26
Fev 17

Tradução: «contrecho»

Pois é, tão simples

 

      Reparem bem neste caso. Diz Sancho Pança: «Verdad es que si mi señor Don Quijote sana desta herida o caída, y yo no quedo contrecho della, no trocaría mis esperanzas con el mejor título de España.» No contexto, contrecho é «baldado, tullido, que ha perdido el movimiento del cuerpo o de algún miembro». Sabem como traduzi-lo? Muito simples: contreito, ou seja, maltreito ou maltratado de natureza, ou por acidente ou agressão. Ora, dá-se o caso de o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem sequer registar este adjectivo. Pois é... Mas encontramo-lo no VOLP da Academia Brasileira de Letras.

 

[Texto 7512]

Helder Guégués às 22:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Tradução: «bizma»

Agora um emplastro

 

      Depois de sovados pelos arrieiros de Yanguas (creio que ainda hoje não se sabe se se trata de Yanguas de Sória ou Yanguas de Segóvia), diz Sancho Pança: «Mas yo le juro, a fe de pobre hombre, que estoy más para bizmas que para pláticas.» Em português, bisma, um emplastro. Talvez provenha também do vocábulo latino epithĕma, que deu aquele epítema que vimos antes (é a teoria a que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora aderiu), mas ainda mais provável é estar relacionado com bis, pois antigamente estes emplastros eram compostos de apenas dois ingredientes, aguardente e mirra. Em muitos e muitos casos, divergir disto na tradução para português não é lá muito avisado e o resultado não se recomenda.

 

[Texto 7511]

Helder Guégués às 21:01 | comentar | favorito

Tradução: «píctima»

Espécie de bálsamo

 

      Depois de se ter despedido da casa dos duques, D. Quixote e Sancho vão a caminho de Saragoça. D. Quixote elogia a liberdade, mais valiosa do que as riquezas, e Sancho responde: «Con todo eso que vuestra merced me ha dicho, no es bien que se quede sin agradecimiento de nuestra parte doscientos escudos de oro que en una bolsilla me dio el mayordomo del Duque, que como píctima y confortativo la llevo puesta sobre el corazón.» Sancho tudo deturpa: é epítema, palavra que ainda hoje até os dicionários da língua portuguesa registam. É o nome genérico de toda a bebida ou líquido (logo, tópico que não unguento ou emplastro) para confortar e mitigar a dor. Portanto, voto por epítema, mas, naturalmente, também deturpado, porque não vamos endireitar o discurso da personagem, obviedade de que por vezes os tradutores se esquecem.

 

[Texto 7510]

Helder Guégués às 19:39 | comentar | favorito
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Tradução: «sacapotras»

Mau cirurgião

 

      Os termos médicos, científicos ou não, do D. Quixote merecem uma reflexão. Por exemplo, este caso, que alude à rainha Madásima: «... y no se ha de presumir que tan alta princesa se había de amancebar con un sacapotras». Não me lembro como José Bento o traduziu, mas, sendo um termo depreciativo para mau cirurgião, não me surpreendia que a escolha fosse «açougueiro». Repare-se, porém, que também em português temos a palavra «potra» para hérnia, quebradura, logo, pode considerar-se a opção por sacapotras. A opção por medicastro, palavra que logo nos pode ocorrer, não é a melhor, pois são conceitos diferentes.

 

[Texto 7509]

Helder Guégués às 14:17 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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26
Fev 17

«Mal gálico»

Desperdício

 

      «Olvidósele a Virgilio declararnos quién fue el primero que tuvo catarro en el mundo, y el primero que tomó las unciones para curarse del morbo gálico, y yo lo declaro al pie de la letra...» Estou a reler o D. Quixote e, precisamente neste ponto, vejo mais uma vez como os dicionários deixam de fora palavras e expressões que deviam acolher. A sífilis é, provavelmente, a doença com mais designações e os dicionários não as registam. Esta, mal gálico, é das mais comuns, e só nos dicionários brasileiros a encontramos, mas grafada de uma forma que me deixa muitas dúvidas: «mal-gálico». Está assim também no VOLP da Academia Brasileira de Letras, onde também encontramos «mal-americano», «mal-escocês», «mal-germânico», «mal-napolitano», etc. Faz algum sentido estar assim grafada? Não me parece.

 

[Texto 7508]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (4) | favorito