24
Nov 17

Léxico: «misofónico»

E usa-se

 

      «Misofonia é uma hipersensibilidade auditiva para sons que outras pessoas acham perfeitamente normais. Investigadores da Universidade de Newcastle desmontam a tese segundo a qual a misofonia é sinónimo de loucura. [...] Mas há uma tese, eventualmente mais rebuscada, que diz que, no caso de um misofónico, este córtex insular anterior está ligado de maneira diferente com a amígdala e com o hipocampo, que são as áreas que se activam na memória de experiências passadas. Más experiências, bem entendido» («Misofonia. Pode explicar a irritabilidade quando ouve alguém mastigar», André Rodrigues, Rádio Renascença, 24.11.2017).

      Sim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe misofonia, mas não o adjectivo misofónico, que, como se vê, é necessário e se usa. E, contudo, acolhe misófono.

 

[Texto 8389]

Helder Guégués às 11:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

De Juba, jubano

04°51′N 31°36′L

 

      Não sou ingénuo nem irrealista, sei bem que nem todas as palavras que usamos no dia-a-dia estarão alguma vez nos dicionários. Até afirmo o contrário, que se usem à vontade ainda que — como não? — ausentes dos dicionários. Na edição de Dezembro da revista Além-Mar, o meu amigo P.e José Vieira, missionário comboniano, que é de certeza a pessoa que mais sabe em Portugal sobre o Sudão do Sul, não conhecimento livresco, mas vivido, prático, assina um texto intitulado «Natal jubano». Ora, nunca eu antes vira a palavra, e talvez não volte a vê-la, e está bem formada, foi necessária. Tal como, por exemplo, de Cuba temos cubano, de Juba formou ele jubano.

 

[Texto 8388]

Helder Guégués às 11:21 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Sexta-Feira Negra

Teorias há muitas

 

      Hoje, também a minha filha acordou com uma teoria sobre a origem da Sexta-Feira Negra. Infelizmente, pareceu-me completamente errada. Mas que sei eu? Nos últimos dias, tropecei em duas teorias nem sequer vagamente semelhantes, e imagino que, se procurasse, coisa que não farei, encontraria mais umas quantas igualmente dissemelhantes. Mais dia, menos dia, tem de figurar ao lado de Sexta-Feira Santa nos dicionários, tal a importância que tem vindo a adquirir. Não encontramos já lá Halloween? Então? Olhem, eu acabei de comprar na Amazon.es o Harmony Hub da Logitech por 69 euros; na FNAC está a 140,99 + 3,99 de portes. Cá, são todas sextas-feiras negras, ou 13, ou com gatos negros disfarçados de lebres fulvas a atravessarem-se à nossa frente.

 

[Texto 8387]

Helder Guégués às 10:26 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Duas espécies, quatro nomes

Aqui mesmo

 

      «A ostra portuguesa (nome científico de Crassostrea angulata), existente no Sado, é uma espécie autóctone, que já deu aos estuários do Tejo e Sado o estatuto de maiores bancos da Europa e cuja produção atingiu enorme importância comercial até ao início da década de 70. Em Setúbal, nas localidades com “braços-de-rio” [sic], a apanha da ostra, exportada sobretudo para França, dava trabalho a mais de quatro mil pessoas. A poluição dos rios e o excesso de captura levaram à quase extinção da ostra do Sado[,] o que, conjugado com a chegada da ostra japonesa (Crassostrea giga) ao mercado francês, determinou o fim desta actividade na região. A espécie japonesa, conhecida como giga, é de rápida proliferação em cativeiro e nos bancos naturais e chegou até Portugal, dominando nos bancos naturais no Algarve» («Resistir à giga», Público, 23.11.2017, p. 17).

      Ao que parece, os caracteres conquiliológicos da ostra-portuguesa ou ostra-do-tejo são tão distintos, que Lamarck a incluiu noutro género, bom motivo, a par de ser nossa, para se dicionarizar o termo. E, naturalmente, até porque conhecemos o nome científico, também ostra-japonesa e giga devem ir para os dicionários.

 

[Texto 8386]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «succínico»

Decidam-se

 

      «Arqueólogos descobriram vestígios de vinho em vasilhas de argila com cerca de oito mil anos, perto de Tbilisi, a capital da Geórgia. Com novos métodos de extracção química, os investigadores confirmaram a presença de ácido tartárico, o principal ácido do vinho, além de outros três ácidos orgânicos associados: málico, succínico e cítrico. Estes são os vestígios de vinho mais antigos alguma vez descobertos. Até agora, os mais antigos tinham sido encontrados em cerâmica com cerca de 7 mil anos, no Nordeste do Irão» («Descoberto vinho mais antigo do mundo. Tem oito mil anos», Rádio Renascença, 23.11.2017, 15h33).

      Succínico ou butanodióico. Nos dicionários bilingues da Infopédia, encontramos succínico; no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é sucínico que registam. Querem explicar?

 

[Texto 8385]

Helder Guégués às 09:40 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «guevarista»

Lá longe

 

      Na Colômbia, o Exército de Libertação Nacional (ELN), que nasceu em 1965, quase ao mesmo tempo das FARC, e que chegou a contar com 35 mil elementos na década de 1990, é de inspiração guevarista. Ora, guevarista não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, onde, por outro lado, encontramos bolivariano (por sugestão minha?).

 

[Texto 8384]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

«Borrada/burrada»

Sai uma borrada

 

      Na emissão de ontem do Jogo da Língua Portuguesa, na Antena 1, o concorrente era contabilista. Contrariando a ideia que temos de um contabilista, uma pessoa séria, ponderada, este mal ouviu a pergunta sobre o que significava «grande disparate», burrada ou borrada, disparou imediatamente que era «borrada». A radialista, que por vezes decide ser simpática e ajudar (mas ontem nem precisava, como vamos ver), levou-o a mudar a resposta. A «nossa especialista em língua portuguesa» veio confirmar que era «a alínea a), “burrada” com u», e pediu desculpa por usar a palavra «porcaria», tal como os rurais analfabetos faziam (fazem?) perante um juiz quando, em tribunal, o caso em julgamento versava sobre porcos. «Com licença, Sr. Dr. Juiz.» Só isto, perguntam? Não. Acontece — e eu nem me quero meter nisto — que os dicionários dizem que burrada, em sentido figurado, significa «asneira», e borrada, também em sentido figurado, é «grande asneira». Asneira, grande asneira... Ai que a «nossa especialista em língua portuguesa» se enganou de novo! Vá, e agora mande-me outra mensagem privada pelo Facebook.

 

[Texto 8383]

Helder Guégués às 09:14 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,
24
Nov 17

Léxico: «abeto-vermelho»

Großartig!

 

      A região polaca de Elk oferece este ano a árvore de Natal para a Praça de São Pedro, um abeto-vermelho de 28 metros de altura cortado pelo Corpo Florestal local e transportado ao longo de dois mil quilómetros. E, em toda a Infopédia, só temos abeto-vermelho no dicionário de Alemão-Português. Realmente... Rottanne. Ja, ja.

 

[Texto 8382]

Helder Guégués às 09:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,