26
Fev 17

Tradução: «sacapotras»

Mau cirurgião

 

      Os termos médicos, científicos ou não, do D. Quixote merecem uma reflexão. Por exemplo, este caso, que alude à rainha Madásima: «... y no se ha de presumir que tan alta princesa se había de amancebar con un sacapotras». Não me lembro como José Bento o traduziu, mas, sendo um termo depreciativo para mau cirurgião, não me surpreendia que a escolha fosse «açougueiro». Repare-se, porém, que também em português temos a palavra «potra» para hérnia, quebradura, logo, pode considerar-se a opção por sacapotras. A opção por medicastro, palavra que logo nos pode ocorrer, não é a melhor, pois são conceitos diferentes.

 

[Texto 7509]

Helder Guégués às 14:17 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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26
Fev 17

«Mal gálico»

Desperdício

 

      «Olvidósele a Virgilio declararnos quién fue el primero que tuvo catarro en el mundo, y el primero que tomó las unciones para curarse del morbo gálico, y yo lo declaro al pie de la letra...» Estou a reler o D. Quixote e, precisamente neste ponto, vejo mais uma vez como os dicionários deixam de fora palavras e expressões que deviam acolher. A sífilis é, provavelmente, a doença com mais designações e os dicionários não as registam. Esta, mal gálico, é das mais comuns, e só nos dicionários brasileiros a encontramos, mas grafada de uma forma que me deixa muitas dúvidas: «mal-gálico». Está assim também no VOLP da Academia Brasileira de Letras, onde também encontramos «mal-americano», «mal-escocês», «mal-germânico», «mal-napolitano», etc. Faz algum sentido estar assim grafada? Não me parece.

 

[Texto 7508]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (4) | favorito
25
Fev 17

«Brasaria»?

Sobre brasas

 

      «Mas é de transmontanos que falamos, sendo um deles um dos dois sócios desta brasaria — o brigantino Fábio Rodrigues, que levou avante o negócio com Vera Macedo» («A oportunidade da carne», D. M., Evasões, 24.02.2017, p. 50).

      Não estou a ver a utilidade desta macaqueação. Temos palavras para designar um estabelecimento deste tipo, não é preciso semelhante rebaixamento.

 

[Texto 7507]

Helder Guégués às 16:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
25
Fev 17

Léxico: «bô»

Bô, bô...

 

    «O nome — bô — evoca a interjeição que se usa na fala transmontana para exprimir admiração» («A oportunidade da carne», D. M., Evasões, 24.02.2017, p. 50).

  Vamos lá ver se uma interjeição de Trás-os-Montes conquista o direito de figurar ao lado das interjeições quimbundas que os nossos dicionários entesouram.

 

[Texto 7506]

Helder Guégués às 16:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
24
Fev 17

«Hostel» já é um pouco mais nosso

Podia ser pior

 

      «Enfrentam despejos para dar lugar a hostéis» (Paulo Lourenço, Jornal de Notícias, 24.02.2017, p. 25).

      Já aqui vimos que importámos a palavra quando não precisávamos, pois temos hostal. No entanto, a boa notícia é que já foi totalmente integrado na nossa língua, o que é atestado pelo plural regular. É por isso em vão que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora assinala, com realce, que se trata de palavra estrangeira.

 

[Texto 7505]

Helder Guégués às 20:47 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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24
Fev 17

«Coati» ou «quati»? Nenhuma?!

Em Espanha é que sabem

 

      «Foram fiscalizados 168 estabelecimentos comerciais, sobretudo “pet shops”, e também feiras, abrangendo um total de 4311 animais. Além do chimpanzé, foram apreendidas 63 aves, na sua maioria papagaios e araras, quatro suricatas, um coati e 12 cobras» («Chimpanzé entre 81 animais apreendidos em operação da GNR», Nuno Silva, Jornal de Notícias, 24.02.2017, p. 18).

      Consultamos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e... «Brasil ZOOLOGIA ver quati». Vamos ver: «Brasil ZOOLOGIA mamífero carnívoro, de focinho longo e aguçado, de cheiro desagradável». Mau... então como escrevemos nós? O Aulete só regista «quati», mas já li que mais correcta seria a ortografia «coati». O Dicionário da Real Academia Espanhola acolhe as grafias coatí (Espanha) e cuatí (Argentina e Colômbia).

 

[Texto 7504]

Helder Guégués às 20:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
23
Fev 17
23
Fev 17

Sobre «bergamota»

Para nós é mais simples

 

      Ontem, no programa Comando Actualidad, na RTVE, estavam no vale de Ricote, Múrcia. Na localidade de Ojós, o apresentador visitou a loja de Mari, uma cave com pé-direito tão baixo, que teve de se agachar, para ver como se fazem os bizcochos borrachos, que, depois de cozidos, são mergulhados num líquido que contém essência de bergamoto. «Bergamota?», perguntou o apresentador. «Bergamota não: bergamoto. Bergamota é para fazer perfumes; bergamoto é para fazer doces.» Será mesmo assim? O Dicionário da Real Academia Espanhola diz que bergamoto é o «limero que produce la bergamota», e bergamota a «variedad de lima muy aromática, de la cual se extrae una esencia usada en perfumería». Ou seja, bergamoto é a árvore, e bergamota o fruto. Aquele dicionário regista ainda o vocábulo bergamote, variante de bergamoto.

     E nós? Nos nossos dicionários apenas encontro bergamota (com a variante vergamota). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista quatro acepções: 1. «árvore (variedade de laranjeira) pouco cultivada em Portugal, de cujos frutos se extrai a essência de bergamota utilizada em perfumaria». Corresponderá ao castelhano bergamoto. Repare-se que se diz que é um limero. A acepção 2 designa o próprio fruto (hesperídio) daquela árvore. A acepção 3 é relativa a uma «planta muito aromática, da família das Labiadas, cultivada em Portugal; vergamota» e, por fim, a 4 é o nome que tem uma «variedade de pêra perfumada e suculenta». Já o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, publicado em 1981, vai por outros caminhos. Começa por acolher apenas três acepções: «espécie de cidra, de cheiro mui agradável, de que se extrai a essência do mesmo nome»; «certa espécie de peras de muito e delicado sumo e de que se conhecem duas variedades: uma de Verão e outra de Inverno»; e, por fim, é o «nome de certa planta aromática, da família das Labiadas». Ou seja, José Pedro Machado esqueceu-se de referir que é também o nome da árvore que dá aquele fruto, espécie de cidra. A essência, usada em perfumaria, a que os dicionários aludem há-de ser o oleum bergamottae. Já o uso do fruto em doçaria nem sequer mereceu menção, pois que é um dos usos comuns de qualquer citrino. E mais: para a calda decerto que se usará uma pequena porção desta mesma essência. Em suma, nada justifica a distinção que D. Mari fez. Em português, como só temos uma palavra, estamos a salvo de qualquer erro.

 

[Texto 7503]

Helder Guégués às 23:38 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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