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Linguagista

Léxico: «quilombola»

Não um, mas dois

 

      Calcula-se que no Brasil haja mais de 3000 quilombos, comunidades étnicas – quase sempre constituídas por população negra – com tradições e práticas culturais próprias. Aos membros dessas comunidades dá-se o nome de quilombolas. A propósito desta realidade, dois problemas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: não apenas a definição de quilombo («esconderijo de escravos fugitivos») me parece pobre, desajustada, desactualizada, como não regista o vocábulo quilombola.

 

[Texto 8255]

Léxico: «ordinariato»

Isso era dantes

 

      «“Começou por se chamar vicariato castrense, hoje é ordinariato”, explica o actual bispo [das Forças Armadas e de Segurança], D. Manuel Linda. “Foi estabelecida em 1966, mas só no ano seguinte, em 67, se realizou o primeiro curso com 54 padres. Ficaram todos ao serviço das Forças Armadas”» («Capelães militares requisitados em todo o lado. “Pedem-me mais, mas não tenho”», Ângela Roque, Rádio Renascença, 23.10.2017, 6h57).

      Quando ainda era vicariato, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora estava actualizado; hoje em dia, não, pois este dicionário nem sequer regista o vocábulo ordinariato.

 

[Texto 8254]

 

«Mandado/mandato», mais uma triste vez

Cérebros desligados

 

      «A PSP do Porto anunciou a detenção de 16 pessoas, três das quais por alegado tráfico de droga, no âmbito de uma operação realizada na Baixa do Porto na madrugada de sábado. Posse de armas proibidas (uma), condução sob o efeito de álcool (oito), mandato pendente (uma), desobediência (duas) e condução sem carta (uma) foram os restantes motivos que levaram às detenções» («Vários detidos levam a PSP a deter 16 pessoas na Baixa do Porto», Destak, 23.10.2017, p. 2).

      Esta não entra na cabeça dos jornalistas, é escusado. Confundem mandado com mandato, uma coisa simplicíssima, todos os dias. Já o título foi escrito com o cérebro completamente desligado: («Vários detidos levam a PSP a deter 16 pessoas na Baixa do Porto».

 

[Texto 8253]

Tradução: «phlegmy cough»

Reabilitação do catarro

 

      «– Bom dia – conseguiu responder o velho, e depois rebentou num longo ataque de tosse cheia de expectoração» (Pintar o Futuro — Uma História de Amor e de Esperança, Louise L. Hay e Lynn Lauber. Tradução de Duarte Sousa Tavares. Lisboa: Pergaminho, 2012, p. 16).

      Pode dizer-se assim, sem dúvida, mas estamos aqui para melhorar (e para nos divertirmos, e para passar o tempo, e para aprendermos...). No original, duas palavras, phlegmy cough. Então, duas palavras em português — tosse catarrosa. «Algumas tossiam constipadas, e queriam da sua tosse catarrosa fingir a debilidade do peito, que não pode com o coração» (Coração, Cabeça e Estômago, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1969, p. 168).

 

[Texto 8252]

Tradução: «strident»

É preciso ver

 

      «Nas docas da cidade, onde pela manhã os pescadores remexem o salmão pescado na noite anterior, o apoio declarado a Abe mistura-se com a preocupação de que ele seja demasiado estridente e esteja a pôr o Japão em risco» («“Não temos onde nos esconder”», Malcolm Foster, Reuters, tradução de António Domingos, Público, 22.10.2017, p. 19).

      Sim, sim, no original está «too strident», mas strident tem vários significados, é polissémico, e este não se adequa ao contexto. No caso, é enérgico, veemente.

 

[Texto 8251]

«Boga-do-guadiana» e «barbo-de-cabeça-pequena»

Dois dulçaquícolas

 

      «“[Se a seca continuar,] vamos ter de ir salvar peixes”, diz. A operação não é inédita. Quando se deu a grande seca de 2004/2005, recorda, algumas das espécies endémicas ameaçadas, tais como a boga-do-guadiana e o barbo-de-cabeça-pequena, foram salvas pela equipa do Parque Natural do Vale do Guadiana» («Seca chegou ao Algarve e os peixes já estão quase a nadar em seco», Idálio Revez, Público, 22.10.2017, p. 12).

      Ora aqui estão dois simpáticos dulçaquícolas, a boga-do-guadiana (Pseudochondrostoma willkommii) e o barbo-de-cabeça-pequena (Luciobarbus microcephalus), que não nadam nas águas do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 8250]