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Linguagista

Tradução: «arrondissement»

Pode ser mais difícil

 

      «A primeira acção promocional da My Genuine Portugal decorreu na famosa festa de tradições culinárias e vínicas, que atrai meio milhão de visitantes, organizada pela Câmara do 18.° Bairro de Paris, no famoso bairro boémio de Montmartre [Butte-Montmartre]. “Nesta festa, Portugal é o país convidado de honra, porque há uma presença muito forte de portugueses em Paris”, explica o presidente do 18.º Bairro de Paris, Eric Lejoindre, que degustou os produtos portugueses» («“Turistas têm de encontrar produtos de Portugal quando regressam a casa”», Susana Pinheiro, Público, 25.10.2017, p. 20).

    Já uma vez aqui debatemos qual a melhor tradução do francês arrondissement, e creio que concluímos que «bairro» era a melhor. Quem diz que não é a melhor opção esquece ou ignora (no caso de leitores brasileiros) que bairro foi, para nós, durante muito tempo, a designação de área administrativa ou fiscal em que se dividiam algumas cidades. Em Lisboa, ainda se pode ver isso em algumas placas toponímicas. A primeira conclusão é então que uma boa tradução de arrondissement para o Brasil não é necessariamente boa para Portugal, e vice-versa. A porca começa a torcer o rabo quando tivermos o azar de, num mesmo texto, toparmos com a subunidade municipal do arrondissement, que é o quartier. Pois é. Como raro isso acontecerá, por mim continuarei a traduzir por «bairro». Mas podemos ter aqui, no artigo do Público, outro problema: se a arrondissement corresponde, grosso modo, a nossa freguesia (mas a correspondência só acontece com duas ou três cidades francesas), podemos traduzir mairie du 18e arrondissement por «Câmara do 18.° Bairro»? Não me parece.

 

[Texto 8267]

Léxico: «ecovia»

Esta é ecológica

 

      «Há cerca de seis meses, a Região de Turismo do Algarve e a Amal [Comunidade Intermunicipal do Algarve] apresentaram aos parceiros privados uma proposta para que fosse criada uma entidade externa para gerir a ecovia — os 200 quilómetros que vão da fronteira espanhola a Sagres» («Algarve quer atrair os turistas do pedal mas a ecovia é uma armadilha», Idálio Revez, Público, 25.10.2017, p. 17).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora já tem muitas vias, mas não esta ecovia.

 

[Texto 8266]

Com minúscula, hein?

Olhe que não

 

      «Actualmente, esta vila do distrito de Lisboa já disponibiliza bicicletas para uso dos turistas e residentes, com modalidades que vão desde o uso gratuito (mais circunscrito ao centro de Cascais) até à utilização paga, englobada num conceito de mobilidade mais alargado, com estacionamento e/ou comboio (o MobiCascais). [...] No caso da ofo (a grafia é mesmo assim, para se parecer com o desenho de uma bicicleta), que se apresenta como a plataforma líder mundial no mercado de bicicletas partilhadas sem estações fixas de estacionamento (station-free bike-sharing), esta deverá cobrar um euro por cada meia hora de utilização, prevendo-se que as bicicletas estejam operacionais dentro de algumas semanas» («Empresa chinesa de partilha de bicicletas entra por Cascais», Luís Villalobos, Público, 25.10.2017, p. 16).

      Isso é assim, eles querem que se escreva «ofo» e nós obedecemos? O tal escritor também queria que lhe escrevessem o nome com minúsculas, e, como sempre, pelo menos os jornalistas obedeceram. Obedecem menos à gramática e à lógica. Coisas mais substanciais? As bicicletas gratuitas em Cascais, afirma-se, têm um uso «mais circunscrito ao centro de Cascais». Não é verdade. Pode-se usar uma dessas bicicletas (uma vez percorri 40 quilómetros numa, e andei entre o Guincho e o Estoril) por todo o território do concelho. O limite é o horário; no Inverno, das 9h00 às 17h00. As outras, as pagas, foram muito mal escolhidas.

 

[Texto 8265]

«Reparar em si/reparar nela»

Esta é mais grave

 

      «Essas raparigas tratavam-na [a Lupe] com desdém, quando se davam ao trabalho de reparar em si» (Pintar o Futuro — Uma História de Amor e de Esperança, Louise L. Hay e Lynn Lauber. Tradução de Duarte Sousa Tavares. Lisboa: Pergaminho, 2012, p. 22).

      Esta é uma justa homenagem a Montexto, que já nos ensinou isto dezenas de vezes. Qual o sujeito da frase, Duarte Sousa Tavares? Essas raparigas. Então, «quando se davam ao trabalho de reparar nela», Lupe. «These girls treated her with contempt when they noticed her at all.» Confesso que por vezes não é assim tão fácil de ver; este caso, porém, é para principiantes.

