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Linguagista

Léxico: «pescada-do-cabo»

Êxitos

 

      Ontem comi — previra, erradamente, que não seria grande coisa — lombos de pescada-do-cabo (Merluccius capensis/Merluccius paradoxus) em papelotes. Já ofereci (só os invejosos é que se lembram, aposto) uma pescada-do-alto ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora; agora, generoso, ofereço-lhe uma pescada-do-cabo. Não quero que lhe (e vos) falte nada.

 

[Texto 8217]

E o politburo?

Fracassos

 

       Fracasso atrás de fracasso: a grande derrota do PCP nas autárquicas (e quando é que o tovarich Jerónimo vai para Pirescoxe tratar das galinhas?), o politburo que não chega ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a previsão de abrandamento da economia em 2018... Olhem, escrevam Politbüro ou politbureau.

 

[Texto 8216]

Léxico: «Salomonenses/salomonense»

E estes?

 

      Ah, sim, os Canacas encontraram refúgio no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. A mesma sorte não tiveram os Salomonenses, os naturais das ilhas Salomão. Seremos incapazes de fazer um vocabulário melhor, quando aquele já tem dezenas de anos? Não teremos inteligência, instrumentos, vontade? De que temos medo?

 

[Texto 8215]

Léxico: «Canacas/canaca»

Ah, com dois kk...

 

      «V., por exemplo, o estudo de Maurice Leenhardt sobre a sociedade melanésica e a concepção de pessoa entre os Canacas, onde o corpo não é concebido como forma e matéria isoladas do mundo natural (Leenhardt [1947] 1971)» (Itinerários: a investigação nos 25 anos do ICS, Manuel Villaverde Cabral et al. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2008, p. 675).

    Sim, podemos ver esse estudo de Maurice Leenhardt; o que não podemos ver é os Canacas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Por isso, numa obra, o tradutor escreveu Kanacas e pôs-lhe uma nota de rodapé... Um homem não é de ferro: com dois kk, quem ia conseguir resistir? E, contudo, e estranhamente, encontramo-lo no Dicionário de Inglês-Português e no Dicionário de Neerlandês-Português.

 

[Texto 8214]

Pretos e negros

Ideias feitas

 

      E por falar dos pobres Bugis: na TSF, ouvi anteontem uma entrevista ao encenador Rogério Carvalho, que é negro — ou será preto? É o que vamos descobrir já de seguida. Para a peça que tem no Teatro São Luiz, escolheu treze actores, todos negros — ou serão pretos? «O Jean Genet utiliza a palavra nègre, que é mais pejorativa do que noir, mas em português é o contrário. Há conotações diferentes quando dizemos negros ou pretos. Manteve o título Os Negros», pergunta-lhe Ana Sousa Dias. «O tradutor manteve e nós também. Em Portugal, a palavra “negro” passa por não ser pejorativa, mas a palavra correcta ao referir-se a uma pessoa preta é mesmo “preto”. A palavra que identificamos como pura e que se relaciona com as pessoas nascidas em África que tenham a cor preta é a palavra “preto”. À medida que as pessoas foram adquirindo uma aproximação à cultura ocidental, entraram numa alienação porque perderam as raízes, as ligações aos movimentos culturais. Quando os europeus chegaram a África, os pretos eram os pretos, depois foram-se transformando em negros. Enquanto para os franceses nègre corresponde a uma alienação, a palavra noir não o é. Nègre é um aculturado, que tem uma relação mais próxima com a civilização ocidental, com a cultura ocidental, mesmo no que se refere ao teatro ocidental. Isso significa que houve uma passagem de noir a nègre no sentido da alienação, é um movimento alienatório, uma perda de identidade. Na própria peça, Genet faz essa transposição de um ritual em que se procura aproximar dessa identidade.» Quem é ignorante, é a pergunta que se impõe quando lemos, a propósito de preto, isto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «pejorativo designação preconceituosa, discriminatória ou ignorante de pessoa que tem a pele de cor escura, por elevada pigmentação». Por elevada pigmentação... Tem mais que ver com raça do que com cores: há pretos mais claros do que muitos brancos.

 

[Texto 8213]

Léxico: «Bugis»

Derrotados pelos dicionários

 

      «Indirectamente, o negócio continuou, via Macassar [Macáçar], nas Celebes do Sudeste, para onde se refugiaram muitas famílias católicas, portuguesas e malaias, depois da queda de Malaca. [...] Era uma pequena Malaca, com fortes laços macaenses, no país dos Bugis» (A Viagem de Comércio Macau-Manila, nos Séculos XVI a XIX, Benjamim Videira Pires. Lisboa: Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1994, p. 33).

      Tudo o que é histórico vai sendo varrido dos dicionários, como se fosse sucata ou um peso morto. Pobres Bugis, derrotados pelos dicionários.

 

[Texto 8212]

Falemos de Fátima

Não sou eu quem o diz

 

      Se eu não tivesse mais nada para escrever, lançava mão disto: «O pequeno dicionário de Helder Guégués [Factos e Figuras de Fátima. Um Dicionário, Guerra e Paz, Lisboa, 2017] revela-se muito útil» («Tranquilizar ou desassossegar Fátima?», Frei Bento Domingues, Público, 1.10.2017, p. 31). Como não preciso, porque há sempre matéria em abundância, e até em superabundância, não digo nada. Disse.

 

[Texto 8211]

Léxico: «bicurioso»

Safadice

 

      Ando a ver o termo aqui e ali, e os dicionários, nada: «­— Se alguém insistir numa definição – disse Simone –, diz que és bicuriosa. Isso cala toda a gente, vai por mim» (A Fortuna, Cynthia D’Aprix Sweeney. Tradução de Tânia Ganho. Alfragide: Teorema, 2016). E o que é bicurioso? É — oh abominação! — a pessoa, heterossexual, interessada em ter uma experiência sexual com alguém do mesmo sexo. A interlocutora de Simone ainda responde como muitos leitores o farão: «Isso nem parece uma palavra verdadeira.» Pois não parece, e isso justamente porque foi inventada. Mas vamos ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e encontramos, por exemplo, «fónix». Não, «dasse» não.

      «“If somebody insists on a definition,” Simone said, “tell them you’re bicurious. That will shut them up, trust me.”»

 

[Texto 8210]