23
Ago 17
23
Ago 17

Léxico: «enchedeira»

Já extintas, para eles

 

      «“É uma obra de arte que só elas a fazem. Uma pinça, uma tesoura e fio nas mãos, e elas querem é trabalhar”, diz o artesão António Almeida. Ourives desde os nove anos, mas prefere que lhe chamem “filigraneiro”. Com as suas mãos cria a estrutura das filigranas, mas depois é preciso encontrar quem, com o fio que tem a espessura de um cabelo as possa encher. São as “enchedeiras”, cada vez menos e cada vez mais velhas» («Filigrana, uma moda em vias de extinção», Miguel Midões, TSF, 14.08.2017, 9h31).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, morreram há muito, pois de enchedeira diz somente isto: «1. espécie de funil para encher chouriços; 2. mulher que enche chouriços».

 

[Texto 8103]

Helder Guégués às 05:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
22
Ago 17

Léxico: «Ísquia»

Quão diferentes

 

      «Abalo de 4.0 atingiu a ilha de Ischia. Primeiro balanço aponta para dois mortos e 39 feridos» («Sismo em Itália. Bebé resgatado com vida dos escombros», Rádio Renascença, 22.08.2017, 6h59). «Um sismo de magnitude 4 na escala de Richter abalou a ilha de Ísquia, no Golfo de Nápoles, sul de Itália, provocando a morte de duas pessoas, além de danos materiais» («Sismo na ilha de Ísquia, em Itália», TSF, 21.08.2017, 22h36).

      Talvez só se encontre a grafia Ísquia na segunda metade do século XX — Rebelo Gonçalves, por exemplo, não regista o topónimo —, mas basta pensar: o que está em harmonia com a nossa língua, Ischia ou Ísquia? Não, não não sabemos todos o mesmo. Não, não temos todos o mesmo cuidado.

 

[Texto 8102]

Helder Guégués às 08:35 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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22
Ago 17

Os «scientificos»

Fracotes

 

      «O resto eram oficiais do Exército. Alferes, tenentes e capitães. Tinham o apoio de veterinários e alguns eram eles próprios oficiais veterinários. Daí a preferência do povo por José Tanganho e pelo seu cavalo, o Favorito. Em 1925, no estertor da I República, fartos de revoluções e golpes de Estado, os portugueses não morriam de amores pelos militares e simpatizavam claramente com um civil de origem humildes que disputava o pódio com os chamados “scientíficos” que possuíam cartas militares e conhecimentos técnicos para enfrentar a prova. Aliás, entre os 39 cavaleiros, só Tanganho e mais dois eram civis» («Tanganho: o herói do povo que ganhou a Volta a Portugal a cavalo», Carlos Cipriano, Público, 14.08.2017, p. 13). Que bazófia, realmente. E, afinal, só dois «scientificos» («scientifico» não levava accento, fique sciente d’isso, Carlos Cipriano — vamos escrever como o outro maluco) chegaram ao final da prova. Quase a propósito: porque é que o Dicionário da Real Academia Espanhola não regista científico, na acepção de cientista, como substantivo?

 

[Texto 8101]

Helder Guégués às 06:45 | comentar | favorito
21
Ago 17
21
Ago 17

Léxico: «galera»

Quem diria?

 

      Oi, galera, tudo na paz do Senhor? Quem é que hoje em dia sabe o que significa galera na acepção deste texto? «Conta Mário Lino: Tanganho era de origem modesta, mas não miserável. O seu pai tinha um negócio de aluguer de trens e galeras. O miúdo crescera entre os cavalos e acabaria a trabalhar para o maior mestre de equitação do país — Vitorino Fróis — que o aconselharia no treino do Favorito. Para se preparar para a Volta, José Tanganho levava o cavalo para a Foz do Arelho, saltava para uma das bateiras e remava pela lagoa enquanto o Favorito era obrigado a nadar e a seguir o barco com o objectivo de “ganhar pulmão”» («Tanganho: o herói do povo que ganhou a Volta a Portugal a cavalo», Carlos Cipriano, Público, 14.08.2017, p. 15).

