22
Nov 17

Léxico: «quaga»

Cavalo selvagem

 

      Não se tira nada dos dicionários, pelo contrário, levamos para lá mais palavras, pois faltam neles muitas. Por exemplo: «O pombo-passageiro já não existe, estamos esclarecidos. Mas isso significa que nunca voltará a existir? As novas técnicas de edição genética fornecem-nos ferramentas que permitem ambiciosos planos de “recuperação” de espécies. E há já algumas tentativas nos laboratórios, para esta e outras espécies. “Os projectos em curso para ‘recuperar’ espécies extintas — seja este pombo, o auroque [um bovino de grande porte extinto] ou a guaga [um mamífero extinto parecido com a zebra] — trabalham no sentido de recuperar um fenótipo que se assemelha ao da espécie extinta”, explica Rute Fonseca [investigadora no Centro de Bioinformática da Universidade de Copenhaga]» («Martha lembra-nos como uma espécie com milhões é extinta», Andrea Cunha Freitas, Público, 22.11.2017, p. 26).

    Cá está: a jornalista não o encontrou nos nossos dicionários e escreveu-o como lhe pareceu melhor, ou de qualquer maneira, sabe-se lá. Então, se o nome científico é Equus quagga quagga, como poderia ser «guaga»? É quaga, e em toda a Infopédia só o encontramos no dicionário de Inglês-Português. Muitas pontas soltas. Na verdade, eu até mais naturalmente seria levado a aportuguesar para cuaga, que é justamente como o fez João Felix Vieira na sua obra Equídeos – Da Pré-História às Áreas Urbanas do Século XXI (Rio de Janeiro: Clube de Autores, 2012).

[Texto 8375] 

Helder Guégués às 21:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «pombo-passageiro»

Ou todos ou nenhum

 

    «Chamaram Martha ao último pombo-passageiro que vivia num jardim zoológico em Cincinnati, nos EUA. Morreu a 1 de Setembro de 1914 e com Martha desapareceu definitivamente da Terra toda a sua espécie (Ectopistes migratorius) que, dizem os registos do passado, chegava a escurecer o dia por minutos com bandos de milhões de aves a passar no céu» («Martha lembra-nos como uma espécie com milhões é extinta», Andrea Cunha Freitas, Público, 22.11.2017, p. 26).

      Qual a razão para não estar nos dicionários? Estar extinto? Então, tirem de lá os dinossauros, os auroques, os mamutes, os dodós. E mais: «Enquanto isso, há já projectos de edição genética a tentar “ressuscitar” o pombo-passageiro ou algo muito parecido com ele.»

 

[Texto 8374]

Helder Guégués às 21:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «hidroagrícola»

Em inglês?

 

      «“Não licenciar novas captações próprias em perímetros urbanos ou servidos pela rede pública de abastecimento, nem nas áreas abrangidas pelos aproveitamentos hidroagrícolas públicos”, é uma das recomendações [da Agência Portuguesa do Ambiente]» («Quase 3500 novos furos de água nos últimos quatro meses», Luciano Alvarez, Público, 22.11.2017, p. 14).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não está. Que fazemos? Escrevemos em inglês, hydro-agricultural, é isso?

 

[Texto 8373]

Helder Guégués às 20:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «fangue»

Explorados e esquecidos

 

      O artista plástico Fernando Nguema era guinéu-equatoriano e, mais concretamente, fangue. Andámos por África a fazer as nossas tropelias, e agora, nem nos dicionários conservamos os seus gentílicos afeiçoados à nossa língua. Lamentável. No Boletim Geral do Ultramar, não falta nenhum, e todos escritos como deve ser: Azandes, Bandas, Congos, Fangues, Lubas, Mongos, Quiocos, Teques, Tetelas, etc. Destes, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas acolhe, salvo erro, dois, e de forma injustificadamente desigual (já o disse a respeito de outros gentílicos), pois um aparece como masculino plural, Quiocos, e o outro como singular, congo. Dadas as dificuldades de interpretação que por aí vejo, não me parece boa opção.

