23
Nov 16

Estrelas Michelin

Se não é, parece

 

   Portugal conquistou mais nove estrelas Michelin. Ena! Com uma estrela («cozinha de grande fineza, merece uma paragem»), são sete os estabelecimentos que entram agora para o famoso guia vermelho. Destes sete, cinco não têm nome português: Loco, William, L’And Vineyards, Antiqvvm e LAB by Sergi Arola. Com duas estrelas («mesa excelente, merece um desvio»), dois restaurantes também com nome estrangeiro: The Yeatman e Il Gallo d’Oro. Sim senhor, sim senhor... Afinal, a internacionalização da nossa gastronomia não passa apenas pela adopção de vieiras e minilegumes: convém que o nome seja estrangeiro.

 

[Texto 7274]

Helder Guégués às 23:37 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Real/reais/réis»

Realmente

 

   O plural de «fiel», já vimos, causa, sobretudo depois do AO90, muitas interferências nos neurónios de alguns dos nossos concidadãos, logo por azar na cabeça daqueles que escrevem. Vou agora vendo que há outra que sofre os mesmos tratos: réis. Sabem (?) que o singular é real, desconhecem que um dos plurais é reais, desvirtuam o outro plural não lhe apondo o necessário acento agudo, réis, o que é grave. Vai-se a ver, são doutorandos e quejandos.

 

[Texto 7273]

Helder Guégués às 20:14 | comentar | favorito
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Léxico: «pió»

Altos voos

 

      Um amigo meu, amante da falcoaria, pergunta-me porque não está nos dicionários o termo pió — que é uma correia, com cerca de um palmo e pouco, que se prende em volta dos sancos das aves caçadoras para as sujeitar ao punho. Há-de ser porque os dicionaristas a não conhecem, como eu próprio não a conhecia. Aliás, faltam neles outras mais necessárias. Já tínhamos pio e piô (ou têm, neste caso, os Angolanos), e agora pió.

 

[Texto 7272]

Helder Guégués às 20:11 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Tradução: «peanut/groundnut»

Não é tudo o mesmo

 

   Claro que por vezes ficamos a perder: em inglês, há peanut e groundnut, que nos nossos dicionários bilingues aparecem traduzidos por «amendoim». Ainda que em inglês também se usem, muitas vezes, indiferentemente, não é o mesmo. O último, ao que parece, serve sobretudo para extrair óleo.

 

[Texto 7271]

Helder Guégués às 18:10 | comentar | favorito
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Tradução: «proconsul»

Não é preciso inventar

 

      Os dicionários bilingues têm muita culpa, mas os tradutores têm ainda mais. À data da independência de Angola, em Novembro de 1975, quem representava os interesses de Portugal? E que função desempenhava? Bem, o nome nem sequer interessa muito, mas era o contra-almirante Gomes Cardoso (1919-1988), que fora substituir o general Ferreira de Macedo. A função, o cargo, era o de alto-comissário. Como se dirá isto em inglês? Talvez proconsul, porque numa tradução se alude ao «Portuguese pro-consul» em 1975, o que o tradutor verteu por «procônsul». Ora, em inglês é que significa também «an administrator in a modern colony, dependency, or occupied area usually with wide powers» (in Merriam-Webster).

 

[Texto 7270]

Helder Guégués às 17:22 | comentar | favorito
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«Congregacionalismo/congregacionismo»

Muitas sílabas

 

      Congregacionalismo e congregacionismo. Há de tudo: dicionários que não registam nenhum dos termos; dicionários que acolhem os dois; dicionários que registam apenas um deles. Só nos interessa os que registam ambos os termos. Entre estes está o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que define congregacionalismo como a (1) «defesa do direito das congregações de administrarem os seus assuntos, sem estarem sujeitas a uma instituição religiosa superior» e (2) o «conjunto das igrejas (protestantes) organizadas segundo esse princípio». Quanto a congregacionismo, que custa um pouco menos a pronunciar, diz que é a «forma de organização eclesiástica protestante que defende a autonomia das igrejas locais». Ou seja, são sinónimos, variantes, e por isso cabe perguntar: são mesmo necessários os dois termos? Há centenas, milhares de variantes que opulentam a língua — mas será o caso?

 

[Texto 7269]

Helder Guégués às 15:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «pletora»

Vamos lá ver

 

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, vemos que pletora tanto é, como termo da medicina, a superabundância de humores ou de sangue, ou, como termo da botânica, o excesso de seiva, como, em sentido figurado (1), qualquer excesso nocivo ou (2) superabundância, profusão. Até aqui, tudo bem. Contudo, no Dicionário de Termos Médicos, da mesmíssima Infopédia, vemos que para o «estado em que existe aumento do volume de sangue corporal ou em determinado órgão ou região do corpo» regista o termo... plétora. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, por sua vez, regista, e bem, só uma grafia para todas as acepções: pletora. Rebelo Gonçalves só reconhece esta grafia.

 

[Texto 7268]

Helder Guégués às 12:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Sobre «lusófono»

Ficamos a saber quem foi

 

      «While living in Dar-es-Salaam I coined the word Lusophone to describe Portuguese-speaking African nationalists» (A Short History of Modern Angola, David Birmingham. Londres: Hurst & Company, 2015, p. x).

 

[Texto 7267]

Helder Guégués às 12:02 | comentar | favorito
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Sobre «milionário», de novo

Agora são 941 mil euros

 

      «O número de milionários em Portugal aumentou no espaço de um ano. A análise do Credit Suisse mostra que há hoje no país cerca de 54.233 milionários, ou seja, pessoas com um património acima de um milhão de dólares (cerca de 941 mil euros)» («Num ano, mais de 1300 milionários», Público, 23.11.2016, p. 45).

      No Verão de 2011, tratei aqui do conceito de milionário. Nessa altura, afinal, bastava possuir cerca de 700 mil euros para se ser considerado milionário. Desde então, só o número de milionários portugueses aumentou, pois a definição nos dicionários — o que possui milhões ou é muito rico — permaneceu exactamente a mesma. Ora, no dicionário da Real Academia Espanhola, por exemplo, millionario é o «que posee un millón, o más, de unidades monetarias». No Larousse, a definição de millionnaire é «dont les revenus sont au moins de un million d’euros». No Hoepli, milionario é o «che possiede una ricchezza che ammonta a uno o più milioni», e por aí fora.

 

[Texto 7266] 

Helder Guégués às 11:05 | comentar | favorito
23
Nov 16

Léxico: «zerar»

Tot nul reduceren

 

      «Quanto mais fazemos, mais ficamos viciados em fazer, em criar pratos novos, ir à procura de produtos, cronometrar tudo.” Depois, “há momentos em que apetece ‘zerar’, cozinhar para os amigos, descontracção total” [afirma Miguel Laffan]» («A guerra das estrelas», Francisca Gorjão Henriques, Público, 23.11.2016, p. 15).

    Agora já nem digo que não precisa de aspas, para quê? Quanto a zerar, é curioso — e sintomático — que na Infopédia esteja no Dicionário de Português-Alemão, no Dicionário Português-Neerlandês e no Dicionário de Verbos Portugueses. No que mais importava estar, porém, não o encontramos.

 

[Texto 7265]

Helder Guégués às 10:26 | comentar | favorito
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