27
Nov 17

Léxico: «lava-mãos»

Ah, mas existe, usa-se

 

      «Encostada a uma das paredes do quarto, está uma escrivaninha de madeira de castanho e, em cima da escrivaninha, um lava-mãos de porcelana» (Os Sonhos de Einstein, Alan Lightman. Tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa, 10.ª ed., 2010, p. 83).

      Lava-mãos. Pois tem duas acepções, mas a palavra não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. No texto, como é óbvio, é o mesmo que lavatório. O outro é um sentido literal, mas substantivado: da mesma maneira que há a cerimónia do lava-pés, também existe a cerimónia do lava-mãos. (E também temos o lava-cu, que é, não a tentativa canhestra de nacionalizar o bidé, mas o nome de uma ave pernalta.)

 

[Texto 8408]

Helder Guégués às 23:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «compactador»

Comprem um destes

 

      «Um homem de 33 anos está em estado crítico depois de ter ficado preso no compactador de um camião do lixo, no estado [sic] de Filadélfia, nos Estados Unidos» («Homem em estado crítico depois de ter sido “recolhido” por camião do lixo», Rádio Renascença, 27.11.2017, 17h55).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem de arranjar um compactador assim, pois só tem este: «espécie de pilão utilizado para tornar compacta a massa de cimento usada nas construções». 

[Texto 8407]

Helder Guégués às 23:10 | comentar | favorito
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«Muleta axilar»

Talvez amanhã

 

      Fui a uma loja de material ortopédico para comprar duas ponteiras de borracha antiderrapante para as canadianas da menina ***, mas não tinham. Só para muletas axilares, acrescentaram desnecessariamente. Os dicionários não deviam registar muleta axilar? Acho que sim. Comprei um par de protecções de neoprene para os punhos.

 

[Texto 8406]

Helder Guégués às 22:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «galicínio»

Hora a que os galos cantam

 

      E a propósito de gaios, lembrei-me daquela complexa divisão do dia a que procedeu Censorino, o gramático do século III. Uma dessas divisões era o gallicinium, primeiro cantar do galo. Ora, quem diria que essa palavra ainda resiste nos nossos dicionários, como no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Espantoso. Galicínio: «1. hora da manhã a que os galos cantam; 2. canto do galo».

 

[Texto 8405]

Helder Guégués às 21:45 | comentar | favorito
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Léxico: «gaio»

Mais acção

 

     «Cada gaio esconde vários milhares de bolotas por ano, para comer durante o inverno, mas muitas acabam esquecidas. Estes pássaros são por isso importantes semeadores de carvalhos e de outras plantas da espécie Quercus, como sobreiros e azinheiras. A Montis – Associação de Conservação da Natureza, sediada em Vouzela, no distrito de Viseu, acredita por isso que os Gaios podem ajudar a recuperar as áreas afetadas pelos incêndios dos últimos meses» («E se estes pássaros conseguissem ajudar a reflorestar áreas ardidas?», Carolina Rico, TSF, 25.11.2017, 14h09).

      Podemos ajudar, e eu acabei de o fazer. Vejam aqui. E agora as nossas coisas: como é que a definição de gaio no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora saiu tão pobrezinha? «ORNITOLOGIA pássaro robusto, da família dos Corvídeos, sedentário e comum em Portugal». Nem o nome científico, Garrulus glandarius, nem uma referência à tão característica cor azul das asas, nada.

 

[Texto 8404]

Helder Guégués às 20:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «feudalizante»

E porque não?

 

    «As temáticas dominantes são o amor narrado por “pastores enamorados” (Tractato V, 3), geralmente com um ambiente bucólico e um andamento narrativo, e o amor proposto segundo “os modernos”, com palavras “mais subtis e mais graciosas» (ibidem), “motivação de cariz mundano-elegante das conotações feudalizantes originais e cavalheirescas da origens controversas linguagem amorosa convencional”» (Idade Média, vol. 3 – Castelos, Mercadores e Poetas, Umberto Eco. Tradução de Carlos Aboim de Brito e Diogo Madre Deus. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2014, p. 872).

      Sim, porque não registá-la, quando encontramos outras semelhantes nos dicionários? Não podemos continuar a dirigir encómios sem fim aos dicionários de outras línguas e, ao mesmo tempo, a expulsar vocábulos dos nossos.

 

[Texto 8403]

Helder Guégués às 15:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Da revisão

Não acredite

 

      «O Aare curva para leste, polvilhado de barcaças carregadas de canela e de carvão» (Os Sonhos de Einstein, Alan Lightman. Tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa, 10.ª ed., 2010, p. 70).

       Carregadas de canela e de carvão... Hum... As mesmas barcaças, carregadas de canela e de carvão? Espreitemos o original: «The Aare bends to the east, is sprinkled with boats carrying potatoes and sugar beets.» É assim que aprendemos a ser desconfiados. O que muda com a leitura deste livro é que já não direi que no original pode estar qualquer coisa de semelhante, mas sim que estará qualquer coisa. Acontece aos melhores, as sinapses emaranham-se, confundimos as linhas, o diabo a sete. Sim, mas e então o revisor, estava de folga? E ia na 10.ª edição...

 

[Texto 8402]

Helder Guégués às 15:03 | comentar | favorito
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27
Nov 17

Léxico: «edelvais»

Vamos às variantes

 

       «Uma pessoa nascida em Dezembro num qualquer país europeu nunca verá desabrochar os jacintos, os lírios, os ásteres, os cíclames e os edelvais, nunca verá as folhas do plátano tornarem-se vermelhas e douradas, nunca ouvirá os grilos ou os pássaros» (Os Sonhos de Einstein, Alan Lightman. Tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa, 10.ª ed., 2010, p. 67).

      Neste caso, o erro é do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não regista esta variante de edelvaisse. Os bons dicionários acolhem todas as variantes. Ali atrás, eu registaria não apenas cetogénico, mas também cetogénio. Como é que os falantes sabem se determinada grafia de uma palavra é a correcta?

 

[Texto 8401]

Helder Guégués às 14:57 | comentar | favorito