», Rute Coelho, Diário de Notícias, 24.09.2016, p. 16).

      Era uma questão de tempo até aparecer outro -dromo. Vimos aqui, recordo, o neologismo pescódromo. Ficamos à espera de mais.

 

[Texto 7118]

Helder Guégués às 20:17 | comentar | favorito
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23
Set 16
23
Set 16

«Francês materno»

Não é quando o Homem quiser

 

      «“Estamos num período de transição para uma nova Colômbia”, diz esta linguista [Tanja Nijmeijer] que nunca falou uma palavra de holandês nos dez anos que passou na selva. Natalie também esqueceu “bastante” o seu francês natal» («Natalie e Tanja, duas guerrilheiras europeias nas FARC», Público, 23.09.2016, p. 23).

      O que dizemos habitualmente é «língua materna», e, logo, «francês materno», «português materno», etc. Já em francês, sim, diz-se langue natale, mas também langue maternelle, e, logo, français natal.

 

[Texto 7117]

Helder Guégués às 09:59 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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22
Set 16
22
Set 16

Sobre «intersectar»

De novo as secantes

 

      Ainda ontem eu aqui falava de linhas ou superfícies secantes, ou seja, as que intersectam, cortam, outra. E está certo, tanto quanto sei. Em castelhano, porém, lembram na Fundéu, o verbo correspondente a intersección não é, como muitos falantes crêem, intersectar(se), mas sim intersecarse, porque provém da voz latina intersecāre, como se pode comprovar no Dicionário da Real Academia Espanhola. Na Fundéu, julgam poder descortinar a influência no inglês to intersect ou no substantivo intersección. Quanto aos dicionários de língua portuguesa, o étimo do nosso intersectar encontram-no no latino intersectu.

 

[Texto 7116]

Helder Guégués às 20:46 | comentar | favorito
21
Set 16

Léxico: «Breslávia»

Não somos polacos (ou poloneses)

 

      «Em Lisboa, o número de rotas disponíveis passará de 18 para 23, com o lançamento de Bolonha, com três voos por semana, Glasgow, duas vezes por semana, Luxemburgo, quatro por semana, Toulouse, diariamente, e Wroclaw (Breslávia)» («Ryanair lança novas rotas e promoções a partir de €14,99», Margarida Fiúza, Expresso Diário, 21.09.2016).

      Melhor: Glásgua, Luxemburgo, Tolosa e Breslávia. Agora a sério: creio que é a primeira vez que vejo este aportuguesamento num jornal. Por mim, perfeito. Se Warszawa passou a Varsóvia, não vejo porque não. De qualquer maneira, quem é que escreve e pronuncia bem Wrocław? Parece que é «Vróst-lav», mas devemos fingir que não sabemos.

 

[Texto 7115]

Helder Guégués às 21:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito
21
Set 16

«Cegar/segar»

Uma cegada

 

      «E ainda leva couve cegada, para introduzir alguma doçura» («Os pratos mais picantes», Ágata Xavier et al., «GPS»/Sábado, 14.04.2016, p. 13).

      Não é o erro que encontrámos (encontrou Rui Almeida, na verdade) na exposição «Aurélia, mulher artista», no Museu da Quinta de Santiago? Duas figuras a cegar erva... Seja como for, a designação não me é familiar, e, mesmo agora, pesquisando nos meus apontamentos, só encontro uma citação: «Ora cá está a ceiazinha — disse à laia de cumprimento; e poisou num banco duas panelas, uma com caldo de couve segada, com feijões e grandes manchas de azeite a boiar, que cheirava pela vida, a outra com arroz de bacalhau» (Contos e Novelas, Domingos Monteiro. Lisboa: INCM, 2001, p. 77). Há-de ser o mesmo que couve migada, isto é, partida em bocadinhos, pois que segar é cortar. Uma linha ou superfície secante (que tem o mesmo étimo) não é a que intersecta, corta, outra?

 

[Texto 7114]

Helder Guégués às 20:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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