      Sim, quem sabe? Quase ninguém, ou ninguém. Mais estranho é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignorar a acepção de galera mais usada hoje em dia, derivada, por extensão de sentido, daqueloutra: veículo sem tracção própria que se liga a um camião ou tractor. Imperdoável.

 

[Texto 8100]

Helder Guégués às 06:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
20
Ago 17
20
Ago 17

Género: «abatis»

Antes de morrer

 

      «Apesar de tudo com relativa facilidade, pois os obstáculos maiores eram as pontes destruídas, os abatises, as picadas cortadas com buracos que davam para engolir uma viatura» (Dembos: a floresta do medo; Angola, 1969 a 1971, Carlos Augusto Rodrigues Ganhão. Lisboa: Terramar, 2007, p. 33).

    Isto só serve para alguém, talvez um tenente-coronel, exclamar: «Caramba [ou foda-se], desde 1965 que eu pensava que “abatis” era do género feminino. Porra! Porra!» Pronto, acalme-se, homem, agora já sabe.

 

[Texto 8099]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Ago 17

Como se fala na TVI24

Antes surdo

 

      À porta do Estádio da Luz, para «conferir o ambiente» para o primeiro dérbi da época, entre o Benfica e o Belenenses, estava a repórter da TVI24 Catarina Cardoso. Com muitos adeptos por ali, quase todos ventrudos, e não por acaso com cervejas na mão, escolheu o indivíduo vestido de forma mais vistosa: «Fale-me desta indrumentária.» E isto duas vezes: «indrumentária», «indrumentária». E é assim a inducação dos jovens jornalistas.

 

[Texto 8098]

Helder Guégués às 20:52 | comentar | favorito
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19
Ago 17

Léxico: «vagomestre»

Vago, mestre, muito vago

 

      Guiné, Guerra Colonial. Aparecem-me aqui num texto dois furriéis, um deles com a especialidade de vagomestre. Já não recordava exactamente o que significava a palavra, e por isso consultei o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «sargento responsável pela alimentação numa unidade». Confere com o contexto da obra. Contudo, se consultarmos o Dicionário Aulete, ficaremos com menos certezas: «suboficial do exército francês, encarregado de distribuir a correspondência enviada aos soldados». A etimologia, de facto, conduz-nos a esta definição. Tratar-se-á de uma especificidade portuguesa?

 

[Texto 8097]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | ver comentários (13) | favorito
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18
Ago 17
18
Ago 17

«Pastel/pastelão»

O tamanho conta

 

      «A aparência do dito salgado lembra uma empada em ponto grande, mas o sabor remete-nos para sensações únicas e deliciosas. Trata-se de um pastel redondo, de massa folhada com recheio de carne picada» («Frigideiras, receita com mais de 200 anos», Secundino Cunha, «Sexta»/Correio da Manhã, 11-17.08.2017).

      É o que leio por aqui e por ali, que a frigideira é um grande pastel de massa folhada. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, é um «pastelão de carne, ovos e farinha, especialidade de Braga». Evidentemente, «pastelão» é aumentativo de «pastel», mas por algum motivo se diz que aquela especialidade de Braga é um grande pastel, e não um pastelão. É que este termo também designa, como aquele dicionário regista, e nem todos o fazem, o «prato confeccionado com ovos, cebola e aproveitamento de carnes ou peixe que vão a fritar». Sucede o mesmo com o par empadão, que não é aumentativo de empada em todas as acepções. É curioso que os dicionários registam pastelão/pastel/pastelinho, mas empadão/empada/---. Pois, nada. Chegou-nos de Espanha a empanada, que é uma grande empada, e a empanadilha, que é uma empanada pequena.

 

[Texto 8096]

Helder Guégués às 07:50 | comentar | favorito
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