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Linguagista

Ortografia: «lioz»

Uma vergonha

 

    «Na opinião de Marcus [Deslandes], os passeios “estavam degradados e prejudicavam a locomoção”. Depois da intervenção, que juntou pedra de lios e calçada portuguesa, a preferência recai em caminhar na pedra, apesar de “escorregar um pouco quando está a chover”, como foi o caso de hoje» («Novo Eixo Central de Lisboa agrada aos transeuntes», TSF, 27.12.2016, 21h44).

      Jornalistas da Lusa e da TSF, é lioz que se escreve. Porquê tanta preguiça em consultar um dicionário? Não vos fica nada bem.

 

[Texto 7444]

A importância da ortografia

Entretanto, em Espanha

 

      De manhã, estive a ouvir a rubrica «Verba Volant», do Professor Emilio del Río, no programa No es un día cualquiera, de Pepa Fernández, na Rádio Nacional de Espanha. (Tão-só o melhor programa radiofónico da Península Ibérica, na minha opinião.) Falavam de topónimos invulgares. Em Espanha, no tempo de Franco, algumas pessoas iam para a beira da estrada, à passagem do caudilho por certas localidades, manifestar o seu apoio com cartazes. Se eram de Lerma, o cartaz dizia «Lerma con Franco»; se eram de Laño, dizia «Laño con Franco», e por aí fora. Ora, um dia, os de Revilla Cabriada, um topónimo estupendo, foram saudar o ditador, que ia num descapotável e leu o cartaz: «Revilla Cabriada con Franco». O ditador, cabreado como una mona, como se diz em castelhano, porque com poucas luzes de ortografia, mandou logo dois picoletos (outro termo que falta no Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora) pedirem satisfações aos supostos descontentes.

 

[Texto 7443]

Regência de «consistir»

Vamos ver se é desta

 

      Gramática tão esmerada, hein? Talvez seja chover no molhado, mas aqui vai: Celso Pedro Luft, no Dicionário Prático de Regência Verbal, escreve: «OBS. Também ocorre “consistir de...”, na acepção “compor-se, constar”, justamente por causa da regência desses verbos: a peça consiste em três atos = consta de três atos. Em alguns casos (tradução, reprodução de saber importado, etc.), influência do inglês: consist of. Regência não prestigiada pelos que melhor escrevem.» Melhor ainda: «Pegue-se numa folha inglesa. Telegrama que lá venha com a sintaxe “consisted of” é vertido pelos tradutores de agências portuguesas por “consistia de”. Se, pois, em Portugal sempre se disse “consistir em”, “constar de”, agora a notícia jornalística ou radiofónica impõe a sintaxe espúria — “consistir de”! A decência sintáctica anda quase sempre ausente, inclusivamente das notícias de coisas que pediriam exemplar correcção» (Vasco Botelho de Amaral, Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, pp.125-6).

 

[Texto 7442]