08
Fev 17

Léxico: «uapiti» e «anfibolite»

Um labor constante

 

      A autora esteve na montanha de Sarektjåkkå, a segunda mais alta da Suécia, a observar a vida selvagem e viu, entre outros animais, uapitis, uma espécie de veado. Também olhou para o chão, é claro, e encontrou muitas anfibolites. Ora, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nada de anfibolite, apenas anfibolito. Não me pareceria mal, se não encontrasse depois «anfibolite» no Dicionário de Português-Italiano da mesma editora. Mas não só: num dicionário, pertence ao domínio da petrologia; noutro, já o classificaram no domínio da mineralogia. Não pode ser. Como também não encontramos uapiti, o que tão-pouco me pareceria mal, se não o encontrasse depois no Dicionário de Francês-Português da mesma editora. São estas incongruências que têm de ser, dia após dia, limadas, num labor constante.

 

[Texto 7471]

Helder Guégués às 11:38 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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08
Fev 17

Colaborador ou trabalhador?

Não são sinónimos

 

      Trabalhador ou colaborador? Como sempre, as posições estão bem demarcadas, há mesmo dois lados: o patronal e o sindical. O uso do termo «colaborador» retira peso à relação laboral, defendem os sindicatos; são sinónimos, afirmam os patrões. «A ideia é desfeita pela linguista Maria Antónia Coutinho, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. “Não há palavras iguais. Mesmo as palavras que chamamos sinónimos não são sinónimos, são antes para-sinónimos, quase sinónimos. Quando há duas palavras que têm a mesma função, uma tende a desaparecer”, afirma a docente, acrescentando que, apesar de não ter feito um estudo sobre estas duas palavras, isoladamente e sem o contexto social, cultural e político não podem ser analisadas» («Sou colaborador ou sou trabalhador? A guerra das palavras entre sindicatos e patrões», João Carlos Malta, Rádio Renascença, 8.02.2017, 9h06).

      Também não me parece que sejam sinónimos, não. A meu ver, o uso (crescente?) do termo «colaborador» neste contexto é apenas, na maioria dos casos, uma forma habilidosa de as entidades empregadoras descrisparem as relações, dando uns visos de igualdade que, de facto, não existe. Já quanto a não existirem sinónimos, não concordo. Bem sei que há autores que o defendem, como R. Galisson e D. Coste, que, no Dicionário de Didáctica das Línguas (Coimbra: Almedina, 1983, pp. 546-47), escrevem: «Chamam-se parassinónimos os termos a que se pode atribuir o mesmo sentido mas cujas distribuições não são exactamente equivalentes. Parassinónimo distingue-se assim de sinónimo, designação aplicada a termos que têm o mesmo sentido e a mesma distribuição (emprego), isto é, comutáveis em todos os contextos e todas as situações. Como não se encontram sinónimos perfeitos, seria melhor falar apenas em parassinónimos ou em sinónimos no discurso.» E, a propósito, João Carlos Malta, a ortografia é esta, parassinónimo, porque com o elemento de origem grega para- não se usa nunca o hífen; se o segundo elemento começa por r ou s, há reduplicação do s ou do r: pararritmia, parassinónimo.

 

[Texto 7470]

Helder Guégués às 11:08 | comentar | ver comentários (8) | favorito (3)
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