 

[Texto 8264] 

Tradução: «moving boxes»

Eu não digo de certeza

 

     «A avó voltou para dentro do seu apartamento no segundo andar, cheio de caixas de mudança e do som persistente de marteladas» (Pintar o Futuro — Uma História de Amor e de Esperança, Louise L. Hay e Lynn Lauber. Tradução de Duarte Sousa Tavares. Lisboa: Pergaminho, 2012, p. 8).

    Pensei, sei lá, que se referisse a caixas de velocidades, gearboxes. Estou a brincar, mas não muito: no original está «moving boxes». O que me parece, contudo, é que nós não dizemos isto assim. No mínimo, escreveria «caixas das mudanças», mas o mais provável seria dar a volta à frase.

 

[Texto 8263]

«Adictivo», pois claro

Aqui não há somas

 

      «“São pessoas com 50, 60 ou mesmo 70 anos que, por causa das dificuldades relacionadas com a ida para o desemprego, porque as microempresas que os empregavam fecharam às centenas, recaíram nos consumos. Alguns tinham casas, famílias constituídas e compromissos que deixaram de poder cumprir e, com a baixa tolerância à frustração que os caracteriza, voltaram aos consumos injectáveis”, contextualiza João Goulão, o director do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e Dependências (SICAD) e um dos anfitriões da Lisbon Addictions 2017 — a segunda conferência europeia sobre os comportamentos adictivos que começou ontem e que até amanhã reúne em Lisboa 1200 especialistas na matéria, provenientes de 70 países» («Salas de “chuto” e kits anti-overdose serão os próximos passos», Natália Faria, Público, 25.10.2017, p. 15).

      Faz Natália Faria muito bem em corrigir: não é «aditivo», mas «adictivo». Felizmente, o Departamento de Dicionários da Porto Editora aceitou, já lá vão mais de dois anos, a minha sugestão, pois também grafava «aditivo».

 

[Texto 8262]

Léxico: «alcântara»

Agora já é comum

 

      «No nosso país apenas [o Hyundai Kauai] vai estar disponível um nível de equipamento, que se pode considerar acima da média. No interior, a única grande diferença passa pela opção entre estofos em tecido ou pele e alcântara (€300)» («O Hyundai Kauai é um SUV compacto», Rui Faria, Destak, 25.10.2017, p. 13).

      Já foi apenas uma marca comercial, agora é nome comum — alcântara —, por derivação imprópria. É um tecido composto por poliéster e poliuretano não fibroso. Para estofos de carro, não é grande coisa, mas, para as marcas enriquecerem brutalmente, tem de ser assim, não é?

 

[Texto 8261]

Léxico: «subtratamento»

Melhor que muito

 

      «De acordo com Fernando Osório [médico responsável pela nova consulta do Centro de Mama do Centro Hospitalar São João, no Porto], o objetivo, “por um lado, é identificar a fragilidade individual, que obriga a uma adaptação do tratamento oncológico proposto e, por outro lado, minimizar o tão praticado subtratamento”» («Nova consulta da mama para maiores de 70 anos», Destak, 25.10.2017, p. 3).

    Sobretatamento já o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem, agora falta este subtratamento.

 

[Texto 8260] 

Léxico: «trapista»

Já que é o interessado

 

      «É em Palaçoulo, no concelho de Miranda do Douro, que vai ser fundado o primeiro mosteiro trapista em Portugal. Chama-se “Mosteiro Trapista de Santa Maria, Mãe da Igreja” e é uma fundação do Mosteiro de Vitorchiano (Itália), pertencente à Ordem Cisterciense da Estrita Observância (OCSO) também conhecida como “Trapista”» («Conhece as monjas trapistas? Estão a chegar a Portugal pela primeira vez na história», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 25.10.2017, 11h00).

      É a oportunidade para dizer que a definição do substantivo trapista é muito, muito pobre no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «religioso da Trapa». Vá, o consulente que esgaravate.

 

[Texto 8259]

Léxico: «sidónio»

Sem ossos

 

      Falemos de doçaria portuguesa. Então porque não estão os sidónios no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pode saber-se? Nasceram em Viana do Castelo vai fazer cem anos, mas agora estão espalhados um pouco por todo o Norte. São bolos redondos ou rectangulares (um caixãozinho sem ossos), que levam ovos, amêndoa e açúcar para rechear uma massa tenra. Exactamente, são uma homenagem a Sidónio Pais que o seu amigo Domingos Amorim, dono da Confeitaria A Brasileira, de Viana do Castelo, lhe quis fazer. Como este, faltam largas dezenas de nomes de doces e bolos nos dicionários, que, contudo, registam outros, por vezes até menos conhecidos.

 

[Texto 8258]