31
Jul 17
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Jul 17

Linguística Forense

Disciplina ancilar

 

   «Rui Sousa-Silva, professor auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, foi o primeiro linguista forense com luz verde para analisar casos em investigação pelo Gabinete Cibercrime [sic] da Procuradoria-Geral da República (PGR). Pediu para colaborar com a instituição, no âmbito de um estudo que estava a desenvolver. E a PGR aceitou. Até que ponto podia esta disciplina ser valiosa?» («“Cada um de nós tem uma maneira única de escrever”. Linguística forense», Susana Pinheiro, Público, 31.07.2017, p. 10).

    Sim, até que ponto poderia esta disciplina ser valiosa? Leiam no Público. Pode ser, em alguns casos, um auxiliar na investigação, mas longe de poder ser considerada uma ciência.

 

[Texto 8068]

Helder Guégués às 23:18 | comentar | favorito | partilhar
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30
Jul 17
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Jul 17

Façam como eu digo, etc.

Qual a necessidade?

 

      «Claro que o que se passa na América de Trump é gravíssimo: é o esforço diário de um autocrata grosseiro, sem princípios, habituado a levar tudo à frente pelo dinheiro e pela ameaça, para subverter a governação de uma democracia, atacando as suas instituições e fazendo do bragadoccio o seu modo de vida» («A estação tola», José Pacheco Pereira, Público, 29.07.2017, p. 56).

      Já todos vimos Pacheco Pereira criticar, e bem, o uso descuidado e inculto que se faz actualmente da língua. Nesta crónica, aliás, começa logo bem intitulando-a «A estação tola». Ora, parece que se esquece dessas críticas quando usa uma palavra tão desnecessária como braggadocio.

 

[Texto 8067]

Helder Guégués às 22:58 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
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29
Jul 17
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Jul 17

Nomenclatura científica

Mostrem lá que aprenderam

 

   «Os olivicultores alentejanos estão preocupados com a rápida propagação da “xylella fastidiosa”, uma bactéria que já tem como alcunha de “ébola das oliveiras” e que ataca especialmente o café e árvores como a oliveira, a amendoeira, o pessegueiro, a laranjeira e o limoeiro. Quando uma destas árvores é infectada, a bactéria impede a circulação da seiva e provoca a sua morte» («A “ébola das oliveiras” está a assustar os produtores alentejanos», Rádio Renascença, 28.07.2017, 15h40).

      Será que alguma vez estes jornalistas ouviram falar em nomenclatura científica? Com certeza que não. No sistema binomial, já o lembrei aqui várias vezes, a primeira palavra deve ser escrita com letra inicial maiúscula; a segunda, com letra inicial minúscula, e tudo em itálico (ou, como no caso, entre aspas). Logo, Xylella fastidiosa. Difícil?

 

[Texto 8066]

Helder Guégués às 20:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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28
Jul 17

Com hífen e sem hífen

Ora vejamos

 

      Hoje à tarde falei com um médico-cirurgião geral. De trato lhano, muito terra-a-terra, e sempre de gargalhada pronta. (Costuma ser pior com semialfabetizados.) Se se escreve «médico-cirurgião», há-de escrever-se «médico-cirurgião geral», não? Contudo, não é o que habitualmente se usa. Aquele, como outros, apresenta-se como «médico especialista em Cirurgia Geral há mais de vinte anos». Há alguma diferença, caro R. A.? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, encontramos tão-só médico-cirurgião, cirurgião-dentista e cirurgião plástico. Pois, e os outros ficam de fora? Não há também o cirurgião torácico? O cirurgião-urologista? O...

 

[Texto 8065]

Helder Guégués às 23:47 | comentar | ver comentários (5) | favorito | partilhar
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Como se escreve no «Correio da Manhã»

Envolve Maserati, há despiste

 

      «A GNR deteve ontem um lusofrancês de 31 anos que conduzia um Maserati com matrículas falsas, em Ílhavo. Os militares dispararam 2 tiros de intimidação para deter o polícia suspenso em França» («Maserati com matrículas falsas», Correio da Manhã, 28.07.2017, p. 48).

