01
Nov 16

Em que se fala no Japão e de xibolete

Escrever em minúsculas já passou

 

      «Do escritor Valter Hugo Mãe conhecia-se a decisão de escrever em minúsculas durante uma boa parte do seu percurso enquanto romancista, mas não se esperava que decidisse introduzir uma particularidade no seu mais recente livro, Homens imprudentemente poéticos: a ausência da palavra não ao longo das suas 200 páginas. É isso que acontece e que, curiosamente, tem passado despercebido. […] Como o cenário do romance é totalmente o do Japão, Valter Hugo Mãe estabeleceu esse compromisso com as personagens: “A palavra não sublinha um traço impróprio no Japão, porque difere da relação cerimoniosa que estabelecem uns com os outros. Os japoneses evitam dizer por norma não e optam por uma expressão para essa negativa que, traduzida à letra, terá o significado de ‘isso é difícil’. Por isso, várias vezes no romance as personagens respondem deste modo. O que é uma negativa educada, com que dão a entender ao interlocutor que o que lhe é pedido é impossível de fazer, mas sem o hostilizar”» («Valter Hugo Mãe recusou-se a escrever não no romance», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 31.10.2016, p. 35).

      Ah, pensei que fosse algum desafio à Perec. Assim está bem. Eu também sou muito japonês, prefiro dizer «logo se vê», «talvez», «vou tentar». Não vale a pena desanimar ninguém, não é? De qualquer maneira, a opção é boa, pois num livro em que se fala do Japão, quanto menos palavras em -ão, este xibolete da nossa língua, melhor.

 

[Texto 7215]

Helder Guégués às 20:30 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas:

Léxico: «joguificação»

Percebe-se melhor

 

      Lembram-se da «gamificação»? Lembram mesmo, ou estão apenas a fingir que têm memória? Bem, vejam: «A JAMP (Joguificação para a Aprendizagem Musical de Piano) é uma aplicação de tablet que ajuda o utilizador a aprender a tocar piano, ligando-se o dispositivo ao instrumento» («A escola de música que nasceu de uma aplicação digital», Marta Velho, Diário de Notícias, 31.10.2016, p. 21).

      É horrível, dizem? E «gamificação» o que é? A mim, só me faz lembrar que tem alguma coisa que ver com o gamo, esse simpático mamífero ruminante, cujo macho possui chifres ramificados.

 

[Texto 7214]

Helder Guégués às 20:01 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «picanço»

Antes que seja tarde

 

      «Aparecem na rua e fazem arranques a alta velocidade, os chamados picanços com dois carros lado a lado até à meta no fundo da rua, ou atrevem-se apenas a fazer piões, com os assistentes a poucos metros» («Os Picas de Mindelo até levam crianças», David Mandim, Diário de Notícias, 31.10.2016, p. 19).

      Há muitos picanços nos dicionários — curiosamente, mais no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que diríamos mais engravatado, do que noutros —, mas não este sentido. Antes que se adopte e dicionarize um termo inglês, talvez fosse boa ideia acolher este. É que os picanços, afinal, fazem-se nas street races...

 

[Texto 7213]

Helder Guégués às 19:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
Etiquetas: ,
01
Nov 16

Léxico: «clawback»

Aguardo notícias

 

   «Tratava-se da contribuição extraordinária das empresas que comercializam dispositivos médicos, à semelhança do que já acontece com o sector dos medicamentos — a indústria farmacêutica paga a chamada clawback, uma tributação sobre o volume das vendas imposta em 2015 pelo Governo PSD/CDS» («Governo recua na taxa especial para empresas de dispositivos médicos», Alexandra Campos, Público, 1.11.2016, p. 20).

   Seria completamente inesperado que tal coisa tivesse nome português. Aqui, a Apifarma explica do que se trata: «As farmácias são taxadas sobre uma percentagem das suas vendas de medicamento, como forma de “devolução” das vendas dos medicamentos comparticipados. Este sistema está desenhado para que as farmácias encontrem fontes de abastecimento a preços mais baixos, como a importação paralela.» Não sou especialista nesta matéria, mas não se poderia traduzir por reembolso ou recuperação de custo?

 

[Texto 7212]

Helder Guégués às 18:27 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,