28
Jun 17

Léxico: «troca o passo»/«carqueja»

Pobre selenita

 

      Ontem, a minha filha fartou-se de rir quando eu usei as expressões «troca o passo» e «carqueja» com datas, coisa inédita para ela. «Mete-se pela via rápida ou lá o que é, tão lenta em construção como era o comboio de mil oitocentos e troca o passo, vai-se por ali fora num ápice, os carros à compita, a progredirem até à cidade capital do distrito e a trocarem de posição» (O Deputado, António Modesto Navarro. Alpiarça: Garrido, 2002, p. 134). «FELÍCIA – Sou eu que falo: – Felícia do Rego, do Beco das Alcaparras. – Lisboa, tantos de tal de mil quinhentos e carqueja» (Estudos de Língua e Cultura Portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1996, p. 159).

     Se chegasse agora aqui o tal selenita, não as encontraria em nenhum dicionário, quando era facílimo, e bastava indicar-se que são expressões jocosas.

 

[Texto 7960] 

Helder Guégués às 18:12 | comentar | favorito

Léxico: «haxe»

Dez euros de louro

 

      «Traficante preso com 2 mil doses de ‘haxe’» (T. V. P., Correio da Manhã, 28.06.2017, p. 15). Tem de ir, como legítima redução vocabular de haxixe que é, para os dicionários. Poucas vezes passo pelas Portas de Santo Antão que não me venham oferecer, altruístas, haxe (na realidade, louro prensado). E podem dizer a T. V. P. que não precisa de aspas; vá lá, não tenha receio que isso não lhe salta para a boca.

 

[Texto 7959]

Helder Guégués às 17:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Cuidado com as teclas!

Ai a pressa

 

      Parece-me que José Mário Costa se esqueceu de rever o texto («“O Cuidado com a Língua” e a realidade», p. 46) que mandou para publicação no Público de hoje. Cinco amostras. Aqui, atrapalhou-se com as vírgulas, pondo uma no pior sítio, entre sujeito e verbo: «O facto de a RTP, desta vez, ter preferido contratualizar com a produtora um “pacote” de 26 episódios, em nada alterou a estrutura-base do Cuidado com a Língua!, que assenta em 13 episódios por série, emitidos semanalmente.» Mais: «de que sou autor e responsável pelos conteúdos, juntamente com professora Maria Regina Rocha»; «faltavam ser emitidos dois episódios»; «as suas particularidades próprias e especificas»; «foi sendo interrompida, sempre — e não “pontualmente”, como escreveu Deusdado —, de 15 em dias».

 

[Texto 7958]

Helder Guégués às 15:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «miotónico»

Está metade

 

      «Um cientista português [Mário Gomes Pereira] faz parte da equipa que identificou, pela primeira vez, anomalias em células de glia (células nervosas que não são neurónios) que estão associadas à distrofia miotónica, uma doença hereditária sem cura» («Identificada e corrigida anomalia no cérebro de ratinhos com distrofia miotónica», Andrea Cunha Freitas, Público, 28.06.2017, p. 28).

      Pois é, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista miotonia, mas não miotónico, e, contudo, acolhe miotomia e miotómico. Pontas soltas.

 

[Texto 7957]

Helder Guégués às 14:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
28
Jun 17

Etimologia: «floresta»

Explicando melhor

 

      «Florestas contínuas e contíguas não são floresta, são monoculturas. Floresta veio do latim forestis, derivado de foris (“fora”), que significa “mata exterior” com árvores, arbustos e plantas rasteiras, fora dos limites comunitários, onde só o rei estava autorizado a explorar a caça e a extracção de madeira» («Depressa e bem não há quem», Maria Amélia Martins-Loução [bióloga, professora catedrática da Universidade de Lisboa], Público, 28.06.2017, p. 47).

      Está certo, sim, mas faltou dizer alguma coisa mais: floresta quase de certeza veio do francês forêt, e este proviria de um adjectivo latino forestis ou ƒoresta, que significa o que se lê no texto, mas, dado que é um adjectivo, fica subentendido silva; assim silva forestis é que propriamente significa bosque exterior, fora dos limites comunitários.

 

[Texto 7956]

Helder Guégués às 13:59 | comentar | favorito
Etiquetas: