28
Out 16

Do canal da Mancha ao Sara

Mal habituados

 

     «A frota de navios de guerra russos encabeçada pelo porta-aviões Almirante Kuznetsov, que ontem cruzou o canal da Mancha e segue com destino à Síria, deverá passar entre hoje e segunda-feira ao largo da costa portuguesa» («Fragata portuguesa vigia passagem de frota russa a caminho da Síria», Susana Salvador, Diário de Notícias, 22.10.2016, p. 21).

      Isso mesmo, canal da Mancha. Lembrei-me de outras paragens mais cálidas e do que ouvi pela segunda vez: deserto do Sara fica, disse-me o meu interlocutor, irreconhecível. Acham mais natural deserto do Sahara, claro. Até devem preferir, suspeito, em árabe, الصحراء الكبرى, mas envergonham-se de o pedir.

 

[Texto 7203]

Helder Guégués às 21:52 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «autor-fantasma»

E outras fantasmagorias

 

      «Autor-fantasma do livro apanhado nas escutas» (Débora Carvalho, Correio da Manhã, 22.10.2016, p. 30).

      Ainda pensei que os dicionários da língua portuguesa registassem ghostwriter e não autor-fantasma, mas não chegam a tanto — simplesmente não registam nenhum dos termos. Quanto a fantasmagorias inglesas, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista uma que me é muito cara, ghosting: «modo de acabar uma relação amorosa, que se caracteriza pela forma abrupta e inesperada como a pessoa que pretende terminar o relacionamento o faz, desaparecendo sem explicações e evitando qualquer tipo de comunicação posterior com o parceiro abandonado». Por vezes, não há outra saída. Não regista é outra acepção de ghosting, bem conhecida de quem via televisão aí pelos anos 70 e 80: «The appearance of a ghost or secondary image on a television or other display screen.»

 

[Texto 7202]

Helder Guégués às 21:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
28
Out 16

Ortografia: «cachorro-quente»

Malditos sejam

 

      «O governo da Malásia vai proibir a venda de cachorros quentes no país» («Malásia proíbe venda de cachorros quentes», Correio da Manhã, 22.10.2016, p. 37).

      Acho muito bem. Malásios do catano! Pervertidos! Imagine-se, a comerem cachorros quentes. São eles e os comunistas a comerem pequenos assados, os malandros. Os jornalistas e os revisores é mais queijo.

 

[Texto 7201]

Helder Guégués às 21:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
27
Out 16

Tradução: «pick-up»

Redutoras já está assente

 

      «A X-Class é uma pick-up de tamanho médio e terá um motor V6 e um quatro cilindros, ambos diesel e com tração integral. Esta combina um sistema eletrónico, uma transmissão com redutoras e dois bloqueios de diferencial, um no eixo traseiro e outro central» («A classe que faltava», Rui Pedro Reis, Expresso Diário, 27.10.2016).

      Cá estão as redutoras — agora já libertas das aspas discriminatórias que lhes vimos aqui. Isto está assente. Mas pick-up... Vão lá dizer ao tio José que gostam da pick-up dele... Toda a vida ouvi dizer e disse carrinha de caixa aberta. Para o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, o equivalente é «camioneta de caixa aberta». Os Brasileiros não podiam deixar de afeiçoar a palavra à sua maneira (que não é manifestamente a nossa) e, vai daí, saiu picape (!), que, para o Aulete, é a «caminhonete com carroceria aberta para transporte de mercadorias». Em 2017, toda a gente — incluindo cá o degas — vai querer uma carrinha destas. Será meio caminho para me tornar agricultor urbano.

 

[Texto 7200]

 

 

Carrinha.jpg

Helder Guégués às 22:45 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Tradução: «raceway»

Já que é proibido

 

      «E, para crescer em escala, está em estudo a criação das chamadas raceways low-cost, uma espécie de piscinas, mas a céu aberto, que permitem produzir quantidades muito maiores de algas, embora com um nível de pureza menor (e, neste caso, serão destinadas a outros fins que não a indústria alimentar)» («O que leva uma cimenteira a produzir microalgas?», Alexandra Prado Coelho, Público, 27.10.2016, p. 27).

      Será que se chamam mesmo raceways low-cost, como escreve a jornalista? É claro que não. Quando muito, raceways — já que é proibido escrever totalmente em português na imprensa portuguesa. São tanques de fluxo contínuo.

 

[Texto 7199]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
27
Out 16

Tradução: «slippery slope»

Uma escorregadela

 

      «Estamos perante um efeito “bola de neve”, dizem os investigadores, que usam a expressão “terrenos escorregadios” (em inglês, slippery slope). E, presumem os cientistas, o mesmo princípio também poderá aplicar-se a situações como comportamentos de risco ou violentos» («O cérebro adapta-se à desonestidade e a mentira cresce», Andrea Cunha Freitas, Público, 26.10.2016, p. 27).

      Não é um efeito bola de neve, não. A metáfora é outra. À letra, é um plano inclinado escorregadio. No efeito bola de neve, pretende-se dizer que alguma coisa se vai avolumando, e, por consequência, tomando proporções cada vez maiores. Ora, no slippery slope (termo proposto em 1985 por Frederick Schauer), como aqui explica José Roberto Goldim, professor de Bioética, isso não acontece, o fenómeno não se vai ampliando em escala, há antes uma contiguidade.

 

[Texto 7198]

Helder Guégués às 00:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
26
Out 16

Léxico: «monossábio»

Olé!

 

      Só sabia o que eram monomaníacos, e sorriu, como que a insinuar estar perante um espécime, o estafermo. Mas não disse que conhecia a cultura espanhola?, perguntei-lhe. Sorriso alarve. E não diz também ser leitor do catalão Eduardo Mendoza?, desafiei-o ainda. Respingou: E depois? Monossábio é o moço que, nas praças de touros em Espanha, trata dos cavalos, ajuda os picadores a montar, etc.

 

[Texto 7197]

Helder Guégués às 20:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
26
Out 16

«Caminho de pé posto»

Escapara-me até hoje

 

      Só neste ano da graça de 2016, e agora mesmo, é que li pela primeira vez a expressão «caminho de pé posto». Ora esta... E até está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «vereda que resulta da passagem repetida de pessoas pelo mesmo local». Como também a encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa: «carreiro estreito, marcado pelo passar repetido das pessoas».

 

[Texto 7196]

Helder Guégués às 09:11 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,