23
Fev 17

Sobre «bergamota»

Para nós é mais simples

 

      Ontem, no programa Comando Actualidad, na RTVE, estavam no vale de Ricote, Múrcia. Na localidade de Ojós, o apresentador visitou a loja de Mari, uma cave com pé-direito tão baixo, que teve de se agachar, para ver como se fazem os bizcochos borrachos, que, depois de cozidos, são mergulhados num líquido que contém essência de bergamoto. «Bergamota?», perguntou o apresentador. «Bergamota não: bergamoto. Bergamota é para fazer perfumes; bergamoto é para fazer doces.» Será mesmo assim? O Dicionário da Real Academia Espanhola diz que bergamoto é o «limero que produce la bergamota», e bergamota a «variedad de lima muy aromática, de la cual se extrae una esencia usada en perfumería». Ou seja, bergamoto é a árvore, e bergamota o fruto. Aquele dicionário regista ainda o vocábulo bergamote, variante de bergamoto.

     E nós? Nos nossos dicionários apenas encontro bergamota (com a variante vergamota). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista quatro acepções: 1. «árvore (variedade de laranjeira) pouco cultivada em Portugal, de cujos frutos se extrai a essência de bergamota utilizada em perfumaria». Corresponderá ao castelhano bergamoto. Repare-se que se diz que é um limero. A acepção 2 designa o próprio fruto (hesperídio) daquela árvore. A acepção 3 é relativa a uma «planta muito aromática, da família das Labiadas, cultivada em Portugal; vergamota» e, por fim, a 4 é o nome que tem uma «variedade de pêra perfumada e suculenta». Já o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, publicado em 1981, vai por outros caminhos. Começa por acolher apenas três acepções: «espécie de cidra, de cheiro mui agradável, de que se extrai a essência do mesmo nome»; «certa espécie de peras de muito e delicado sumo e de que se conhecem duas variedades: uma de Verão e outra de Inverno»; e, por fim, é o «nome de certa planta aromática, da família das Labiadas». Ou seja, José Pedro Machado esqueceu-se de referir que é também o nome da árvore que dá aquele fruto, espécie de cidra. A essência, usada em perfumaria, a que os dicionários aludem há-de ser o oleum bergamottae. Já o uso do fruto em doçaria nem sequer mereceu menção, pois que é um dos usos comuns de qualquer citrino. E mais: para a calda decerto que se usará uma pequena porção desta mesma essência. Em suma, nada justifica a distinção que D. Mari fez. Em português, como só temos uma palavra, estamos a salvo de qualquer erro.

 

[Texto 7503]

Helder Guégués às 23:38 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Como se traduz e escreve na rádio

Inacreditável

 

    «Inaki Urdangarin foi condenado a uma pena de seis anos e três meses de prisão, mas o tribunal ainda não decidiu se aplica ou não medidas cautelares enquanto correm os recursos.

   O ministério público, através do delegado na inspeção tributária, disse esta sexta-feira em tribunal que o facto de Urdangarin dispor de uma escolta policial de segurança, reduz em muito o risco de fuga, mas não o elimina» («Cunhado do rei de Espanha tem de pagar 200 mil euros para evitar prisão imediata», TSF, 23.02.2017, 10h58).

    Diga-me o leitor sensato o que se aproveita disto tudo. Deus, já sabemos, ajuda os que a si mesmos se ajudam, e com São Francisco de Sales não é diferente.

 

[Texto 7502]

Helder Guégués às 13:52 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Voix de chèvre»

Errar em todas as línguas

 

      «[José Miguel Batista] Seguiu-o como orfeonista que Zeca também foi, e na canção de Coimbra... “O Zeca tinha uma voz relativamente pequena, mas muito bem timbrada, e com um vibrato bonito, nem muito voie de chèvre, nem muito prolongado. Era um homem que tinha muita sensibilidade, um ouvido e uma cultura, que conseguiram fazer dele, além de simples orfeonista, solista do Orfeon Académico de Coimbra”» («As pegadas de Zeca Afonso em Coimbra», Miguel Midões, TSF, 23.02.2017, 9h05).

      Mas, Miguel Midões, se estamos a falar de vozes, não é voix de chèvre que se diz em francês? Percebo: ouviu /vwa/ e nem pensou, o caminho só podia ser esse. Mas é voix de chèvre, sinónimo de voix chevrotante, ou seja, voz trémula — como a das cabras. Pode ser egofonia...

 

[Texto 7501]

Helder Guégués às 09:35 | comentar | favorito
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23
Fev 17

«Bater», uma acepção

Repito: um trabalho contínuo

 

      «Já em Faro, foi José Pontes que aceitou bater à máquina a tese de final de curso do Zeca: “Implicações Substancialistas da Filosofia Sartriana”. O Pontes nunca tinha ouvido falar de Sartre, mas dedicou-se ao trabalho. Durante duas semanas, uma hora por dia, depois das 17h, Zeca Afonso ia até à Caixa Agrícola, onde José Pontes estava empregado. Ele ditava; o Pontes escrevia» («Zeca Afonso, o professor que não usava gravata e estava do lado dos alunos», Joana Carvalho Reis, TSF, 23.02.2017, 7h04).

      Ora cá está uma acepção vulgaríssima do verbo bater, sinónima de dactilografar, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista.

 

[Texto 7500]

Helder Guégués às 08:59 | comentar | ver comentários (5) | favorito