      Polícias contra polícia está muito bem, e os tiros serão mais do que justificados — não me parece é que sejam de intimidação, mas de intimação. E claro que o polícia será luso-francês, o Correio da Manhã averiguou mal o caso. E um carro só tem uma matrícula, verdadeira ou falsa — as chapas é que são duas.

 

[Texto 8064]

Helder Guégués às 22:26 | comentar | favorito | partilhar
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28
Jul 17

Léxico: «transcraniano»

A máquina antidepressiva

 

      Muito bem, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora já nos disponibiliza ecoendoscopias, mas, se quisermos submeter-nos a uma estimulação magnética transcraniana, falta-nos com o melhor, o adjectivo transcraniano: «Estima-se que 20 a 30% dos doentes com depressão não respondam ou não suportem os tratamentos com medicação antidepressiva. Mas quando estes doentes são submetidos à técnica de estimulação magnética transcraniana repetitiva, há indicadores que demonstram que o estado clínico de 41,5 a 56,4% desses doentes melhora substancialmente e entre 26,5 e 28,7% deixam de estar deprimidos» («Há uma máquina que trata a depressão e chegou a Portugal», Sara Dias Oliveira, Notícias Magazine, 26.07.2017, p. 28).

 

[Texto 8063]

Helder Guégués às 21:41 | comentar | favorito | partilhar
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Jul 17
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Jul 17

O circo fora dos dicionários

Olhar desatento

 

      «Demudar, a criação que tinha estreia agendada para ontem no Rossio da Sé, em Braga, é a linha que os cose entre si. O espectáculo, que envolve manobras com recurso a instrumentos — lira, monociclo, rola-bola, corda bamba, roda cyr, roda alemã, mastro chinês, entre outros —, incita à reflexão sobre o quotidiano, a cidadania e a singularidade do artista, ao mesmo tempo que se propõe criar roturas com os códigos clássicos do circo» («Há sangue novo no circo contemporâneo português», Beatriz Silva Pinto, Público, 27.07.2017, p. 28).

   A falta de reconhecimento das artes circenses começa logo nos dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não regista esta acepção de lira, o aparelho circense que consiste num arco suspenso destinado a acrobacias aéreas. Nem esta, no mesmo artigo: «Um outro [aluno] mantém as claves de malabares suspensas no ar.» Nem a clave, o mais básico dos aparelhos circenses! Regista «monociclo» e «corda bamba» e fica por aí.

 

[Texto 8062]

Helder Guégués às 08:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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26
Jul 17
26
Jul 17

Uma questão menor

Desisto

 

      «Chega-me dia sim, dia não propaganda para frequentar workshops com um impressionante leque de propostas e tendências. Nos últimos tempos estive tentado — e só resisti porque não sei meter o cartão de crédito nos pagamentos online — a inscrever-me em formações para ser especialista em cozinha tailandesa, mental coacher, hipnoterapeuta, aprender os segredos do emagrecimento com a dieta paleolítica — logo eu, que só como dieta mediterrânica, principalmente na parte da orelheira. Poderia continuar a desfiar workshops, por exemplo[,] de apicultura, de erbanária tradicional, de técnicas faciais anti-ruga ou de escrita criativa. Considero este último o mais perigoso, pelo risco de ficarmos nas mãos de algum dos escritores a metro que medem o êxito pelos “gosto” no Facebook. Só não vi ainda — e era logo nesse que queria mesmo inscrever-me — um workshop de iniciação ao vocabulário do politicamente correto» («Conselhos inúteis para reaprender a falar», Luís Fernandes, Público, 26.07.2017, p. 46).

    Ao contrário do que eu pensava, talvez, neste caso, não interesse muito saber que norma ortográfica seguiu o autor. Que acham?

 

[Texto 8061]

Helder Guégués às 21:43 | comentar | favorito | partilhar
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