04
Fev 17

Léxico: «epidermodisplasia»

E agora, algo assustador

 

      «Sahana Khatun, de 10 anos, vive no Bangladesh e pode ser a primeira pessoa do sexo feminino a ser portadora da síndrome do “homem-árvore”. Apenas são conhecidos outros três casos no mundo, todos do sexo masculino. A menina tem no seu rosto (queixo, orelhas, nariz) crescimentos que se assemelham a pequenos ramos de árvore. Está a receber tratamento no hospital de Daca. O nome científico é “epidermodisplasia verruciforme” mas é mais conhecida como a doença do “homem-árvore”» («Sahana, de 10 anos, tem a doença do “homem-árvore”», Rádio Renascença, 2.02.2017, 10h30).

      Tal como noutros, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só verruciforme; quanto a epidermodisplasia, nem no Dicionário de Termos Médicos. A epidermodisplasia verruciforme é uma genodermatose, isto é, uma doença da pele transmitida geneticamente. Quem sabe se não foi num caso assim que Pedro Bidarra se inspirou para escrever o seu primeiro romance, Rolando Teixo, que eu revi em 2013 para a Guerra & Paz. Mas apenas três casos no mundo? Hum...

 

[Texto 7462]

Helder Guégués às 21:27 | comentar | favorito
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Regência de «protestar»

Nem de propósito

 

      Que coincidência: na primeira crónica, é também a regência verbal que claudica. «Claro que demasiadas pessoas correram para os aeroportos nas últimas semanas. Mas foi apenas para protestar as restrições à imigração, prova da maldade intrínseca do novo presidente e, em boa parte, herança do anterior» («Bem-vindos, refugiados da América», Alberto Gonçalves, Observador, 4.02.2017, 00h02). No sentido de insurgir-se, manifestar-se, como no contexto, exige a preposição contra. Mas não só: «Os Yeagers colocaram a casa à venda para fugir à “devastação eleitoral” (cito) e passar os próximos 4 ou 8 anos no estrangeiro.» Isto e mais uma mão-cheia de escusadas baldas modernas, como site, media e outras miudezas. Será uma pena eminentemente swiftiana, mas o tom de lengalenga previsível vai dispensar-me de o ler até 30 de Dezembro (sim, confirmei: um sábado).

 

[Texto 7461]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito
04
Fev 17

Regência de «ajudar»

Os factos como eles são

 

      Alberto Gonçalves é a nova aquisição, salvo seja, do Observador. Apresentou-se ontem aos leitores deste jornal digital, e não desilude. Ou não desilude mais, vá. Analisemos, para já, antes de chegar a primeira crónica, prometida para cada sábado, apenas uma frase. «Sonho escrever crónicas que saltitem de júbilo pelo facto de partidos estalinistas ajudarem ao governo do país.» «Saltitar pelo facto»... Está bem, está. E a regência do verbo «ajudar» estará correcta? Alberto Gonçalves pode ajudar, bitransitivamente, o Observador a ter mais leitores (ou não). Ajudar alguém a. Os partidos estalinistas, por sua vez, podem ajudar no governo do país. Ajudar em. Ou até, mais directa e transitivamente, e com resultados menos maus, podem ajudar o Governo do país. Para ajudar à missa, porém, vem Luft dizer-nos que conseguiu desencantar uma frase em que o verbo aparece assim preposicionado, e logo de Herculano: «Presume, e parece-nos que com razão, um dos nossos mais judiciosos historiadores que o conde aproveitaria para a sua passagem a armada genovesa que em 1104 ajudou Balduíno à conquista da Ptolemaida» (in História de Portugal). Também encontrei um exemplo em Eça de Queiroz e em mais meia dúzia de autores absolutamente não citáveis. Os grandes também erram e tresvariam.

 

[Texto 7460]

Helder Guégués às 10:19 | comentar | ver comentários (4) | favorito