 

[Texto 8372]

Helder Guégués às 19:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «quiquiriqui»

Galos e frangos

 

      Apareceu-me aqui um galo a cantar «quiquiriqui». Erro de estatuto? É que eu pensava que os galos é cocorocó e os frangos quiquiriqui. «Faz o carneiro mé... mé.../O galo cocorocó,/O frango quiquiriqui,/O menino faz oó...» Já não é assim? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, os frangos não cantam assim, mas quase: quiqueriqui.

 

[Texto 8371]

Helder Guégués às 18:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Bosníaco»?

Esqueçam esta

 

      «Foi um de dois bosníacos que conseguiram sair vivos da base de Potočari, onde estava estacionado o batalhão holandês ao serviço da ONU, encarregado de proteger o enclave. O outro sobrevivente chama-se Hasan Nuhanovic (que a Renascença entrevistou em 2011), era intérprete dos holandeses, e teve de informar a mãe, o pai e o irmão que eram obrigados a abandonar as instalações. Foram entregues às tropas de Mladić e foram executados, juntamente com mais de sete mil homens e rapazes muçulmanos» («Na Bósnia, 20 anos são dois dias», Catarina Santos, Rádio Renascença, 22.11.2017).

      «Bosníaco» cheira, já não digo a esturro, mas a italiano, ou não? Não me convence, não usarei.

 

[Texto 8370]

Helder Guégués às 16:01 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Léxico: «ecossustentável»

Atem também estas

 

      Leio aqui num artigo da próxima edição da revista Além-Mar que «a comunidade [quíchua] de Sani Isla escolheu a via do turismo ecossustentável, do artesanato e da silvicultura». Mas, esperem lá, em toda a Infopédia só encontramos o termo ecossustentável no dicionário de Italiano-Português, correspondente a ecosostenibile. Não pode ser, atem-me lá as pontas, pelas alminhas.

 

[Texto 8369]

Helder Guégués às 15:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «tomba-lobos»

Atem as pontas

 

      Não andava, arrastava-se pela passadeira, não por ser aleijado, mas por estar ao telemóvel. Há gente assim. Um tipo menos paciente abriu a janela do seu Fiat 500 e gritou-lhe: «Sai daí, ó tomba-lobos!» Ainda agora estou a rir. Tomba-lobos. Era um indivíduo grandalhão, assim uma espécie de mata-sete, um tanto ou quanto trangalhadanças. Mas, esperem lá, em toda a Infopédia só o encontramos, ao tomba-lobos, no dicionário de Português-Francês, grand flandrin; grand dadais. Não pode ser, atem-me lá as pontas, pelas alminhas.

 

[Texto 8368]

Helder Guégués às 09:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «desmatamento»

Desflorestação? Não!

 

      Esperem, encontrei outro falso brasileirismo no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: regista desmatamento como brasileirismo e remete para desflorestação. Estás a brincar? Bem sei, bem sei: são ainda vestígios da sabotagem.

 

[Texto 8367]

Helder Guégués às 00:52 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Arquitectura íntegra

Quem diria...

 

      O antigo Quarteirão da Real Vinícola de Matosinhos foi reabilitado para acolher acervos de arquitectos, conferências e exposições. É a Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitectura. Parece-me um edifício — e mais do que um edifício, um projecto — muito interessante. O mais espantoso e inesperado, acho eu, é que mantém o c de «arquitectura».

 

[Texto 8366]

 

 

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Imagem de http://pt.euronews.com

Helder Guégués às 00:39 | comentar | favorito
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22
Nov 17

Léxico: «tabla»

Nada de confusões

 

      Estou aqui a ler que o qawwali (nome dado à música devocional do sufismo, ouçam aqui) «é acompanhado de harmónios, tablas e palmas, é a voz que marca o ritmo, a respiração, o louvor, a devoção, o júbilo, a meditação ou a entrega». Não se deixem enganar, tabla não é, nesta acepção, castelhano. E a tabla que está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não tem étimo castelhano. Encontramo-la, sem surpresa, no Dicionário de Termos e Expressões da Música, de Henrique Autran Dourado (São Paulo: Editora 34, 2.ª ed., 2008, p. 322). A tabla é um instrumento de percussão indiano que usa um par de tambores de forma ligeiramente cónica. Ah, já estão a ver...

 

[Texto 8365]

Helder Guégués às 00:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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