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Linguagista

Léxico: «nhanha»

E esta, para acabar o dia

 

      Está aqui uma pessoa a dizer-me que não conhece nenhuma palavra começada por nh. Francamente. Ocorrem-me várias, que disparo de rajada. A primeira é nhanha. Fá-la anteceder de um «vulgarismo», mas, por favor, querido Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, acrescenta esta. Até porque não és nenhum santinho, vejo que tens langonha e outras igualmente peganhentas, porcas e pecaminosas. Se fica fora dos dicionários — psicologia, por favor —, ainda os inocentes pensam que é alguma coisa antinatural.

 

[Texto 8272]

«Hora de Inverno/hora de Verão»

Perguntar é fácil

 

      «A hora de Inverno está a chegar. Às duas da manhã do domingo, 29 de Outubro, os relógios deverão atrasar uma hora, para a 1h00» («Vem aí a mudança da hora. Prepare-se», Fátima Casanova, Rádio Renascença, 26.10.2017).

      Pergunto a mim mesmo (estou sozinho em casa) se hora de Verão e hora de Inverno não deviam estar nos dicionários. Também pergunto, até porque não custa nada, se ainda se justifica que haja esta dualidade. Ao que sei, não é assim em todos os países.

 

[Texto 8271]

«Arrematar/arrebatar»

Erros arrebatadores

 

      Foi leiloado um fragmento do Muonionalusta (complicado, muitas sílabas), o meteorito mais antigo conhecido no planeta Terra. Ora, uma notícia sobre qualquer leilão atrai sempre um erro fatal dos jornalistas: «O mineral de 26,5 quilos foi inserido na plataforma de leilões digitais a 13 de Outubro e recebeu 25 licitações, acabando por ser arrebatado por 15.999 euros» («Leiloado o mais antigo meteorito milenar que se conhece», Rádio Renascença, 24.10.2017, 13h15). Confundem, porque são semelhantes, arrebatar com arrematar.

      Parece, segundo aquele artigo, que há agora uma febre louca por meteoritos. Todos querem ficar ricos sem mexer uma palha. «Randy Korotev, um geólogo lunar da Universidade de Washington, relata ao New York Times que, desde 2006, já recebeu cerca de 18 mil e-mails de pessoas a tentar perceber o potencial valor da rocha que tinham encontrado. A grande maioria são o que o especialista chama de “meteowrongs” – rochas e metal que se parecem com meteoritos.» E o geólogo, parvo, perde tempo com isto. Bem, mas não foi ele que inventou o termo meteowrong, como se pode depreender do texto.

 

[Texto 8270]

Léxico: «fálgaro»

Vão a Tabosa do Carregal

 

     Deixemos agora as sílabas. Eu disse que não eram apenas os sidónios. Outro: fálgaro. Encontramo-lo em vocabulários, na literatura, em obras de doçaria e na boca das pessoas. Não falta sequer na preciosíssima Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira: «Fálgaro, s. m. Prov. beir. Espécie de bôlo, feito de farinha, ovos, queijo e açúcar: “Contra o Colégio, armavam as doceiras: bolos, fálgaros, rebuçados em tabuleiros de que choviam rendas e badalhocas”, Aquilino Ribeiro, Terras do Demo, II, cap. 5, p. 255).» Cristina Castro (A Doçaria Portuguesa – Norte. Lisboa: Ficta Editora, 2016), porém, foi a Tabosa do Carregal falar com quem ainda faz este bolo e «curiosamente, o fálgaro é considerado um bolo, não um pão, apesar de não conter nenhum elemento doce. Leva três ingredientes: queijo mole, muitos ovos e farinha» (p. 234). Nunca faltam à mesa pelas festas de São Brás, no início de Fevereiro.

 

[Texto 8269]

«Desburocratização» complicada

Tem sete sílabas! Complicado

 

      Hoje é Dia Nacional da Desburocratização, e a Rádio Renascença, ainda antes das 8 da manhã, lembrava a data à sua maneira: foram ouvir Sandra Duarte Tavares, pois queriam «simplificar» a palavra «desburocratização», e uma «linguista» podia ajudar. Esta abundou na opinião: a palavra é «mesmo muito complicada, complicadíssima», vem («é curioso») do francês, «tem tantas sílabas, tem sete sílabas». Fizera antes algumas pesquisas e — fez-se luz! «O mais simples será usar uma paráfrase [sic]: “simplificar a burocracia”.» Fica então Dia Nacional de Simplificar a Burocracia.

 

[Texto 8268]