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Linguagista

Coisas da Índia

Que camisa é essa?

 

      «É o culto da personalidade levado a extremos que provavelmente não seriam tolerados em Portugal: no enorme complexo da Vibrant Gujarat (a mega-convenção internacional organizada pela Índia e na qual António Costa participou nesta terça-feira) há uma pequena loja de vestuário que vende apenas dois artigos: casacos sem mangas e turkas (uma camisa de mangas curtas, e tronco comprido, até aos joelhos)» («Vestido para governar. Loja na Índia só vende roupa igual à do primeiro-ministro», Hugo Neutel, TSF, 10.01.2017, 20h51).

      Na rádio não é preciso o itálico, não é assim? Vai tudo pelo ar. De qualquer maneira, não é kurta o nome que se lhe dá? Também é «megaconvenção» que se escreve. Mas o que mais me interessa neste caso: dir-se-á mesmo «tronco da camisa»? Uma camisa tem costas, frentes (esquerda e direita), colarinho, carcelas, punhos...

 

[Texto 7399]

Tradução: «traitant»

Desusado com desusado

 

    Acabo de ler, numa obra em língua inglesa, um texto sobre o poderio dos argentários em França, no tempo do Rei-Sol. Esses argentários, financeiros, eram os messieurs traitants. Até encontramos a palavra nos dicionários bilingues. No Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, por exemplo, lemos isto: «HISTÓRIA cobrador de impostos». Nesta acepção, caiu em desuso na língua francesa. Ora, trata-se da segunda acepção do vocábulo «tratante» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «antiquado negociante; contratador». Era-lhes adjudicada a arrecadação dos impostos. Uma espécie de PPP dos nossos tempos? Bem, seria útil o dicionário bilingue dar mais esta indicação: «HISTÓRIA cobrador de impostos; tratante (antiquado)».

 

[Texto 7398]

Tradução: «juego del muelle»

Como uma mola

 

      «Os rapazes estão sentados, com as calças para baixo. As raparigas sentam-se em cima deles, despidas da cintura para baixo, e o último rapaz a ejacular é o vencedor. O “jogo do muelle” está a alarmar as autoridades espanholas. Só em 2016, de acordo com o jornal espanhol “El Mundo”, chegaram quatro jovens grávidas aos hospitais por causa deste jogo. O mesmo jornal explica que o “jogo do muelle” (jogo da doca) é originário de Medellín, na Colômbia, mas ganha cada vez mais seguidores em Espanha» («Alerta devido a novo e perigoso jogo sexual entre adolescentes», Jornal de Notícias, 9.01.2017, 14h28).

      Acaba por ser o menos importante, mas será que se pode traduzir por «jogo da doca»? Aliás, para começar, é um disparate traduzir só metade. Ou sabem traduzir, e traduzem tudo, ou fica «juego del muelle», não «jogo do muelle». Mais importante: muelle significa «doca, molhe», sim, mas a palavra que me vem logo à mente é «mola», outra acepção, entendimento que me parece certo ao ler esta descrição: «Emulando el mecanismo de un muelle, las jóvenes pasan de un chico a otro en este entretenimiento sexual lleno de riesgos, donde pierde el chico que eyacule primero.»

 

[Texto 7397]

Ortografia: «ioiô»

Não é

 

      «É um truque de ioiô, não um passeio agradável para um dos teus amigos caninos, e faz-se melhor num chão de madeira ou de mosaico» (O Livro das Raparigas, Juliana Forster. Tradução de Isabel Veríssimo. Alfragide: Texto Editores, Lda., 2014, p. 81).

      Pois, é como eu escrevo e pronuncio desde sempre: ioiô. Mas, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o respectivo verbete indica que é a grafia usada no Brasil, remetendo para ioió.

 

[Texto 7396]

Tradução: «bâtonnet»

Ainda na cozinha

 

      Ah, a culinária francesa... Eis aqui um prato de tomates-mozza sur bâtonnet. Como também podia ser papillote tomates-mozza. Como traduzir aquele bâtonnet, alguém sabe? Serão, ao que creio, simplesmente pauzinhos. E, contudo, no Dicionário de Francês-Português da Porto Editora lemos que bâtonnet é «bastonete, varinha»; em biologia e anatomia, «bastonete», mas esta é acepção que não nos interessa no caso. Já se fossem, por exemplo, cenouras ou batatas cortadas em bâtonnet, mais adequado seria, creio, palitos. Não dizemos nós «batatas aos palitos»? Então, são estas duas acepções que faltam no dicionário.

 

[Texto 7395]