04
Mar 17
04
Mar 17

«Monstro», uma acepção

Uma acepção lixada

 

      «O trabalho dura 364 dias (um ano) e a fundamentação para a necessidade do ajuste directo foi “falta de recursos próprios”. Na falta de apanha-monstros próprios, a Junta da Encosta do Sol terá seis tarefeiros “fornecidos” pela empresa ScorDesp para levarem a cabo a tarefa. A pergunta que se impõe é: o que são estes “monstros”, que custam 30 euros por pessoa/dia para apanhar? O contrato não dá resposta. Serão monos?...» («Mão-de-obra para recolha de “monstros”», S. S., Público, 4.03.2017, p. 8).

   É o jornalista a armar-se em engraçado (e a falhar no intento). A verdade é que, se consultarmos alguns dicionários, e entre os quais o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem sequer o verbete mono tem esta específica acepção. Neste dicionário, o que se diz de mono é que se trata do «objecto sem valor a que não se sabe o que fazer», mas os monstros, palavra que os autarcas gostam muito de usar (mas têm desculpa, pois também são eles que resolvem o problema), são muito mais do que isso.

 

[Texto 7524]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
02
Mar 17

Então que seja «drive-through»

Inglês|Português

 

      «Na igreja de St. Patrick em Glenamaddy, no condado de Galway na Irlanda celebra-se a Quarta-Feira de cinzas [sic] de forma... diferente. Quando os católicos e os protestantes normalmente recebem as cinzas na sua testa em forma de cruz de Cristo no interior da igreja, os membros desta decidiram fazer isso ao compor um drive-thru visto que muitas pessoas tinham pressa para se deslocarem para os seus empregos e ocupações» («Igreja irlandesa abre um ‘drive-thru’», Francisco Correia, Motor 24, 2.03.2017, 18h48).

    Não sei porque se há-de usar a corruptela drive-thru em vez de drive-through. Mas o sacerdote da Igreja de St. Patrick tem muito mais juízo, e não usou nenhuma das duas, nem nada que se pareça: «If you are unable to attend Mass you can come here, receive your Ashes without having to leave your car.» Dito isto, também não percebo porque não se encontra no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora.

 

[Texto 7523]

Helder Guégués às 23:11 | comentar | ver comentários (3) | favorito

«Desmarcar-se»/«demarcar-se»

A tempo de aprender

 

      O fabuloso mundo do futebol... Ontem à noite, a taberna do pai do árbitro Jorge Ferreira foi vandalizada. «Está escrito», ouvi-o hoje de manhã em declarações à Antena 1, «nada me move contra ninguém. As pessoas desmarcam-se de tudo e de todos, eu não me desmarco da arbitragem, nem daquilo que gosto de fazer.» Diz aquilo que ouve, pois desmarcar-se é termo futebolístico — fugir à marcação do adversário. Contudo, o que Jorge Ferreira queria dizer era demarcar-se, ou seja, afastar-se do futebol. Como é, ao que parece, consultor financeiro, talvez fale apenas inglês no dia-a-dia, e por isso não domina a língua portuguesa... 

 

[Texto 7522]

Helder Guégués às 14:20 | comentar | favorito
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02
Mar 17

«Presidenciável», modo de usar

Aprender português na América

 

   «Trump foi mais presidenciável mas tem Washington para convencer» (Sérgio Aníbal, Público, 2.03.2017, p. 24). Mas, Sérgio Aníbal, Trump já é presidente, e presidenciável é o que reúne as condições consideradas necessárias para ser presidente. Não percebe? Uma vez que está aí em Washington, olhe à sua volta. The Economist: «Donald Trump sounds more presidential, yet stays a populist».

 

[Texto 7521]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | favorito
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01
Mar 17

«Pendura», uma acepção

Olhem que não

 

      «O seu enfant terrible, o cavaleiro do LSD, vendedor de ilusões psicadélicas em pastilhas prontas a derreter debaixo da língua, encontrava-se displicentemente sentado no seu monstro de duas rodas, uma bota apoiada no chão e a outra atravessada por cima do banco, recostado no ferro que servia de encosto no lugar do pendura» (O Último Ano em Luanda, Tiago Rebelo. Alfragide: Asa, 9.ª ed., 2013, p. 36).

   Pendura numa moto, pois claro, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «num automóvel, pessoa que ocupa o lugar ao lado do condutor».

 

[Texto 7520]

Helder Guégués às 23:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «galheta»

Não é um sopapo

 

      «Acaba de ser declarada a Ave do Ano 2017 em Portugal, numa escolha da SPEA, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves» («Já conhece a galheta?», TSF, 1.03.2017, 18h24). Confesso que não sabia. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de galheta remete para corvo-marinho, mas estas remissões valem o que valem, e decerto a própria Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves divulgar que a ave do ano é a galheta há-de ser indício de que este termo é mais comum para designar esta ave. O nome, ao que parece, deve-se ao pescoço longo e curvado desta ave palmípede, que se assemelha a um galheteiro.

 

[Texto 7519]

Helder Guégués às 22:46 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Livros RTP

Longe vá o agouro

 

      Na última semana, já ouvi pelo menos três vezes, na Antena 1, um anúncio a um livro de Italo Calvino nos Livros RTP. E com que frase sonante fazem a promoção dos livros? Com esta: «Livros que valem a pena ler.» RTP, rais ta partam! Até podem ser livros que valem a pena, mas serão livros que vale a pena ler?

 

[Texto 7518]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Mar 17

Léxico: «auspicar»

Fora dos dicionários

 

      Ora cá está um verbo que nunca tinha visto fora dos dicionários: «A todos os leitores, sobretudo aos confrades, auspico que esta viagem pelas avenidas da memória, etc.» Os dicionários remetem simplesmente para o verbo auspiciar, variante muito mais conhecida.

 

[Texto 7517]

Helder Guégués às 17:24 | comentar | favorito
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