07
Nov 17

Provérbios e Justiça

A ciência dos cabritos

 

      «O advogado Filipe Neto Lopes vai defender este mês, na Faculdade de Direito de Lisboa, uma tese sobre a relação entre o Direito e os provérbios. [...] Filipe Neto Lopes defende que na área judicial, “muitas vezes é mais fácil chegar aos clientes e outras partes com provérbios”. Como exemplos, aponta os provérbios “tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta”, “quem não deve, não teme”, “quem compra a carne, também tem de levar o osso” ou “entre marido e mulher, não metas a colher”» («​Como os cabritos mantiveram José Sócrates na prisão», Cristina Lai Men, TSF, 7.11.2017, 13h18).

   Já foi, Filipe Neto Lopes, já foi; agora, a dificuldade é as pessoas entenderem os provérbios. De qualquer modo, isso não é sintomático do estado de ancilosamento do sistema? (Olha, olha, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora abana-me as badanas a significar que ancilosamento não existe. Pois, pois...)

 

[Texto 8305]

Helder Guégués às 19:47 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Los dedos huéspedes»

Ai, Juan, Juan...

 

      Mas existe algum canto no mundo onde não haja pelo menos uma pessoa com défice cognitivo? Com uma pancada? Era noite e eu velava. Apropriadamente, ouvia na rádio COPE o programa La Noche, de Adolfo Arjona. Às tantas, passam uma mensagem de WhatsApp (Por si quieres dejar notas de audio) de um ouvinte (seria Juan?) que tem vindo a mover céu e terra para descobrir o significado da expressão «los dedos se hacen huéspedes»; em lado nenhum, «ni siquiera en la Internet», o pobre encontrara explicação. Pego no iPad e no DRAE — na mesmíssima Internet — encontro: «antojársele a alguien los dedos huéspedes», que significa «ser excesivamente receloso o suspicaz». E no dicionário de María Moliner encontramos «hacérsele a alguien los dedos huéspedes». Muito difícil...

 

[Texto 8304]

Helder Guégués às 19:32 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «tubarão-cobra»

Acolham-no

 

      «Um tubarão-cobra, considerado uma das espécies mais antigas, foi capturado na costa algarvia, revelou esta segunda-feira o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA)» («​Tubarão “pré-histórico” capturado na costa algarvia», Rádio Renascença, 6.11.2017, 23h41). Nenhum espécimen de tubarão-cobra (Chlamydoselachus anguineus) foi avistado, até à data, nas costas do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 8303]

Helder Guégués às 12:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Patrono/padroeiro»

Se são sinónimos

 

      Estou aqui a ler que São Martinho se tornou o principal apóstolo de toda a Gália e é o padroeiro da França. Nesta acepção, sempre entendi os termos padroeiro, patrono e até orago como sinónimos. Mas cinjamo-nos aos dois primeiros, que até têm, por diferentes vias, o mesmo étimo. Porque é que, sendo sinónimos, não aparecem no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora com a mesma definição? Mais: em patrono nem sequer encontramos, como em padroeiro (e em orago), o domínio religião. Há aqui trabalho para fazer.

 

[Texto 8302]

Helder Guégués às 12:26 | comentar | ver comentários (1) | favorito
07
Nov 17

«Bom samaritano»

O que se usa

 

      «O atirador terá cometido suicídio depois de ter sido baleado por um “bom samaritano” chamado Stephen Willeford que estava junto à igreja e encetou uma perseguição, indicam as autoridades texanas» («​Atirador do Texas tinha problemas com a sogra», Rádio Renascença, 6.11.2017, 21h36).

      Aquilo do bom samaritano (e as aspas?) não é da cabeça do jornalista da Renascença, eu sei, mas será mesmo adequado? Decerto, o indivíduo é digno de todos os louvores, e nem é preciso ver o E Se Fosse Consigo?, da SIC, para concluir que a coragem está pelas ruas da amargura. Nos tempos que correm, coragem — coragem para destilar ódio — só atrás do computador e anónimo. Seja como for, bom samaritano devia estar em todos os dicionários. Estranhamente, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete do adjectivo samaritano, está este sentido figurado: «caritativo». E não falta nada? Ah, sim, já vem assim nos dicionários há décadas e décadas, mas, na prática, é sempre «bom samaritano» que usamos para nos referirmos ao homem bom, salvador.

 

[Texto 8301]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito