06
Nov 17

Como se fala por aí

Eram dois

 

      Esta aconteceu com o nosso leitor R. A. e inclui gente competente. Alguém deitara fora uns móveis velhos com ferragens para um terreno mal ajardinado perto do prédio onde mora. Sendo uma cidade, não terá um aviso assim: «Proibido botar lixo.» No dia seguinte, dois marmanjos desmembravam os móveis e levavam algumas partes para a bagageira do carro. Apesar de tudo isto ser claríssimo — e um serviço cívico, a meu ver —, R. A. não resistiu e perguntou o que estavam a fazer. «A tirar metal para a sucata. Quem botou isto aqui é que devia ser caço.» Depois digam que só se fala assim no Brasil. Eu, que até gostava de viver uma temporada no Brasil, acho que os meus nervos não iam aguentar ouvir uma frase assim: «O cara foi pego com a mão na massa, carai!» Ou será que, mudado como estou (mudei muito de ontem para hoje), até ia achar graça? Vou pôr-me à prova.

 

[Texto 8300]

Helder Guégués às 19:25 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «desabelhar»

Era só uma

 

      À tarde, campainha aflita (mas eu já previra): encostou tanto o carro a um dos pilares, mandou dizer, que já não conseguia tirá-lo de lá. Mas só queria «instruções» para a manobra. Mandei-a foi desabelhar dali, e rápido — e de dentro do carro ainda lhe chamei incompetente. Para piorar tudo, veio o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora afirmar que desabelhar é apenas, como verbo intransitivo, «fugir em bando (como um enxame de abelhas)». Não é, Dici, não é. A ideia de dispersar, debandar, fugir cada um para seu lado é a que prevalece, sim, mas desabelhar também é fugir, pôr fora. No caso, era só uma incompetente, não um bando de incompetentes, posso garantir.

 

[Texto 8299]

Helder Guégués às 19:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «flip off»

 

      Lembram-se do caso, recentíssimo, daquela heroína estado-unidense, Juli Briskman de sua graça, que fez um gesto obsceno quando a caravana presidencial lhe passou ao lado? Eu disse heroína? Queria dizer idiota. Avisou os patrões de que era ela a ciclista que aparecia numa imagem que chegou a todo o mundo (talvez não chegasse à Mongólia Interior, não sei). Pois foi despedida. Oh que surpresa! E porque não regista flip off o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora?

 

[Texto 8298]

Helder Guégués às 18:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Sobre «empreendedorismo»

«Conforto fonético»

 

      Hoje, tínhamos dois «especialistas em Língua Portuguesa» no Jogo da Língua, da Antena 1: a que já conhecemos, «residente», e o próprio ouvinte/concorrente/passatempista (mas este estava a «trabalhar», é «auxiliar de canalizador»). Vamos lá ver, devemos dizer «empreendedorismo» ou «empreendorismo»? «Porventura podemos articular a palavra “empreendorismo”, eliminando uma das sílabas, por, enfim, conforto fonético, mas, na verdade, a palavra contém todas estas sílabas: em.pre.en.de.do.ris.mo, em.pre.en.de.do.ris.mo.» Podemos, mas não devemos. Enfim, podemos. Seja pelo «conforto fonético».

 

[Texto 8297]

Helder Guégués às 14:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «subsolador» e «arqueociência»

Aos pares

 

      «Foi aqui que nos anos 60, de forma acidental, o proprietário agrícola dessas terras, José Joaquim Fernandes, deu com ela. “Ao proceder a trabalhos de lavoura estival profunda, deparou com algo que se opunha firmemente ao avanço normal da charrua. Utilizando potente tractor, com pá frontal e subsolador, pôs à luz do dia não as rochas que supunha, mas três enormes pesos de lagar com a sua tradicional forma tronco-cónica [sic] e os entalhes respectivos”, lê-se no livro Villa Romana de Pisões (1972), de Fernando Nunes Ribeiro. [...] “É um campo onde se desenvolvem actividades de investigação e de valorização. Toda a dinâmica que queremos dar a Pisões vai passar-se no âmbito desse campo, que vai congregar investigação de muitas áreas disciplinares, desde a arqueologia, a geofísica, as arqueociências, a química ou a agricultura”, conta o geofísico [Bento Caldeira]» («A ciência está de regresso à villa romana no Alentejo. Pisões», Teresa Serafim, Público, 6.11.2017, pp. 26-27).

      Pois já adivinharam: não estão no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. (E a propósito de arqueo-: também não acolhe arqueocetáceo.) Outra, hipocausto, também usada neste artigo, está mal definida naquele dicionário.

 

[Texto 8296]

Helder Guégués às 14:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «meio-oficial»

Para nunca mais

 

      «Aos 82 anos, [Joaquim Barbosa] continua a dedicar a vida a tornar os outros mais elegantes. Começou aos 11 anos, no Alentejo, perto de Mora. Acabou a 4.ª classe e começou a aprender a profissão à luz do petróleo. Herdou os ensinamentos do pai, que o pôs, primeiro, a tratar dos ferros que funcionavam a carvão. Porque aqui também se começa por baixo, há uma hierarquia a respeitar. De ajudante, meio-oficial, oficial, ajudante de mestre, mestre, até chegar a contramestre, a mais alta das patentes que os mais de 70 anos de ofício há muito lhe conferiram» («Das suas mãos saem obras de arte. Únicas e exclusivas. Como há anos», André Vieira e Cristiana Faria Moreira, Público, 6.11.2017, p. 14).

      Oh meus amigos, mas isso foi há quanto tempo? Há tanto, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ainda nem falava, pois não regista meio-oficial, que, ao que vejo, é muito usado no Brasil. Isto não são apenas os alfaiates que desaparecem, as próprias palavras levam sumiço para nunca mais. Não vieram do pó, mas é para o pó que vão inexoravelmente.

 

[Texto 8295]

Helder Guégués às 12:34 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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06
Nov 17

Léxico: «parémia»

Olha que interessante

 

      «“Mais fere a palavra do que a espada”, “quem tem boca não manda soprar”, “quem cala consente”, “bom é saber calar até ser tempo de falar”... São provérbios, palavras repetidas de geração em geração, sabedoria popular que sobrevive aos tempos. Para preservar esta herança, todos os anos a Associação Internacional de Paremiologia (a ciência que estuda os provérbios) organiza o Colóquio Interdisciplinar sobre Provérbios. A 11.ª edição começou no domingo. Folcloristas, linguistas, historiadores, paremiógrafos, tradutores juntam-se em Tavira para debater sobre provérbios e apresentar trabalhos. Entre paremiólogos, o provérbio mais comum é: “Para cada situação tenha um provérbio sempre à mão”. Rui Soares, presidente da Associação Internacional de Paremiologia e organizador do evento, explicou à TSF a importância de preservar este património e revelou algumas curiosidades. Por exemplo, em média um provérbio tem sete palavras. O provérbio mais curto em português é: “casamento, apartamento”» («“Para cada situação tenha um provérbio sempre à mão”», TSF, 6.11.2017, 9h02).

      Já uma vez lamentei aqui que a definição de parémia no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora seja tão sucinta. Comparem-na, por exemplo, com a que vem no Dicionário de Termos Literários de Massaud Moisés (São Paulo: Cultrix, 12.ª ed., 1999). É um dicionário especializado, bem sei, mas encontramos definições mais longas para coisas mais simples naquele dicionário.

 

[Texto 8294]

Helder Guégués às 10:10 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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