01
Nov 17

«Quer levar-nos a todos»

Então não é?

 

      «– O futuro a Deus pertence. Ele decidirá – depois, com um sentido mais clínico, rematou a conversa: – A “espanhola” quer levar-nos todos para o cemitério, Alice» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Leya, 2010, p. 9).

      As aspas, as aspas... Bem, mas estamos aqui por outro motivo: com todo/todos (e outros pronomes indefinidos), não se costuma usar o complemento directo regido da preposição a? «A espanhola quer levar-nos a todos para o cemitério, Alice.»

 

[Texto 8286]

Helder Guégués às 18:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Aqui há atrasado»

Mas vamos revivescê-la

 

      «Aqui há atrasado, um amigo jurista garantia-me que se o Ministério Público o acusasse de um crime de homicídio em Bragança, havendo cem testemunhas que garantissem que à hora do crime ele estava em Vila Real de Santo António, a primeira coisa que faria era fugir do país o mais depressa possível» («O maior problema da nossa democracia», Pedro Marques Lopes, Diário de Notícias em linha, 29.10.2017, 00h07).

    Pedem-me que comente o uso da expressão aqui há atrasado. Obedeço. Começar por dizer que não a aprecio nem a usaria, não é útil a ninguém. Já garantir que está correcta, que o seu uso sempre foi circunscrito e hoje em dia quase ninguém a emprega, isso já tem utilidade. «Conta-se que um ladrão de sepulturas que aqui há atrasado violou uma campa, morreu logo ali como esganado por mãos invisíveis e à mesma hora lhe ardia a casa de moradia com mulher, filhos e netos lá dentro» (O Prenúncio das Águas, Rosa Lobato de Faria. Porto: Asa, 1999, p. 43).

 

[Texto 8285]

Helder Guégués às 15:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Sob/sobre», mais uma vez

Revisto, mas pouco

 

      «Por cada dia que passava, surgiam mais xailes negros pelas ruas, homens de cenhos carregados de tragédias, e Lisboa, ainda sobre a pressão dos efeitos traumáticos da Grande Guerra, esvaída de fome, gania prantos e mortos breves, tão apressados que dir-se-ia que Deus apenas lhes dera vida para que a morte os levasse» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Alfragide: Leya, 2010, p. 12).

      Isto de confundir as preposições sob e sobre é muito triste, e ainda mais num livro que foi revisto. Acho, no entanto, que Francisco Moita Flores não é comigo que se vai zangar. Vejam: «Por cada dia que passava, surgiam mais xailes negros pelas ruas e homens de cenhos carregados. Lisboa ainda sobre a pressão do trauma da Guerra, esvaía-se de fome, pranteava os mortos breves, tão mais numerosos que parecia que Deus apenas dava vida para que a morte fizesse o seu trabalho.» Tive acaso acesso aos rascunhos do autor? Não: este segundo texto, datado de Março deste ano, é assinado por Fleming de Oliveira, «advogado, antigo magistrado do MP, antigo Deputado, antigo Presidente da Assembleia Municipal de Alcobaça, crítico literário e autor de várias publicações», que por estes dias lançou a obra No Tempo das Pessoas «Importantes» como Nós, editada pela Câmara Municipal de Alcobaça. Podemos encontrá-lo no seu blogue, aqui.

 

[Texto 8284]

Helder Guégués às 14:39 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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01
Nov 17

«Observância/observação»

Observem

 

      «Houve quem defendesse o cancelamento da parada de Halloween e a observação do luto. Mas acabou por prevalecer o argumento de que isso seria fazer a vontade ao terrorismo, alterar os hábitos de vida, deixar-se intimidar» («Nova Iorque não se intimidou com maior atentado após o 11 de Setembro», José Alberto Lemos, Rádio Renascença, 1.11.2017, 8h55).

      É certo que observação e observância são sinónimos nesta acepção, mas é mais comum, para este caso, usar «observância». Tal como também dizemos «observância da lei», «observância da tradição», etc.

 

[Texto 8283]

Helder Guégués às 14:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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