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Linguagista

Palavra do ano com séculos

Geringonça, uma criada

 

     «Há vários significados atribuídos a “geringonça”: “construção pouco sólida e que se escangalha facilmente; caranguejola”; “aparelho ou máquina considerada complicada; engenhoca”; “coisa consertada que funciona a custo”. Isto antes de se chegar aos sentidos figurados: “sociedade ou empresa de estrutura complexa e pouco credível”, “qualquer coisa ou ideia engendrada de improviso e que funciona com dificuldade”. Por último, “calão; gíria”» («Quase nove mil portugueses votaram na “geringonça” (o termo, bem entendido)», Rita Pimenta, Público, 5.01.2017, p. 30).

      Por último, mas não em sentido figurado, agora, porque era esse o sentido original. E o étimo será mesmo, como regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o «provençal antigo gergons, de gergon, “linguagem difícil”», quando em castelhano também existe o termo jeringonza/jerigonza*, precisamente com o mesmo significado, «lenguaje especial de algunos gremios»? Uma estupenda coincidência ou um enorme equívoco?

 

[Texto 7385]

 

      * E lembremos que em português se registam precisamente as mesmas variantes, gerigonça/geringonça.

«Grã-Cruz/Grande Cruz»

É sempre grande

 

      A propósito de Mário Soares, Jorge Sampaio lembrou que o seu primeiro acto como presidente da República foi condecorá-lo com a Grande Cruz da Ordem da Liberdade. Logo me perguntaram se estaria correcto daquela forma, quando na página oficial das Ordens Honoríficas Portuguesas é apenas «Grã-Cruz» que se lê. O que se pode dizer é que, em relação a qualquer ordem, é indiferente usar-se uma ou outra. E será mesmo o nome oficial? Quando se diz «grã-cruz» ou «grande cruz», estamos a referir-nos tão-só à forma da condecoração atribuída, nada mais.

 

[Texto 7384]

Léxico: «desconexão»

Tudo desligado

 

      «O ministro do Trabalho chama-lhe direito à desconexão. Ou seja, o contrário de estar sempre ligado» («Direito à desconexão deve ser negociado nas empresas», TSF, 6.01.2017, 13h38). Até parece que o ministro teve um surpreendente rasgo de inspiração. Entrou agora em vigor na França, e lê-se no jornal Le Monde, por exemplo: «Droit à la déconnexion: “Pour des millions de salariés, le smartphone a abrogé les lois Aubry”». Na verdade, nem é a palavra em que pensamos de imediato. «Chama-se “direito a desligar-se” e é uma nova lei que faz parte de uma reestruturação mais vasta da legislação laboral francesa» («Trabalhadores franceses ganham direito a não consultar o e-mail profissional fora de horas de expediente», Exame Informática, 2.01.2017, 17h00).

      Voltando a desconexão/desconectar-se. É a acepção usada no artigo que falta, assim como nos vocábulos relacionados, em alguns dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não está registada. E, contudo, acolhe uma acepção correlata, neste caso, no verbo conectar: «INFORMÁTICA estabelecer conexão entre (sistemas informáticos, computadores)». E é verbo que se usa neste sentido desde o início da Internet, em especial no Brasil.

 

[Texto 7383]