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Linguagista

Tradução: «tissulaire»

É essa a receita

 

      Cada um de nós, afiança o autor, tem a sua «propre identité génétique tissulaire». Como o traduzem os nossos dicionários bilingues? Ora, por «dos tecidos orgânicos», o que não nos satisfaz, ou pelo menos não em todos os casos. Dir-se-á «tissular»? Aqui é que o Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora me surpreendeu como nunca, e positivamente: «adjectivo relativo ao tecido (galicismo); sinónimo tecidual (forma preferível)». (Que tem a variante tecidular.) Se fossem, em todas as circunstâncias, tão claros e assertivos na defesa da língua, seriam dignos de todos os louvores. Só falta saber se os nossos médicos dizem «identidade genética tecidual/tecidular». Caro R. A., sabe alguma coisa sobre a questão?

 

[Texto 7379]

«Bis, bis, bas, bas»

E o leitor, já a ouviu?

 

    Também recentemente, cruzei-me na rua com duas pessoas, um homem e uma mulher, na casa dos 60 anos. O homem fez qualquer afirmação — na altura, retive-a, mas depois eclipsou-se-me —, ao que a mulher respondeu: «Ora nem mais. E bis, bis, bas, bas.» Já estive para trazer o caso para aqui mais de uma vez, mas nem sequer sabia — ah, sim, também tenho esse problema — como o escrever. E porquê? Ora, porque, ao que me parece, é coisa inventada. Hoje, perguntei a algumas pessoas se conheciam a expressão. Uma deu-me uma pista que não me ocorrera: já ouvira algo parecido na zona de Ourém-Fátima — «bis, bis, aspas, aspas». Que será variante da expressão familiar «idem, idem, aspas, aspas». E também esta com variantes mais livres e jocosas, como «idem, idem, na mesma data». Todas, como se sabe, a significarem apoio, concordância, adesão a alguma coisa, por outrem dita anteriormente.

 

[Texto 7378]

Tradução: «piquée d’écriture»

À chaque fou sa marotte

 

      É assim que ela se descreve, piquée d’écriture. Como dizemos nós — «doida pela escrita»? Mas isso é ambíguo. Há dias, cruzei-me com duas raparigas na rua e uma dizia que era doida pela escrita de Carlos Ruiz Zafón. Como o próprio Carlos Ruiz Zafón há-de ser, imagino, doido pela escrita. Voilà. No caso, a criatura francesa é doida por escrever.

 

[Texto 7377]

«Gaiola pombalina»

Num barril de pólvora

 

      «Em Lisboa, lamentou, nem as construções novas nem as reabilitações têm em conta o risco de terramotos. “A Baixa é um marco da história da humanidade que nós próprios temos andado a destruir”, disse [Mário Lopes, investigador do Instituto Superior Técnico], referindo-se à remoção das chamadas “gaiolas pombalinas” e ao aumento do número de pisos sem o reforço das bases dos edifícios. “Isto é a receita para o desastre”» («Risco sísmico em Lisboa: “É como estar num barril de pólvora”», João Pedro Pincha, Público, 5.01.2017, p. 14).

      (Pombaline cage, para a legião de anglófonos que nos segue.) Podia facilmente estar nos dicionários gerais da língua. É, como se sabe, das primeiras estruturas anti-sísmicas do mundo, de inspiração naval, que consiste essencialmente numa estrutura de madeira de pinheiro-silvestre, importado do Norte da Europa. É um dos legados pombalescos (vá, temos de o usar ou ainda morre nos dicionários).

 

[Texto 7376]

Os nomes e o AOLP90

Foi por ti, Yasmin

 

     «Igualmente surpreendente é que nomes que começam por letras que só no final do século passado entraram no alfabeto português sejam tantas vezes escolhidos. É o caso de Yasmin[,] adoptado 278 vezes, Yara escolhido 248 ou Kyara 163. Nos rapazes também há nomes invulgares que aparecem muitas vezes. Enzo, por exemplo, foi adoptado 376 vezes, Isaac 262 e Kevin 260» («Santiago destrona João num país de Marias», Mariana Oliveira, Público, 4.01.2017, p. 13).

     Então, foi para isto que se fez o Acordo Ortográfico de 1990... Mas essas letras, Mariana Oliveira, não entraram no alfabeto português no fim do século passado.

 

[Texto 7375]

Com que então, os «rohingya»... [5.01.2017]

Da Birmânia, os Ruaingás

 

      «Uma comissão que investiga a violência no Myanmar (antiga Birmânia), no estado Rakhine, negou que as forças de segurança tenham abusado dos rohingya, dias depois de ter surgido um vídeo que mostra a polícia a bater em civis daquela minoria muçulmana» («Comissão nega abusos contra minoria muçulmana em Myanmar», Diário de Notícias, 4.01.2017, 7h51).

      Pelo menos o plural, senhores jornalistas da Lusa! Pelo menos. Na Fundéu já trataram da questão, e a conclusão a que chegaram foi que, como este povo tem uma língua própria escrita com caracteres latinos e grafam a palavra como ruaingá, esta é outra forma, a par de, para o castelhano, rohinyá. E terminam: «Se recuerda finalmente que el nombre del país es Birmania, mejor que Myanmar, y que el estado donde se asientan se puede romanizar, según la pronunciación original birmana, como Rakáin (mejor que Rakhine y Rajine).»

 

[Texto 7374]