28
Nov 17

«Consulta cidadã»

Coerência até ao fim

 

      «Este tipo de consulta cidadã acontece em muitos países», disse Marina Costa Lobo, investigadora do ICS, ao Público. Isto a propósito da consulta aos cidadãos por parte do Governo que tanta escusada polémica deu. Não é a primeira vez que aqui trago uma reflexão sobre este uso novo do adjectivo «cidadão». Creio que foi a pretexto da expressão «jornalismo cidadão», que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista. Pois bem, se faz isto, no verbete cidadão como adjectivo, não pode limitar-se a registá-lo como sinónimo de «citadino». Ao acolher aquela expressão, tomou uma opção, que tem de levar agora até ao fim. «Consulta cidadã» não é uma consulta citadina.

 

[Texto 8414]

Helder Guégués às 22:15 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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Dano de apego/dano de afeição

É o mesmo?

 

     «Além destas duas categorias, ainda para efeitos de cálculo de indemnização, há uma terceira que diz respeito “aos danos directamente sofridos pelos familiares mais próximos da vítima”. “É o chamado dano de afecto, de apego, ou desgosto por o familiar ter falecido”, explicou o professor da Faculdade de Direito de Coimbra [Sousa Ribeiro]» («Incêndios. 70 mil euros de indemnização mínima por cada morto», Rádio Renascença, 28.11.2017, 13h52).

      Ora, eu pensava que dano de apego era a designação do dano não patrimonial referente à relação sentimental com uma coisa (imóvel ou móvel, onde agora já não se incluem os animais), ao passo que em relação à morte de familiares próximos era dano de afeição. Vou estudar isto melhor.

 

[Texto 8413] 

Helder Guégués às 19:56 | comentar | favorito
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Será sempre Birmânia

Deixem tudo igual

 

      «O Governo do Myanmar anunciou esta terça-feira a realização de um congresso das minorias étnicas, que terá como objectivo abordar e tentar resolver algumas das reivindicações das várias etnias que existem no país» («Em plena viagem papal, Governo birmanês anuncia congresso de minorias étnicas», Rádio Renascença, 28.11.2017, 14h11).

      É só mais uma das dificuldades: onde está, qual é o adjectivo? Ah, pois... A outra é que a esmagadora maioria dos falantes jura nunca ter ouvido falar em tal país. E outra, menos grave: uma parte escreve o topónimo com i e outra parte com y.

 

[Texto 8412]

Helder Guégués às 15:45 | comentar | ver comentários (13) | favorito
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Léxico: «pelargónia»

Só os poetas

 

      «“Um dia alguém me perguntou para que é que servia a poesia. Eu perguntei-lhe se alguma vez tinha passado numa rua aqui do Porto, a Rua das Flores. Ainda há pouco tempo havia muitas janelas que tinham sardinheiras, as pelargónias. Perguntei-lhe se ele percebia porque é que as pessoas punham essas flores nas janelas”, conta o editor [José da Cruz Santos], e explica, “punham porque têm falta de poesia. É a forma que têm de mostrar que sentem a noção de poesia”» («José da Cruz Santos. Poesia, sardinheiras à janela e a obra de uma vida», Joana Carvalho Reis, TSF, 28.11.2017, 11h55).

      Não perguntem ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o que são pelargónias, ele não sabe. Só os poetas é que sabem.

 

[Texto 8411]

Helder Guégués às 15:25 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «tolde»

Estamos na época dela

 

      «Isabel Sousa, de 43 anos, vai puxando o toldo para que nenhuma azeitona se perca no chão, e atesta a qualidade do fruto. “Temos bastante e boa azeitona e bem grandinha. E com este tempo apanha-se bem”, diz à Renascença. O trabalho não é difícil. “Não custa nada, porque a máquina ajuda a varejar. A azeitona cai toda no tolde e é só apanhar”, conta Isabel, explicando que “das árvores pequeninas, a azeitona é apanhada directamente com as mãos, porque não convém andar a bater”» («Há mais azeitona do que a esperada. Compradores estrangeiros oferecem preços aliciantes», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 28.11.2017, 9h42).

      Nesta acepção, sempre ouvi «tolde» e não «toldo». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora limita-se a remeter de tolde para toldo, mas faz mal, porque não se pode afirmar que a definição deste — «pano de lona ou qualquer outra cobertura que sirva para abrigar do sol ou da chuva» — contempla a acepção em causa.

 

[Texto 8410]

Helder Guégués às 12:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
28
Nov 17

Léxico: «charca»

Aproveite-se a oportunidade

 

      «O presidente da Câmara de Bragança anunciou que tem um plano para construir 39 charcas em todas as freguesias do concelho e três novas barragens para armazenar água e evitar problemas em períodos de seca» («39 charcas e 3 barragens em Bragança para combater a seca», Rádio Renascença, 27.11.2017, 7h43).

      O problema não é tanto o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora remeter de charca para charco, porque é, no fundo, isso. O problema é sobretudo charco estar mal definido, ou não contemplar uma acepção mais específica: «1. porção de água estagnada e pouco profunda; 2. lamaçal; atoleiro». As charcas de que o artigo trata são depósitos, reservatórios de regularização, e captadores de água para uso na agricultura, e têm origem artificial, ao passo que os charcos são naturais.

 

[Texto 8409]

Helder Guégués às 09:51 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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27
Nov 17

Léxico: «lava-mãos»

Ah, mas existe, usa-se

 

      «Encostada a uma das paredes do quarto, está uma escrivaninha de madeira de castanho e, em cima da escrivaninha, um lava-mãos de porcelana» (Os Sonhos de Einstein, Alan Lightman. Tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa, 10.ª ed., 2010, p. 83).

      Lava-mãos. Pois tem duas acepções, mas a palavra não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. No texto, como é óbvio, é o mesmo que lavatório. O outro é um sentido literal, mas substantivado: da mesma maneira que há a cerimónia do lava-pés, também existe a cerimónia do lava-mãos. (E também temos o lava-cu, que é, não a tentativa canhestra de nacionalizar o bidé, mas o nome de uma ave pernalta.)

 

[Texto 8408]

Helder Guégués às 23:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Nov 17

Léxico: «compactador»

Comprem um destes

 

      «Um homem de 33 anos está em estado crítico depois de ter ficado preso no compactador de um camião do lixo, no estado [sic] de Filadélfia, nos Estados Unidos» («Homem em estado crítico depois de ter sido “recolhido” por camião do lixo», Rádio Renascença, 27.11.2017, 17h55).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem de arranjar um compactador assim, pois só tem este: «espécie de pilão utilizado para tornar compacta a massa de cimento usada nas construções». 

[Texto 8407]

Helder Guégués às 23:10 | comentar | favorito
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