27
Dez 16

Ortografia: «multiúso»

Polifuncional

 

    «Usufruem deste regime as pessoas com deficiência que tenham um grau de incapacidade igual ou superior a 60%, reconhecido por atestado multiúsos, e apresentem dificuldades específicas que lhes possam “limitar ou dificultar a atividade e a participação em condições de igualdade”» («Ignorar atendimento prioritário vai dar multa», TSF, 27.12.2016).

   É, como disse aqui, a grafia que prefiro e recomendo. Creio, no entanto, que é melhor optar por «multiúso». No caso, «atestado multiúso» (que eu não sabia existir). Estranhei foi que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registe tanto «multiusos», como «multiúsos», ainda para mais sem remissões.

 

[Texto 7359]

Helder Guégués às 19:35 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Como se traduz por aí

Como calha

 

      O poeta, e meu amigo, Rui Almeida avisou-me de que se lê por todo o lado que o Papa Francisco desejou que estes «sejam dias de alegria e irmandade». Hum, será que o papa usou mesmo esta última palavra? Não seria antes «fraternidade», sinónimas, sim, mas que preferíamos e esperávamos ver ali? Foi, claro: «siano questi, per voi e per i vostri familiari, giorni di gioia e di fraternità». Quando deviam fugir, porque se trata de falsas cognatas, não fogem. Quem percebe esta gente?

 

[Texto 7358]

Helder Guégués às 14:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Dez 16

Como se escreve por aí

Nada higiénico

 

      A rapaziada da Dinheiro Vivo está entusiasmadíssima: nas casas de banho do Aeroporto Internacional de Narita, no Japão, há rolos de papel para limpar os telemóveis. Vai daí, escrevem assim: «Os passageiros que chegam ao aeroporto são encorajados a ler as folhas anticéticas com as informações antes de as mandar para o lixo, para saber onde se encontram pontos Wi-Fi e outras informações de viagem, de acordo com o mesmo portal» («No Japão o papel higiénico está a servir para limpar smartphones», 26.12.2016).

      Já podiam ter corrigido, tantas horas depois, mas os leitores, esses anormais desocupados, que se lixem, não é assim?

 

[Texto 7357]

Helder Guégués às 14:09 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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26
Dez 16

Tradução: «heart failure»

Sem falha

 

    «O músico britânico George Michael morreu vítima de falha cardíaca, revelou esta segunda-feira à BBC o seu agente, Michael Lipman [sic]» («Falha cardíaca apontada como causa da morte de George Michael», Expresso em linha, 26.12.2016).

    A minha função é duvidar. Será que heart failure se traduz mesmo por «falha cardíaca»? Para o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, é «colapso cardíaco», mas «colapso», hoje em dia, é empregado a torto e a direito. Não se traduz habitualmente por «insuficiência cardíaca»? Esperamos os esclarecidos contributos de tradutores e médicos.

 

[Texto 7356]

Helder Guégués às 17:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «publicist»

Pacificamente

 

      Lá morreu George Michael. «O cantor morreu “pacificamente” aos 53 anos», lê-se em todo o lado. Como se tivesse, não 53 anos, mas 106 e se apagasse como uma vela já só coto. Enfim. Li ainda ontem vários artigos, e variava a função de quem dera a notícia: o seu publicista; o seu agente; o seu assessor de imprensa. Percebe-se: é publicist que se lê na imprensa inglesa. Agora só falta — faltou aos jornalistas — ver o que significa em inglês e em português e concluir daí alguma coisa.

 

[Texto 7355]

Helder Guégués às 15:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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26
Dez 16

Léxico: «pré-digestão»

O mesmo processo

 

    A cada passo, vemos que faltam palavras nos dicionários. Por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista ensalivação (e até a variante insalivação), que ocorre na fase da pré-digestão dos alimentos, não acolhe, no entanto, o termo «pré-digestão», o que outros fazem. Podem, agora os dicionários já podem registar todos os vocábulos que não caíram em desuso ou se tornaram obsoletos. Aliás, a meu ver, em dicionários digitais até estes últimos deviam ser acolhidos. Termos que se usam fora dos dicionários é sempre um risco.

 

[Texto 7354]

Helder Guégués às 11:53 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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25
Dez 16

Como fala o Pai Natal

Boas Festas

 

      Vá lá, não vamos agora fingir que a dificuldade não existe: como traduzimos/transcrevemos aquela interjeição do Pai Natal? (Não vem ao caso, mas é claro que digo e escrevo Pais Natais.) Ou vamos deixá-lo a interjeccionar em inglês para sempre? É que, se temos as interjeições ó e oh, não temos ho, que é como se representa sempre aquela interjeição*. E, o que é mais interessante, como notou Véronique Dahlet, esta combinação silábica contraria o que encontramos para os termos comuns da nossa língua, em que é sempre consoante h + vogal. No entanto, em Gil Vicente tínhamos hou, interjeição para chamar: «Hou da barca!» Ao que parece, aquela interjeição inglesa — que vem do latim io — equivale mais ou menos a «ouçam». «Ouçam, é Natal!»

 

[Texto 7353]

 

* Claro que, para os borra-botas que escrevem «ha, ha, ha», «hi, hi, hi», «ho, ho, ho», é tudo igual. Não escrevo para eles.

Helder Guégués às 19:40 | comentar | ver comentários (5) | favorito
25
Dez 16

«Glúten/gluteína/glutenina/glutelina»

Para rever

 

      A molécula do glúten é composta por proteínas solúveis e por proteínas insolúveis. Estas últimas, que tornam a farinha panificável, são a gliadina e a gluteína. Dito isto, não compreendo porque manda o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora «ver glúten» no verbete de «gluteína», porque no verbete de «glúten» pode ler-se apenas que é a «mistura de proteínas existente nas sementes dos cereais, especialmente no trigo», sem especificar quais, e no verbete de «gliadina», em vez de uma remissão, se lê que é a «substância semelhante à gelatina, que se extrai do glúten». É muito simples: ou definem ambos os termos ou não definem nenhum. Independentemente disso, se querem fazer alguma remissão em «gluteína», será para «glutenina» e não para «glúten». E não devem esquecer-se de que as remissões devem ser sempre recíprocas. Mais: a gluteína é uma glutelina, termo este que o dicionário não acolhe.

 

[Texto 7352] 

Helder Guégués às 16:20 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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